Capítulo 7

Lívia adormeceu no caminho de volta.

O sorvete de morango, as gargalhadas no parquinho, as corridas sem direção e o esforço incansável de quem vive cada segundo como se fosse uma descoberta nova, tudo cobrou seu preço. No banco de trás, ela dormia com a cabeça tombada para o lado, a respiração suave, os cílios repousando sobre as bochechas rosadas.

Estacionei na garagem, mas não me movi. Desliguei o motor, mas as mãos ainda no volante.

Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que parece maior do que o espaço ao redor.

Olhei pelo retrovisor. Ela parecia tão pequena assim, entregue ao sono, distante de qualquer pergunta difícil, de qualquer saudade, de qualquer ausência que eu não soubesse preencher.

Mais cedo, aquela mesma voz tinha me atravessado sem aviso: “Eu sou a única que não tem mamãe pra levar.”

Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo.

Desci do carro devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível. Abri a porta traseira com cuidado e soltei o cinto da cadeirinha. Quando a peguei no colo, Lívia se acomodou automaticamente contra mim, o rosto se encaixando no meu pescoço, como se aquele fosse o único lugar possível no mundo.

— Papai… — murmurou, sonolenta.

— Tô aqui.

Carreguei ela nos braços. O peso físico nunca me incomodou. Eu carregaria minha filha por quilômetros se fosse preciso. O que pesava era outra coisa. O medo constante de não ser suficiente. A sensação silenciosa de que existia um espaço dentro dela que eu jamais conseguiria ocupar.

Abri a porta de casa com alguma dificuldade, equilibrando-a contra o ombro. O silêncio lá dentro me recebeu como um velho conhecido. Antes, esse silêncio era dividido. Agora era só meu. Levei-a até o quarto, tirei seus tênis pequenos com cuidado, ajeitei o cobertor até o queixo. Afastei uma mecha de cabelo da testa e fiquei observando por alguns segundos.

Ela sorriu dormindo.

— Mais alto, pai… — sussurrou.

O balanço.

— Sempre — respondi baixo.

Apaguei a luz e fechei a porta com delicadeza, como se estivesse guardando um tesouro. E foi quando o conflito voltou, não como um estrondo, mas como infiltração.

Caminhei até a cozinha e enchi um copo d’água. O vidro frio contra a mão contrastava com o calor incômodo que subia pelo meu peito. Encostei na pia e fiquei ali, parado, olhando para o nada.

Vivian estava de volta.

A frase ecoava dentro de mim com uma persistência irritante.

Durante anos, eu tinha transformado aquela história em passado resolvido. Uma fase. Um erro juvenil. Uma lembrança distante que não tinha mais poder sobre mim. A verdade era simples, eu nunca resolvi nada. Eu só sobrevivi.

Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado na mandíbula, nos ombros, na base do pescoço.

Raiva.

Era isso que eu deveria sentir.

E sentia.

Raiva por ela reaparecer como se o tempo não tivesse deixado marcas. Como se eu não tivesse passado anos reconstruindo a vida sobre escombros emocionais. Como se a ausência dela não tivesse sido real. Mas, misturado à raiva, havia algo mais traiçoeiro.

Memórias.

O jeito como ela inclinava a cabeça quando discordava de mim. A mania de roubar batata frita do meu prato e fingir que não tinha sido ela. O riso que vinha antes mesmo da piada terminar. O modo como me chamava pelo nome completo quando queria parecer séria.

Fechei os olhos com força.

Não.

Aquilo não podia voltar.

Caminhei até a estante e puxei, quase sem perceber, a moldura escondida atrás de alguns livros. Uma foto antiga. Eu mais jovem. Ela ao meu lado. Sorrindo para um futuro que, naquela época, parecia inevitável, passei o polegar sobre o vidro.

— Você não tinha o direito de voltar assim — murmurei.

No quarto ao lado, ouvi Lívia se mexer então guardei a foto rapidamente, como se fosse algo proibido.

Ela era minha prioridade. Sempre foi. E qualquer coisa que ameaçasse a estabilidade dela precisava ficar do lado de fora. Mas a verdade era que o simples fato de saber que Vivian respirava o mesmo ar que eu já tinha atravessado minhas defesas.

Respirei fundo e peguei o celular, rolei a tela até encontrar o nome que sempre significou abrigo.

Mãe.

Ela atendeu no terceiro toque.

— Filho? Aconteceu alguma coisa?

Ela sempre atendia assim. Como se o mundo pudesse ter acabado entre um toque e outro.

— Não, mãe. Está tudo bem.

— Então por que essa voz de quem está carregando o mundo nas costas?

Sorri de leve.

— Vai ter uma festinha na escola da Lívia. Dia das Mães.

Do outro lado, silêncio. Ela entendeu antes mesmo que eu precisasse explicar.

— Ah…

Aquele “ah” veio cheio de compreensão, de cuidado, de memória.

— Ela falou hoje — continuei. — Disse que é a única que não tem uma mãe pra levar.

Minha voz falhou no final.

— Meu filho…

A forma como ela disse isso fez algo apertar dentro de mim.

— Eu tentei levar na brincadeira. Falei que podia usar vestido, que ia de tiara, que dançava com ela. Ela riu, mas depois…

Respirei fundo.

— Depois perguntou se podia ser você.

Houve um som baixo do outro lado da linha. Não era choro. Era emoção contida.

— Ela quer que eu vá?

— Quer.

Minha mãe riu baixinho.

— Pelo menos alguma coisa eu faço melhor que você.

Passei a mão pelo rosto.

— Mãe… você vai poder ir?

— Claro que posso, Gustavo. Eu sento na primeira fila, bato palma, levo flor e faço o que for preciso.

Fechei os olhos, sentindo algo aliviar dentro do peito.

— Obrigado.

— Você não precisa me agradecer por amar minha neta.

O vento da noite soprou leve na varanda, trazendo o cheiro distante de chuva.

— Às vezes eu sinto que não estou fazendo o suficiente.

— Você está fazendo mais do que imagina.

Engoli em seco.

— Ela perguntou se eu também sinto saudade.

— E você sente?

— Sinto.

— Então você está ensinando a ela que sentir não é fraqueza.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Era um silêncio bom.Silêncio de quem não precisa preencher espaço com palavras.

Então ela perguntou, com cuidado: — Tem mais alguma coisa te incomodando?

O nome quase escapou. Vivian. Mas eu não disse.

Ainda não.

— Não. Só a festa mesmo.

Ela não insistiu.

— Eu vou escolher um vestido bonito pra ela e um laço novo. Quero minha neta radiante.

Sorri de verdade dessa vez.

— Ela vai gostar.

— E você, Gustavo… vai ficar bem?

Demorei alguns segundos para responder.

— Eu vou.

Não era certeza. Era promessa.

— Então está combinado — Ela disse. — No dia da festa, eu estarei lá.

Desliguei e permaneci parado na varanda, olhando as luzes da cidade piscarem ao longe. Tudo estava resolvido e, ainda assim, algo dentro de mim continuava inquieto. Porque a festa não era o único motivo do aperto no peito.

Vivian estava de volta.

E, por mais que eu tentasse negar, isso mexia com lugares que eu tinha enterrado fundo demais.

Voltei ao quarto da Lívia e ajoelhei ao lado da cama.

— A vovó vai na sua festinha, pequena — sussurrei.

Ela não respondeu, mas sorriu dormindo. E naquele instante, aquele sorriso pequeno, involuntário, sonolento… foi suficiente para me fazer acreditar que, pelo menos por enquanto, tudo estava no lugar certo.

Fiquei ali mais alguns segundos, observando cada detalhe dela. O movimento lento do peito subindo e descendo. A mãozinha fechada segurando a ponta do cobertor. A respiração leve, tranquila.

Eu faria qualquer coisa para proteger aquela paz. Qualquer coisa.

Apaguei a luz novamente e saí devagar, encostando a porta. No corredor escuro, encostei a cabeça na parede.

Vivian estava de volta e, pela primeira vez em anos, eu tive medo. Não dela, mas do que ainda existia dentro de mim. Porque algumas histórias não terminam quando a gente decide que terminaram.

Algumas apenas esperam.

Silenciosas.

Pacientes.

Até encontrar a hora certa de voltar.

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