Mundo ficciónIniciar sesiónQuando chegamos ao carro, prendi Lívia na cadeirinha e ajeitei a mochila aos pés dela. Fechei a porta com cuidado, como sempre fazia, como se aquele pequeno gesto pudesse proteger tudo o que eu não conseguia controlar.
Contornei o carro, sentei ao volante e, antes de ligar, enviei uma mensagem para Tânia avisando que não precisava buscar Lívia. Ela já estava comigo.
O silêncio dentro do carro era pesado demais para uma criança de seis anos.
Lívia não era silenciosa. Ela narrava o próprio dia, cantava músicas inventadas, fazia perguntas impossíveis. Mas ali… nada.
Liguei o motor.
— Filha… aconteceu alguma coisa na escola?
— Não.
Resposta curta. Voz miúda.
Seguimos por alguns metros. Eu a observava pelo retrovisor, tentando decifrar aquele rostinho concentrado demais.
Então ela falou:
— Pai…
— Oi, meu amor.
Ela puxou o cinto com os dedos pequenos, enrolando a ponta como fazia quando estava nervosa.
— Vai ter uma festinha.
Meu coração deu um salto estranho. Eu ainda não sabia por quê.
— Que tipo de festinha?
— Do Dia das Mães.
Foi como se alguém tivesse apertado meus pulmões por dentro.
Eu sabia que esse dia chegaria. Todo ano ele chegava. Mas cada ano parecia novo. Cruelmente novo.
— Ah… — forcei leveza. — E você vai se apresentar?
Ela assentiu, mas não sorria.
— Vou dançar. A professora falou que é pra chamar as mamães pra ver.
Silêncio.
Eu esperei.
Ela continuou:
— Todo mundo já falou que a mãe vai. A Ana disse que a mãe dela vai levar flor. A Júlia disse que a mãe dela chora quando ela dança.
Engoli seco.
— E você ficou triste?
— Fiquei porque a mamãe virou estrelinha.
Foi dito com tanta naturalidade que doeu mais ainda. Eu senti a garganta fechar.
— Virou… — minha voz falhou.
Ela continuou, agora mais falante, como criança quando decide explicar algo importante:
— Mas eu acho que ela deve ficar cansada lá no céu. Porque tem que brilhar a noite toda.
Uma risada escapou de mim, misturada com dor.
— É… deve dar muito trabalho.
— Será que ela consegue me ver dançando lá de cima? Ou tem nuvem na frente?
Eu não estava preparado para aquilo. Para as perguntas práticas. Para a lógica infantil tentando organizar o luto.
— Ela consegue ver, sim. Mesmo com nuvem. As mães têm… superpoderes.
— Tipo super-heroína?
— Melhor que isso.
Ela pareceu considerar.
— Mas todas as minhas amigas vão abraçar as mamães depois da dança.
Ali estava. O ponto exato. O que não tinha resposta. O que eu não podia consertar.
— E eu não posso abraçar a minha — Ela completou, com uma simplicidade devastadora.
Senti os olhos arderem. Pisquei rápido. Não podia desabar ali.
— Você pode abraçar ela aqui. — Toquei levemente o peito, sobre o coração. — Ela está aí.
Lívia olhou para baixo, colocou a mãozinha sobre o próprio peito.
— Então quando eu sinto a saudade apertando… é ela?
Respirei fundo. Muito fundo.
— É o amor dela. Amor às vezes aperta mesmo.
Ela ficou em silêncio alguns segundos antes de quebrar o silêncio novamente:
— Pai?
— Oi.
— Você também sente apertar?
Eu não consegui mentir.
— Sinto.
— Muito?
— Mais do que você imagina.
Ela assentiu, satisfeita por não estar sozinha naquilo.
— A professora falou que eu posso levar outra pessoa especial.
Eu me agarrei a essa frase como uma boia.
— Quem você quer que vá? Eu ou a vovó?
Ela pensou.
— A vovó.
Uma risada molhada escapou.
— Eu posso ir de vestido rosa igual o seu?
Ela finalmente sorriu.
— Não cabe. Você é muito grandão.
— Posso colocar uma tiara.
— Você ia ficar engraçado.
— Eu já sou.
Ela riu. Uma gargalhada leve, cristalina. O som que sempre me salvava. Mas então ela completou:
— Eu só queria que a mamãe estivesse lá de verdade.
A frase foi baixa. Quase um sussurro.
E ali eu quase quebrei.
Porque eu também queria.
Porque, por mais que eu tentasse ser pai e mãe ao mesmo tempo, havia um espaço que nunca seria meu.
Respirei fundo e fiz o que eu sabia fazer melhor: transformar dor em cuidado.
Para quebrar o clima, fiz minha melhor proposta estratégica:
— O que você acha de comemorar nosso combinado com hambúrguer, batata frita e MUITO ketchup?
Os olhos dela brilharam instantaneamente.
— Muito ketchup mesmo?
— Muito.
— Então pode ser.
A leveza voltou como sempre voltava: aos poucos, no riso dela.
Mas enquanto dirigia em direção à lanchonete, não pude deixar de pensar que, por mais que eu tentasse preencher todos os espaços, havia um que nunca seria meu.
Entramos na lanchonete e o lugar estava lotado. Pensei em pedir para viagem, mas enquanto fazia o pedido no balcão, ouvi passos rápidos se afastando.
— Lívia? — chamei.
Quando me virei, vi minha filha abraçada a alguém.
E meu coração falhou uma batida.
Vivian.
— Papai! A tia Vivi tá aqui!
Por um segundo, considerei fingir que não tinha ouvido, mas seria infantil demias. Respirei fundo e caminhei até a mesa. Ela estava sentada sozinha, com um copo de refrigerante e um prato quase intocado à frente. Usava uma blusa clara e o cabelo preso em um coque despretensioso. Simples. Linda.
— Oi, Vivian.
Ela levantou os olhos, e algo passou por eles antes que ela sorrisse.
— Oi, Gustavo.
Lívia se acomodou na cadeira ao lado dela como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Meu papai veio me trazer pra comer batata frita com muito ketchup!
Vivian riu.
— Eu também adoro batata frita.
A memória me atingiu de surpresa. Adolescência. Risadas. Uma lanchonete parecida com aquela. Vivian roubando meu ketchup enquanto fingia que não gostava.
Afastei o pensamento.
— Nós vamos comer em casa — expliquei. — Está muito cheio aqui.
— Vocês podem se sentar comigo — Ela ofereceu, apontando para as cadeiras vazias. — Estou sozinha.
Hesitei.
— Não queremos te atrapalhar.
— Claro que não atrapalham.
Lívia nem esperou minha resposta.
— Anda, papai! Senta aí!
Sentei-me.
E, pela primeira vez desde o reencontro na escola, estávamos ali. Não como passado. Não como lembrança, mas como presente.
Lívia falava sem parar, contando sobre a queda na escola, dramatizando o ocorrido como se tivesse sido uma batalha épica e Vivian escutava com atenção genuína.
— Você foi muito corajosa — Ela disse. — Às vezes, a gente cai, mas o importante é sempre levantar.
Lívia sorriu, satisfeita.
Eu observava as duas. A forma como Vivian se inclinava levemente para ouvir melhor. O jeito como o olhar dela suavizava quando encarava minha filha.
E algo dentro de mim começou a se mover.







