Capítulo 1

**Carolina Fernandes**

Eu aperto os olhos com força, o sono ainda grudado nas pálpebras como uma película teimosa e quente, e solto um bocejo longo e profundo que reverbera no quarto silencioso. O frio úmido da manhã se infiltra pela janela sem cortina, fazendo meu corpo hesitar antes de se esticar na cama de solteiro que range baixinho sob meu peso, como se reclamasse do esforço. Aos poucos, a claridade tímida e dourada do amanhecer invade o quarto, pintando as paredes simples com tons suaves de laranja e rosa pálido. Finalmente, reúno forças e me levanto. Meus pés descalços tocam o chão de cerâmica gelado, enviando um arrepio que sobe pelas pernas e me desperta de vez.

Respiro fundo, enchendo os pulmões com o ar puro, vivo e levemente perfumado de orvalho e terra. É diferente de tudo que conheci antes. Lá fora, o cacarejar ritmado das galinhas se entrelaça ao canto alegre e despreocupado dos pássaros que pousam no telhado de telhas antigas. Nenhum som de buzina estridente, nenhum ronco de motor de carro em alta velocidade, e — o mais libertador de tudo — o silêncio absoluto no lugar do estalo seco e aterrorizante de tiros que era uma constante no Rio.

Fecho os olhos por um instante, tentando assimilar onde estou. A tranquilidade que envolve tudo me faz sentir estranha, quase deslocada, como se a qualquer momento eu pudesse acordar de volta no meu antigo quarto apertado e abafado, cercada pelo caos incessante da cidade grande. Mas isso não acontece. Não mais. Estou longe daquele inferno.

Pensar em como minha vida mudou tão drasticamente em tão pouco tempo traz uma dor aguda ao peito. Um nó apertado sobe pela minha garganta, mas eu o engulo com dificuldade, forçando-o a descer. Minha existência sempre foi um ciclo cruel de abandono e solidão, e isso não mudou por completo. Só que, desta vez, talvez tenha sido para melhor.

Minha mãe sempre teve um talento quase sádico para me colocar em segundo plano. Havia sempre um namorado novo, uma paixão passageira, uma promessa vazia de felicidade que nunca se cumpria. Franco foi apenas mais um nome na longa lista, mas ele era diferente dos outros. Não me olhava com aquele desejo repulsivo e lascivo que me fazia sentir suja e exposta. Em vez disso, não havia desejo algum — só uma indiferença fria e cortante. Ele me encarava como se eu fosse algo quebrado, manchado, indigna de ocupar o mesmo espaço que ele. No fundo, eu era apenas um lembrete incômodo de que eu existia.

E então, duas semanas depois, minha mãe deixou tudo claro, com uma praticidade cortante, quase cruel: ou eu ia morar com meus avós — pessoas que eu mal conhecia —, ou ficaria por minha conta. Ela foi direta, fria como gelo, ao afirmar que não me daria um único centavo. De qualquer forma, eu já não fazia mais parte dos planos dela. E como poderia? Ela agora tinha Franco, um “homem de bem”. Eu? Eu era apenas o problema que ela carregava desde os dezenove anos — a mesma idade que tenho agora.

Meus dedos roçam o rosto enquanto inspiro profundamente, tentando afastar essas memórias dolorosas que insistem em voltar como sombras.

Naquele mesmo período, perdi meu emprego na lanchonete de fast-food. O gerente disse que não podia me defender depois que joguei refrigerante no rosto de um imbecil que havia passado dos limites. Era óbvio que eu estava certa, mas, como sempre, ser mulher significava ser automaticamente culpada.

Minha vida inteira havia sido uma batalha solitária e exaustiva. Minha mãe costumava dizer que meu pai fugira para o exterior assim que soubera da gravidez dela. Casado, é claro — um homem que nunca quis saber de mim. Ela falava pouco dele, talvez porque a verdade a incomodasse demais ou porque, no fundo, nunca esperara que alguém ficasse ao nosso lado. Eu cresci sozinha, andando por ruas perigosas do Rio, com o medo constante do que poderia surgir a cada esquina escura. As festas dela sempre eram prioridade sobre as contas da casa. Eu me trancava no quarto, no escuro, colocando música alta para abafar o barulho das brigas e gritos que ecoavam pela sala.

Agora, estou aqui, na casa de dois estranhos que se apresentam como meus avós. Ainda não sei se consigo confiar neles ou se vou me acostumar a uma vida onde não preciso mais olhar constantemente por cima do ombro. Mas, ao me inclinar na janela e sentir o cheiro fresco e terroso da terra molhada pela orvalho da manhã, misturado ao perfume sutil das flores do campo, percebo que, pela primeira vez em muito tempo, meu coração não está tão pesado quanto antes.

Talvez minha mãe tenha feito um favor sem intenção. Talvez ter sido mandada para cá seja o início de algo que eu nunca imaginei que pudesse existir: paz. Mesmo que tudo ainda pareça estranho e distante, eu sei que não é uma mudança ruim.

Me lembro de quando comecei a trabalhar, ainda pré-adolescente, mas já consciente de que não podia esperar nada de ninguém. Enquanto as outras meninas da minha idade se preocupavam com esmalte lascado ou com quem iria à festa de sexta-feira, eu limpava casas, cuidava de crianças que não eram minhas ou passava madrugadas fazendo brigadeiros e bombons para vender no colégio, com as mãos grudentas de chocolate e o corpo doendo de cansaço.

A primeira vez que peguei um rodo nas mãos foi quase cômica. Eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Passei quase duas horas esfregando um chão que, a cada passada, parecia ficar ainda mais sujo, com o suor escorrendo pela testa. Mas eu aprendi. Tinha que aprender. Uma vizinha me indicou para outras casas, e de repente minhas manhãs de sábado deixaram de me pertencer. Depois, virei babá. Gostava das crianças, mas era estranho cuidar delas com tanto carinho sabendo que ninguém nunca havia cuidado de mim daquela forma. Algumas mães eram gentis e me deixavam comer o que quisesse da geladeira; outras me vigiavam com olhar desconfiado, como se estivessem me fazendo um grande favor.

A ideia de vender brigadeiros foi minha. Eu ficava acordada até tarde, enrolando as bolinhas de chocolate com as mãos grudentas de manteiga e açúcar, enquanto o som da televisão ligada na sala preenchia o silêncio. Minha mãe às vezes passava pela cozinha, ria de mim e dizia: “Você devia estar dormindo, menina, essas coisas não dão futuro”. Ela nunca entendia. Eu vendia cada doce com um sorriso no rosto, mesmo com as pernas doendo de tanto andar entre as salas do colégio. Mas, claro, quando a direção proibiu, alegaram “questões de organização”. Nunca mencionaram que outros alunos de classe média também vendiam coisas — esses ninguém incomodava. Talvez porque os brigadeiros deles viessem em embalagens bonitas, enquanto os meus eram embrulhados em plástico simples e barato.

O dinheiro nunca sobrava. Ia direto para pagar as contas que minha mãe deixava acumular: água, luz, gás. Às vezes eu tentava comprar algo para mim — uma roupa nova, um livro ou materiais para estudar —, mas a realidade logo batia à porta como o cobrador da energia. Ela não sabia economizar, preferia gastar em roupas, maquiagem e festas. No final, era sempre eu quem precisava salvar a situação.

Estudar para o Enem era um desafio constante. Eu chegava em casa exausta, o corpo implorando por descanso, mas a mente ainda cheia de sonhos. Queria cursar Gastronomia mais do que qualquer coisa. Só de imaginar as aulas, as cozinhas profissionais cheias de ingredientes frescos e aromas deliciosos, os pratos elaborados nascendo das minhas mãos, meu coração acelerava. Sonhava em abrir meu próprio restaurante um dia — um lugar só meu, onde eu pudesse transformar a necessidade em arte, o esforço em beleza.

Mas a realidade era implacável. Muitas vezes as apostilas ficavam abertas à minha frente enquanto eu apagava de cansaço, as letras borrando diante dos olhos. Enquanto outras pessoas da minha idade tinham tempo e dinheiro para cursinhos preparatórios, eu precisava escolher entre trabalhar e estudar. E eu sempre escolhia trabalhar, porque era o que tinha que ser feito.

Mesmo assim, eu não desistia de sonhar. Cada brigadeiro enrolado, cada chão limpo, era uma pequena promessa que eu fazia a mim mesma.

"Um dia, eu vou sair daqui."

"Um dia, eu vou cozinhar não por necessidade, mas por amor.'

"Um dia, eu vou provar para mim mesma que sou capaz."

Agora, sentada aqui, olhando para o sol nascente que tinge o céu de tons quentes e sentindo o cheiro fresco do campo, eu penso que talvez esse sonho ainda esteja vivo. Talvez, mesmo depois de tudo, ainda exista um caminho. Eu só preciso encontrá-lo.

Uma batida leve à porta me tira dos meus devaneios.

— Carolina? Minha fia? — A voz doce da minha avó Rosa, mesmo baixa e tranquila, carrega uma firmeza que me faz querer levantar imediatamente. Eu já reconheço esse tom: é o de quem se preocupa de verdade.

— Já estou de pé, vó — respondo, tentando soar mais animada do que realmente me sinto.

A porta range suavemente ao ser aberta devagar. Ela sorri para mim, um sorriso que ilumina todo o seu rosto marcado pela vida. Nos últimos meses, Rosa tem me dado mais carinho genuíno do que minha mãe me deu em toda a vida. É um amor que não machuca, que não cobra nada em troca. Um tipo de amor que me assusta, porque eu nunca aprendi como retribuí-lo.

— Seu avô vai te levar até a cidade hoje, para o trabalho novo — ela diz, entrando no quarto com passos leves. — É bom começar cedo. Mostra que ocê é responsável.

Assinto. Por um momento, ela me olha como se quisesse dizer algo mais, talvez para me acalmar, sabendo que estou nervosa. Mas ela apenas aperta meu ombro com carinho antes de sair, dizendo:

— Não demore, vou deixar o café pronto.

Quando a porta se fecha, fico parada por alguns segundos, sentindo o vazio suave que ela deixa para trás. Sempre ouvi minha mãe falar tão mal dos próprios pais. Rosa e meu avô Osvaldo nunca foram mencionados com carinho. Ela dizia que eles não apoiavam seus sonhos, que viviam criticando-a. Foi por isso que fugiu de Minas Gerais para o Rio, cheia de planos de se tornar artista. Nunca me contou os detalhes, mas desconfio que nem eles sabiam que ela tinha ido embora. Às vezes me pergunto se, caso ela tivesse ficado, tudo teria sido diferente. Talvez ela tivesse compartilhado seus sonhos com eles. Talvez eles a tivessem apoiado. E talvez eu nem tivesse nascido. Mas esses pensamentos não me levam a lugar nenhum.

Respiro fundo e começo a me arrumar. Visto uma calça jeans simples e uma blusa básica, depois vou ao banheiro fazer minha higiene matinal. A água gelada b**e no rosto, me despertando completamente, mas não consegue acalmar o frio de ansiedade que revira meu estômago.

Quando saio, sigo até a cozinha. O aroma rico e convidativo de café fresco invade o ambiente, aquecendo o ar. Minha avó arruma a mesa com cuidado, enquanto meu avô ajeita o chapéu de palha antes de sair com a caminhonete. Eles parecem tão tranquilos, como se a vida aqui fosse feita apenas de rotinas simples e seguras.

— Senta e toma um café, menina. Não dá pra sair sem comer nada — diz minha avó, com a voz gentil, porém firme.

— Não estou com fome, vó. Tô... nervosa — admito, cruzando os braços sobre o peito.

Ela me lança aquele olhar característico de avó: uma mistura perfeita de paciência infinita e determinação.

— Então pega ao menos uma fruta. Vai te dar energia — responde, apontando para a fruteira no centro da mesa.

Eu sei que não adianta argumentar. Pego uma tangerina e começo a descascá-la devagar, sentindo os dedos afundarem na casca fina e o cheiro cítrico e fresco se espalhar pelo ar.

— Vai dar tudo certo, Carolina. Deus tá cuidando de ocê, e o Otávio é um homem bom. Não precisa se preocupar — afirma ela, me puxando para um abraço de lado.

Otávio. Repito o nome mentalmente, tentando imaginar quem ele é. Parece nome de homem mais velho. Imagino alguém rabugento, talvez solitário demais. A ideia de trabalhar na casa de um viúvo me deixa apreensiva, mas tento afastar esses pensamentos sombrios.

— Vamos, Carolina, minha fia — chama meu avô da porta, as chaves da caminhonete balançando em sua mão. — A cidade não é longe, mas a pé demora mais de uma hora.

Assinto, jogando a casca da tangerina no lixo e respirando fundo. Antes de eu sair, minha avó me puxa para mais um abraço apertado e quente.

— Ocê é forte, minha neta. Só lembra disso.

Eu sorrio de canto de boca, sem conseguir responder. Ainda não sei se acredito em mim mesma, mas é bom ouvir essas palavras.

Subo na caminhonete e me acomodo no banco gasto, sentindo o cheiro de couro velho misturado ao perfume constante de terra molhada que parece impregnar tudo por aqui. O motor ronca alto e a caminhonete começa a se mover. Olho para trás e vejo minha avó acenando na porta.

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