Capítulo 3: Memórias de Ontem

Sebastian foi para o escritório e fechou a porta atrás de si.

O silêncio ali era diferente do resto da casa— mais denso, mais pesado. Ele serviu outro uísque, o terceiro da noite, e se deixou cair na poltrona de couro atrás da mesa.

Karen estava em segurança no quarto de hóspedes. Peter não sabia onde ela estava. Tudo estava sob controle.

Então por que suas mãos ainda tremiam levemente?

Ele olhou para o pingente em sua mão 385900 SM. permanecia como uma lembrança permanente. Não importava quantos relógios e carros comprasse. O vazio do abandono  ainda estava lá. Sempre estaria.

Saint Mary.

E então, sem aviso, a lembrança o atingiu.

18 anos atrás. Orfanato Saint Mary.

Sebastian estava sentado na enfermaria, segurando uma bolsa de gelo contra o olho esquerdo. Doía como o inferno, mas ele não deixaria ninguém ver. Não choraria. Nunca chorava.

A Senhora Malcolm estava parada ao seu lado, os lábios apertados em uma linha fina de desaprovação. Ela era severa, sempre foi, mas havia uma bondade escondida naqueles olhos cansados.

"Sebastian," ela disse, a voz firme. "Seu pai virá te buscar hoje."

O coração dele pulou de medo e esperança misturados em partes iguais. Pai. A palavra ainda soava estranha. Ele mal conhecia o homem.

"E porque você se envolveu em uma briga," a Senhora Malcolm continuou, "ele não vai ficar feliz."

Sebastian baixou a bolsa de gelo, revelando o roxo já se formando ao redor do olho. "Eles chamaram a minha mãe de prostituta."

Tinha sido no refeitório. Dois garotos mais velhos, rindo dele, dizendo que sua mãe tinha vendido o corpo e que por isso ele estava ali. Que nenhum pai de verdade o queria.

Sebastian tinha quebrado o nariz de um deles.

A Senhora Malcolm suspirou, mas não o repreendeu. Em vez disso, colocou uma mão gentil em seu ombro.

"Sua mãe era uma boa mulher, Sebastian. Não deixe que digam o contrário."

Antes que ele pudesse responder, a porta da enfermaria se abriu.

Enfermeira Nancy entrou apressada, um embrulho de cobertores rosa nos braços. Ela parecia exausta, o cabelo escapando do coque, olhos vermelhos.

"Ela chegou," Nancy anunciou para a Senhora Malcolm.

Dentro dos cobertores, um bebê minúsculo. Não devia ter mais que alguns dias. Olhos fechados, punhos cerrados, completamente alheia ao mundo que a havia abandonado.

A Senhora Malcolm se aproximou, olhando para a criança com aquela expressão que Sebastian já conhecia;  pena misturada com raiva pelo que o mundo fazia com os inocentes.

"Pobre criança," ela murmurou.

"Ela é mais rica que todos nós," Enfermeira Nancy disse com um riso amargo, ajeitando os cobertores ao redor do bebê.

Sebastian franziu o cenho, confuso. "Como assim?"

A Senhora Malcolm lançou um olhar de aviso para a colega, mas a enfermeira já estava falando.

“Nós não podemos julgar ninguém, devemos apenas acolher as crianças.”

Nancy estava indignada demais para se calar.

"Esses homens ricos fazem filhos fora do casamento e depois os deixam aqui como se fossem lixo." Sua voz estava carregada de anos de frustração contida. "Enquanto isso, a fortuna da família continua intocada, esperando por herdeiros que eles realmente querem."

“Nancy, cale-se.”

“Ela é dos Salvatore,” Nancy sussurrou. “Aquela família de cassinos… dizem que o sangue deles corre misturado ao dinheiro que—”

A mulher mais velha empalideceu.“Não fale nomes!”

Nancy não se importou com a bronca, ela baixou os olhos para o bebê em seus braços e sorriu, com ternura. Ao colocá-la sobre a maca, o cobertor abriu revelando os bracinhos finos.

Sebastian olhou para o bebê, era  tão pequena, tão indefesa. Ela não tinha escolha. Nenhum deles teve. Nasceram nos lugares errados, para as pessoas erradas, e agora estavam ali. Descartados.

"Salvatore," ele repetiu baixinho, gravando o nome na memória sem saber bem por quê.

A Senhora Malcolm se virou para ele, os olhos duros.

 "Você não ouviu nada aqui, entendeu, Sebastian? Nada. Essa criança merece privacidade. Merece uma chance."

Ele assentiu lentamente.

Ela continuou, apontando para o corredor, "vai lavar esse rosto e se apresentar decentemente para seu pai. Você está indo para casa hoje."

Casa. Outra palavra estranha.

Sebastian levantou-se, lançando um último olhar para o bebê de cobertores rosa. 

“Qual o nome dela?”

“Ela vai se chamar Karen,” Nancy contou a ele.

Ele perguntou se ela ficaria ali tanto tempo quanto ele. Se alguém viria buscá-la também.

Ou se ela ficaria para sempre, esquecida, enquanto uma fortuna a esperava em algum lugar que ela nunca conheceria.

Sebastian piscou, a memória se dissolvendo.

Ele estava de volta ao escritório, a penthouse silenciosa ao redor. O uísque estava morno em sua mão.

Salvatore.

O nome ecoava na mente dele como um sino distante.

Dezoito anos. Aquele bebê teria dezoito anos agora.

E Karen... Karen tinha dezoito anos. Tinha saído do Saint Mary há seis meses. 

"Ela é mais rica que todos nós."

Sebastian se levantou bruscamente e ligou para  um número que ele sabia de cor. Três toques. Quatro. Ele olhou para o relógio — passava da meia-noite, mas isso nunca tinha sido problema antes.

"Sterling." A voz do outro lado soou alerta apesar da hora. Richard Chen nunca dormia quando havia dinheiro envolvido. "Deve ser importante."

"Preciso de informações. Agora.. Salvatore Family Trust. Quero saber tudo.”

Pausa. Sebastian podia ouvir o ranger de uma cadeira, o som de um computador sendo ligado.

"Alessandro Salvatore. "Morto há... quinze anos. Acidente de carro suspeito. A esposa, Isabela Salvatore, morreu com ele. Deixaram um filho, Pietro Salvatore, sete anos, que também morreu, mas há boatos de que ele teve outra filha.”

“Já ouvi esses boatos,” disse, sem emoção. “Onde está ela?”

“Presumidamente morta. O corpo nunca foi encontrado. Há boatos de que Alessandro teve filhos com várias mulheres, mas nada comprovado.”

Então, Sebastian sorriu satisfeito.

 “Acho que hoje é o meu dia de sorte, eu a encontrei.”

 “Onde?” o advogado perguntou surpreso.

Sebastian deixou o copo sobre a mesa, o olhar fixo em algum ponto distante.

 “Ela está no meu quarto de hóspedes.”

O outro questionou, incrédulo. “Tem certeza?”

“Não ainda. Por isso preciso da sua ajuda para confirmar a identidade dela.”

“E o que pretende fazer, Sebastian?”

Sebastian riu do escárnio. O tom de voz era tranquilo, quase casual  e justamente por isso, mais ameaçador.

 “Vou me casar com ela.”

O homem soltou um riso breve, descrente. “Nunca imaginei ouvir isso de você.”

Sebastian apenas sorriu  sem humor.

 “Eu me caso com ela, assumo o nome, e os cassinos dos Salvatores passam a ser meus por direito. Depois eu peço o divorcio.”

“E se ela não aceitar?”

“Ela vai aceitar,” respondeu ele, calmamente. “É burra, ingênua. E acredita que o mundo ainda pode ser bom.”

“Eu vou passar a noite colhendo informações, amanhã te envio o relatório completo.

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