Capítulo 6

Quando chegamos ao carro, prendi Lívia na cadeirinha e ajeitei a mochila aos pés dela. Fechei a porta com cuidado, como sempre fazia, como se aquele pequeno gesto pudesse proteger tudo o que eu não conseguia controlar.

Contornei o carro, sentei ao volante e, antes de ligar, enviei uma mensagem para Tânia avisando que não precisava buscar Lívia. Ela já estava comigo.

O silêncio dentro do carro era pesado demais para uma criança de seis anos.

Lívia não era silenciosa. Ela narrava o próprio dia, cantava músicas inventadas, fazia perguntas impossíveis. Mas ali… nada.

Liguei o motor.

— Filha… aconteceu alguma coisa na escola?

— Não.

Resposta curta. Voz miúda.

Seguimos por alguns metros. Eu a observava pelo retrovisor, tentando decifrar aquele rostinho concentrado demais.

Então ela falou:

— Pai…

— Oi, meu amor.

Ela puxou o cinto com os dedos pequenos, enrolando a ponta como fazia quando estava nervosa.

— Vai ter uma festinha.

Meu coração deu um salto estranho. Eu ainda não sabia por quê.

— Que tipo de festinha?

— Do Dia das Mães.

Foi como se alguém tivesse apertado meus pulmões por dentro.

Eu sabia que esse dia chegaria. Todo ano ele chegava. Mas cada ano parecia novo. Cruelmente novo.

— Ah… — forcei leveza. — E você vai se apresentar?

Ela assentiu, mas não sorria.

— Vou dançar. A professora falou que é pra chamar as mamães pra ver.

Silêncio.

Eu esperei.

Ela continuou:

— Todo mundo já falou que a mãe vai. A Ana disse que a mãe dela vai levar flor. A Júlia disse que a mãe dela chora quando ela dança.

Engoli seco.

— E você ficou triste?

— Fiquei porque a mamãe virou estrelinha.

Foi dito com tanta naturalidade que doeu mais ainda. Eu senti a garganta fechar.

— Virou… — minha voz falhou.

Ela continuou, agora mais falante, como criança quando decide explicar algo importante:

— Mas eu acho que ela deve ficar cansada lá no céu. Porque tem que brilhar a noite toda.

Uma risada escapou de mim, misturada com dor.

— É… deve dar muito trabalho.

— Será que ela consegue me ver dançando lá de cima? Ou tem nuvem na frente?

Eu não estava preparado para aquilo. Para as perguntas práticas. Para a lógica infantil tentando organizar o luto.

— Ela consegue ver, sim. Mesmo com nuvem. As mães têm… superpoderes.

— Tipo super-heroína?

— Melhor que isso.

Ela pareceu considerar.

— Mas todas as minhas amigas vão abraçar as mamães depois da dança.

Ali estava. O ponto exato. O que não tinha resposta. O que eu não podia consertar.

— E eu não posso abraçar a minha — Ela completou, com uma simplicidade devastadora.

Senti os olhos arderem. Pisquei rápido. Não podia desabar ali.

— Você pode abraçar ela aqui. — Toquei levemente o peito, sobre o coração. — Ela está aí.

Lívia olhou para baixo, colocou a mãozinha sobre o próprio peito.

— Então quando eu sinto a saudade apertando… é ela?

Respirei fundo. Muito fundo.

— É o amor dela. Amor às vezes aperta mesmo.

Ela ficou em silêncio alguns segundos antes de quebrar o silêncio novamente:

— Pai?

— Oi.

— Você também sente apertar?

Eu não consegui mentir.

— Sinto.

— Muito?

— Mais do que você imagina.

Ela assentiu, satisfeita por não estar sozinha naquilo.

— A professora falou que eu posso levar outra pessoa especial.

Eu me agarrei a essa frase como uma boia.

— Quem você quer que vá? Eu ou a vovó?

Ela pensou.

— A vovó.

Uma risada molhada escapou.

— Eu posso ir de vestido rosa igual o seu?

Ela finalmente sorriu.

— Não cabe. Você é muito grandão.

— Posso colocar uma tiara.

— Você ia ficar engraçado.

— Eu já sou.

Ela riu. Uma gargalhada leve, cristalina. O som que sempre me salvava. Mas então ela completou:

— Eu só queria que a mamãe estivesse lá de verdade.

A frase foi baixa. Quase um sussurro.

E ali eu quase quebrei.

Porque eu também queria.

Porque, por mais que eu tentasse ser pai e mãe ao mesmo tempo, havia um espaço que nunca seria meu.

Respirei fundo e fiz o que eu sabia fazer melhor: transformar dor em cuidado.

Para quebrar o clima, fiz minha melhor proposta estratégica:

— O que você acha de comemorar nosso combinado com hambúrguer, batata frita e MUITO ketchup?

Os olhos dela brilharam instantaneamente.

— Muito ketchup mesmo?

— Muito.

— Então pode ser.

A leveza voltou como sempre voltava: aos poucos, no riso dela.

Mas enquanto dirigia em direção à lanchonete, não pude deixar de pensar que, por mais que eu tentasse preencher todos os espaços, havia um que nunca seria meu.

Entramos na lanchonete e o lugar estava lotado. Pensei em pedir para viagem, mas enquanto fazia o pedido no balcão, ouvi passos rápidos se afastando.

— Lívia? — chamei.

Quando me virei, vi minha filha abraçada a alguém.

E meu coração falhou uma batida.

Vivian.

— Papai! A tia Vivi tá aqui!

Por um segundo, considerei fingir que não tinha ouvido, mas seria infantil demias. Respirei fundo e caminhei até a mesa. Ela estava sentada sozinha, com um copo de refrigerante e um prato quase intocado à frente. Usava uma blusa clara e o cabelo preso em um coque despretensioso. Simples. Linda.

— Oi, Vivian.

Ela levantou os olhos, e algo passou por eles antes que ela sorrisse.

— Oi, Gustavo.

Lívia se acomodou na cadeira ao lado dela como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Meu papai veio me trazer pra comer batata frita com muito ketchup!

Vivian riu.

— Eu também adoro batata frita.

A memória me atingiu de surpresa. Adolescência. Risadas. Uma lanchonete parecida com aquela. Vivian roubando meu ketchup enquanto fingia que não gostava.

Afastei o pensamento.

— Nós vamos comer em casa — expliquei. — Está muito cheio aqui.

— Vocês podem se sentar comigo — Ela ofereceu, apontando para as cadeiras vazias. — Estou sozinha.

Hesitei.

— Não queremos te atrapalhar.

— Claro que não atrapalham.

Lívia nem esperou minha resposta.

— Anda, papai! Senta aí!

Sentei-me.

E, pela primeira vez desde o reencontro na escola, estávamos ali. Não como passado. Não como lembrança, mas como presente.

Lívia falava sem parar, contando sobre a queda na escola, dramatizando o ocorrido como se tivesse sido uma batalha épica e Vivian escutava com atenção genuína.

— Você foi muito corajosa — Ela disse. — Às vezes, a gente cai, mas o importante é sempre levantar.

Lívia sorriu, satisfeita.

Eu observava as duas. A forma como Vivian se inclinava levemente para ouvir melhor. O jeito como o olhar dela suavizava quando encarava minha filha.

E algo dentro de mim começou a se mover.

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