Mundo de ficçãoIniciar sessão“Que lugar é esse?” Ela perguntou.
" Aqui é a minha casa. Você vai ficar segura aqui."
A voz dele soou firme, quase como uma ordem. Não havia pergunta ali, nenhum espaço para negociação. Sebastian Sterling não pedia — ele declarava.
Karen atravessou a porta dupla e parou, completamente imóvel.
O lugar parecia ter saído de uma revista de arquitetura que ela costumava folhear nas horas lentas da recepção. O mármore italiano cobria o chão em placas enormes, tão polido que refletia as luzes do lustre de cristal acima. As janelas iam do chão ao teto, revelando Las Vegas lá embaixo, uma constelação de luzes douradas e néon que pareciam irreais daquela altura. Uma lareira estava acesa na parede oposta, as chamas dançando suavemente apesar do calor sufocante de setembro lá fora.
Tudo era caro. Impecável. E completamente, assustadoramente frio.
Karen se abraçou, sentindo-se minúscula naquele espaço. O vestido azul que tinha escolhido com tanto cuidado, agora parecia barato e fora de lugar. Ela não pertencia ali. Não pertencia a lugar nenhum, na verdade.
Um mordomo apareceu do nada, silencioso como um fantasma. Ele era mais velho, cabelos grisalhos, postura ereta e expressão neutra. Pegou o paletó de Sebastian sem uma palavra, desaparecendo tão silenciosamente quanto apareceu.
Sebastian nem o olhou. Nem agradeceu. Apenas afrouxou a gravata com um puxão impaciente e caminhou até o bar de mármore negro no canto da sala. Pegou uma garrafa de uísque — provavelmente valia mais que um mês do aluguel de Karen — e serviu dois dedos no copo de cristal.
Karen observou cada movimento. A forma como ele segurava o copo, como o líquido âmbar capturava a luz, como ele bebia sem pressa, sem urgência. Como se não tivesse acabado de resgatar uma estranha em fuga.
"Eu preciso ir para a minha casa," disse Karen, odiando como sua voz vacilou. Ela soou como uma criança pedindo permissão.
Sebastian virou-se para encará-la, e Karen sentiu o peso daquele olhar cinzento — calculista, medindo, julgando.
"Vai ser o primeiro lugar em que ele vai te procurar."
Simples. Óbvio e completamente verdadeiro.
Karen abriu a boca, fechou. "Eu... eu chamo a polícia então."
O riso que escapou de Sebastian foi curto e desprovido de humor. Ele tomou um gole longo do uísque antes de responder.
"Claro. Conte a eles que o herdeiro Sterling queria roubar seu rim." Ele inclinou a cabeça, os olhos nunca deixando o rosto dela. "Vai soar perfeitamente crível. Tenho certeza de que vão colocar as algemas nele imediatamente."
O sarcasmo era tão espesso que Karen podia quase tocá-lo. E pior — ele tinha razão. Quem ela era? Uma órfã de dezoito anos, recém-saída do sistema, trabalhando na recepção de um hotel. E Peter? Um Sterling. Rico, poderoso, conectado. Ele provavelmente tinha metade da polícia de Vegas no bolso.
Karen se encolheu, sentindo as lágrimas ameaçarem de novo. Não. Não ia chorar. Não na frente desse homem que a olhava como se ela fosse uma equação complicada que ele estava tentando resolver.
Sebastian colocou o copo na mesa de centro com um som suave.
"Tem um motivo para o seu namorado me chamar de bastardo," ele disse, sem emoção.
Mas havia algo quebrado por trás da voz — uma sombra antiga, quase imperceptível.Ele abriu uma gaveta. O mesmo pingente, com um número gravado: 385900 SM.
Aproximou-se um passo, e Karen teve que lutar contra o instinto de recuar.
"Estou te oferecendo ajuda," ele disse, a voz mais baixa agora, quase gentil. Quase. "Mas se quiser ir embora, a porta está ali. Afinal foi você quem invadiu o meu carro.”
Ele apontou com a cabeça para a entrada por onde tinham chegado.
Karen olhou para a porta. Depois para Sebastian. Depois para a janela, para Vegas lá embaixo; a cidade das ilusões, onde ela tinha achado que encontraria algo melhor. Onde tinha acreditado em Peter. Onde tinha sido estúpida o suficiente para pensar que alguém poderia amá-la.
Ela não se moveu. Estava com medo de ficar, mas estava com mais medo ainda de sair.
O silêncio se estendeu entre eles, então Karen encontrou sua voz novamente, menor que antes, mas ainda ali.
"Quem é Lindsay?"
Algo passou pelo rosto de Sebastian tão rápido que ela quase perdeu.
"A namorada dele." O tom era seco, factual. "Ela tem problemas de saúde. Está morrendo."
Karen sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O mundo inclinou-se de lado por um momento.
"Ele... ele disse que me amava e queria se casar comigo."
As palavras saíram quebradiças, patéticas. Ela sabia disso. Mas não conseguia segurá-las.
Sebastian a olhou por cima do copo que tinha voltado a pegar, e havia algo em sua expressão — algo entre pena e ironia, como se ele já tivesse visto essa história mil vezes e soubesse exatamente como terminava.
“Você teve que fazer exames de sangue,quando você começou a trabalhar no hotel não foi?"
Karen piscou, confusa com a mudança de assunto.
"Sim. Exames completos. O RH disse que era procedimento padrão para todos os funcionários novos."
Um riso curto escapou dele. Não havia humor algum, apenas descrença amarga.
"Que estupidez."
"O quê?" Karen franziu o cenho.
Sebastian apoiou o copo na mesa e se aproximou. Não invadindo seu espaço, mas perto o suficiente para que ela precisasse levantar o queixo para encará-lo. Perto o suficiente para sentir o cheiro de perfume misturado com uísque.
"Você achou que era um cuidado da empresa, não foi?" Ele inclinou a cabeça levemente, estudando-a. "Que o hotel estava sendo responsável. Garantindo que todos os funcionários fossem saudáveis e seguros."
"Eu..." Karen não tinha pensado muito sobre isso na época. Estava desesperada por um emprego, qualquer emprego. "Sim."
"Na verdade," Sebastian continuou, a voz ganhando um tom de deboche, "era a forma que meu querido irmão encontrou de procurar alguém compatível com a Lindsay."
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio de horror, de compreensão, de todas as pequenas peças se encaixando em um quebra-cabeça doentio que Karen não sabia que estava montando.
Os exames. O interesse súbito de Peter. Os jantares, as conversas, a gentileza que parecia boa demais para ser verdade.
Porque era.
"Ele... ele testou todos os funcionários?" A voz dela saiu rouca.
"Provavelmente. Ou pelo menos os que se encaixavam no perfil certo." Sebastian voltou para o bar, servindo mais uísque para si mesmo. "Jovem, saudável, sem família que fizesse muitas perguntas. Uma órfã seria perfeita, não acha?"
Cada palavra era uma facada. Cada verdade, um corte mais profundo e seu orgulho.
Karen desviou o olhar, os olhos marejados. Odiava-se por isso; pela fraqueza, pelas lágrimas, por ter sido tão incrivelmente idiota. Ela se abraçou como se quisesse se proteger e nesse instante Sebastian percebeu que ela tinha uma marca de nascença no ombro direito. Uma estrela.
"Então… ele nunca me amou."
Não era uma pergunta. Ela já sabia a resposta. Mas precisava ouvir em voz alta. Precisava que fosse real.
Sebastian não respondeu imediatamente. Ele apenas serviu um segundo copo, mas desta vez para ela — e o colocou na mesa de centro.
"Bem-vinda a Las Vegas," ele disse, a voz baixa mas não sem gentileza. Uma gentileza estranha, torta, vinda de alguém que claramente não estava acostumado a oferecê-la.
Karen pegou o copo com as mãos trêmulas e tomou um gole. O líquido queimou sua garganta, fazendo-a tossir. Mas a dor era bem-vinda. Pelo menos sentia algo além do vazio crescente em seu peito.
Ela olhou para Sebastian. Os ombros tensos mesmo quando ele parecia relaxado. A forma como segurava o copo, os dedos apertados demais. A mandíbula cerrada.
O pingente na mesa.
"Quando você deixou o Saint Mary?" Karen perguntou, precisando desesperadamente falar sobre qualquer coisa além de Peter. Além de sua própria estupidez.
Por um momento, ela achou que ele não fosse responder. Então ele se desarmou.
"Faz tempo." Sua voz tinha mudado, era mais baixa, mais áspera. "Vivi lá dos três aos doze anos. Faz dezoito anos que saí daquele lugar."
Ela conhecia aquele lugar. As paredes cinzentas, os corredores frios, as camas estreitas enfileiradas. A forma como o silêncio parecia engolir tudo à noite. "Você foi adotado?"
"Não, o meu pai biológico me encontrou." As palavras saíram rápidas, quase cortadas. "Ou melhor, decidiu me reivindicar."
Havia algo amargo ali. Algo não dito, mas óbvio nas entrelinhas.
"O pai de Peter também é …?" Karen arriscou.Marcus
"Sim." Sebastian tomou outro gole. "Marcus Sterling. Magnata dos cassinos, filantropo admirado, pai de família exemplar." O sarcasmo pingava de cada palavra. "Com uma esposa legítima e um filho legítimo. E um bastardo escondido em um orfanato."
Bastardo. A palavra pairou no ar entre eles.
Karen entendeu então. A frieza. A raiva mal contida. A forma como ele tinha dito que odiava Peter. Não eram apenas irmãos, eram irmãos divididos por legitimidade, por aceitação, por anos de ressentimento acumulado.
"Ele te trouxe para casa," ela disse suavemente.
"Ele me trouxe para casa," Sebastian ecoou, mas sua voz estava vazia. "Me deu seu nome. Me colocou nas melhores escolas. E me deixou muito claro que eu nunca seria realmente um Sterling. Não como Peter."
Karen olhou para seu próprio copo, para o líquido dourado refletindo a luz da lareira.
"Pelo menos você teve um pai," ela disse, e imediatamente se arrependeu. Soou mesquinho. Infantil.
Mas Sebastian não pareceu ofendido.
"Às vezes," ele disse baixo, "ter um pai que não te quer é pior que não ter nenhum."
E Karen entendeu.
Ela sempre tinha se perguntado quem eram seus pais, por que a deixaram, se pensavam nela. Mas Sebastian sabia exatamente quem era seu pai. E sabia que não era suficiente. Nunca seria.
"Por que você está me ajudando?" A pergunta saiu antes que ela pudesse pará-la.
Sebastian a estudou por um longo momento. Então colocou o copo vazio na mesa e enfiou as mãos nos bolsos.
"Porque," ele disse finalmente, "eu conheço meu irmão. Sei do que ele é capaz quando quer algo." Ele pausou. "E porque ninguém me ajudou quando eu precisei."
A honestidade crua daquilo atingiu Karen no peito.
Eles ficaram ali, dois órfãos em uma sala cara demais para qualquer um deles, separados por mármore e cristal, mas conectados por algo mais profundo. Algo que nenhum dinheiro podia comprar ou apagar.
"Você pode ficar aqui esta noite," Sebastian disse, sua voz voltando àquele tom de comando. "Amanhã, decidimos o que fazer."
Karen assentiu, exausta demais para discutir.
Mas enquanto ele a conduzia para um quarto de hóspedes que era maior que todo o apartamento dela, uma pergunta continuava ecoando em sua mente:
O que Sebastian Sterling ganhava com isso?
Porque ela aprendeu uma lição naquela noite.
Ninguém ajudava de graça. Nem mesmo outros órfãos.







