Uma Rendenção para o Cowboy
Uma Rendenção para o Cowboy
Por: Laura Ivanish
Prólogo

Otávio Albuquerque

Segurei o porta-retratos entre as mãos trêmulas, e o mundo pareceu encolher ao redor do meu peito, como se uma mão invisível o apertasse com força cruel, esmagando o ar que eu tentava respirar. Os cachos dourados de Letícia reluziam na fotografia sob a luz fraca da sala, quase vivos, dançando como se o vento da fazenda ainda os soprasse. Seus olhos azuis, profundos e cheios de vida, me encaravam diretamente, como se soubessem do vazio que haviam deixado dentro de mim um buraco escuro, latejante, que nenhuma palavra conseguia preencher.

As lágrimas vieram sem aviso, quentes e pesadas, escorrendo pelo meu rosto e molhando a moldura de madeira envelhecida. Eu não fiz o menor esforço para contê-las. Já havia aprendido, da forma mais dura, que fingir que a dor não existia só a tornava mais afiada, mais insistente. Ela se instalava nos ossos, nas noites insones, e se recusava a ir embora.

Mais um ano. Mais um maldito ano desde o dia em que ela se foi, e ainda parecia que havia sido ontem. O tempo, ao contrário do que diziam, não curava nada; apenas empurrava a ferida para um canto, onde ela pulsava em silêncio, à espera de um gatilho.

— Eu sinto tanto a sua falta, Letícia... — murmurei, a voz rouca e arranhada, como se a garganta estivesse cheia de areia. — Eu só queria que você estivesse aqui. Só isso... Um minuto que fosse. Um abraço. Qualquer coisa.

Sentei-me devagar na poltrona de couro gasto, aquela que ainda guardava o cheiro dela misturado ao meu, com o porta-retratos apertado contra o peito como se fosse uma âncora. A memória me acertou em cheio outra vez, um soco no estômago que me fez curvar o corpo: a chuva torrencial batendo no telhado, o telefone tocando sem parar, a voz trêmula de Patrício do outro lado da linha, quase irreconhecível, dizendo que o carro havia capotado na estrada de terra. Que Letícia... que ela não resistira. Que tinha partido ali mesmo, antes mesmo que o socorro chegasse, o corpo preso entre as ferragens retorcidas.

Eu me lembrei da visão escurecendo, das pernas fraquejando, de ter que me agarrar à beirada da pia da cozinha para não desabar no chão frio. Aquele momento não tinha passado. Nunca passaria. Ele morava dentro de mim, arranhando as paredes da minha alma a cada respiração.

— Eu te amo, Letícia. Meu coração sempre vai ser seu, viu? — sussurrei para a foto, traçando com o polegar o contorno do seu sorriso congelado. — Não importa quanto tempo passe... Nunca vai haver mais ninguém.

Levantei-me com dificuldade, as pernas pesadas como chumbo, e coloquei o porta-retratos na mesinha de centro com o cuidado de quem manipula algo sagrado, como se ela pudesse sentir o movimento dos meus dedos. Caminhei até o aparador antigo, onde a luz do entardecer entrava enviesada pelas janelas empoeiradas. A garrafa de uísque havia acabado na semana anterior, e eu não tivera coragem de comprar outra — até hoje. Hoje, o dia exigia algo mais forte. Servi uma dose generosa de cachaça no copo de vidro grosso, o líquido âmbar brilhando como um aviso. Virei de uma vez. O fogo desceu queimando pela garganta, espalhando-se pelo peito, como se tentasse brigar de igual para igual com a dor que me consumia por dentro.

A porta da sala se abriu de repente, com um rangido familiar das dobradiças antigas, e a voz arrastada e inconfundível de Rosário ecoou pelo ambiente:

— Mas, homem de Deus, tu tá bebendo logo cedo, é?

Reviro os olhos, sem me virar, e não respondi. O silêncio foi minha única defesa.

— Isso não era o que Letícia queria pra ti, não, viu? — insistiu ela, a voz carregada de preocupação maternal.

A menção do nome dela na boca de outra pessoa me cortou como uma faca afiada. Apertei o copo com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.

— Hoje é um dia difícil, Rosário — respondi, seco, sem tirar os olhos do fundo do copo vazio. — E a gente combinou que cê não ia se meter.

Ela soltou um suspiro longo, pesado, e eu quase pude ver o arrependimento estampado em seu rosto enrugado pelo sol da fazenda. Pigarreou, desconcertada, mudando o peso de um pé para o outro.

— Tá, tá. Desculpa. É que... eu vim avisar que a moça que vai ficar no meu lugar começa hoje.

Soltei um suspiro fundo, exausto, do tipo que nasce de quem já se rendeu ao inevitável tantas vezes.

— Eu não preciso de ninguém.

— Aham — retrucou ela, cruzando os braços sobre o avental florido, o tom prático de quem não se deixava enganar. — Igual da outra vez que eu fui visitar minha irmã. Quando voltei, essa casa estava um chiqueiro. Parecia que tinha passado um furacão aqui dentro, com roupa suja empilhada, louça na pia e poeira em tudo quanto é canto.

Frustrado, bufei alto, o ar escapando entre os dentes.

— E agora você vai ficar três meses, né? — perguntei, buscando mais uma vez a confirmação que eu já sabia de cor.

Rosário era a única pessoa que me suportava de verdade. Ela e o marido, Eusébio, me conheciam desde a adolescência. Haviam trabalhado por anos com meus pais, e quando eles se mudaram para Belo Horizonte, o casal decidiu ficar em São Domingos. Eu ficaria para cuidar das lavouras de soja e milho que se estendiam até o horizonte; eles, para cuidar de mim. Eusébio lidava com o maquinário pesado na fazenda, e Rosário tomava conta da casa na cidade, da rotina da propriedade e, principalmente, de mim como uma mãe que se recusa a soltar a mão do filho crescido.

Eu não confiava em deixar qualquer estranho entrar na minha casa. Não depois da última ajudante de Rosário ter espalhado fofocas pela cidade inteira, transformando minha dor em piada de boteco. Pelo que Rosário me contara, a nova moça não era dali. Eu só esperava que não fosse uma língua solta como o resto do povo de Água Doce, e que soubesse respeitar o próprio lugar. Não queria ninguém bisbilhotando meus cantos escuros, mexendo em gavetas que guardavam memórias ou julgando o caos que eu deixara a vida se tornar.

— Pois é — confirmou ela, ajeitando a sacola de pano no ombro largo. — Ela é uma menina nova, neta da Rosa, aquela que sempre está na igreja com o terço na mão...

Eu não fazia a menor ideia de quem era essa Rosa. Para mim, eram só nomes e rostos distantes.

— A bichinha é sofrida — continuou Rosário, baixando um pouco a voz, como se pedisse um favor. — Espero que tu trate ela com um pingo de paciência, porque ocê não é fácil, não, Otávio.

— Eu só espero que ela seja eficiente e não meta o nariz onde não for chamada — respondi, encarando o fundo do copo como se ele guardasse alguma resposta.

Rosário balançou a cabeça devagar, um sorriso torto surgindo nos lábios, o tipo de sorriso de quem sabe que o caminho à frente será cheio de curvas, mas ainda assim torce para que algo bom brote no meio da tempestade. E, talvez, no fundo do meu peito endurecido, eu também torcesse um fiapo de esperança teimoso, quase invisível, que se recusava a morrer completamente.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
capítulo anteriorcapítulo siguiente
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP