Mundo de ficçãoIniciar sessão
"Karen, o mundo lá fora é cruel, querida. As pessoas são desonestas. Não confie em ninguém e proteja seu coração."
Esse foi o conselho que Karen recebeu da senhora Malcolm seis meses atrás, quando deixou o orfanato Saint Mary.
Mas ela tinha certeza de que era apenas preocupação de uma velha amarga, pois a sua vida, afinal, parecia um conto de fadas.
Conseguiu um emprego em uma grande rede de hotéis em Las Vegas e, naquela noite, estava prestes a jantar com Peter Sterling — um herdeiro rico, bonito e atencioso que a fazia se sentir especial.
Peter a tratava com uma gentileza que ela nunca tinha conhecido. Mandava flores no trabalho, lembrava o horário das refeições, dizia que foi “amor à primeira vista”.
Ela acreditava. Queria acreditar.
Enquanto esperava o elevador, Karen alisou o vestido simples que havia comprado com o primeiro salário. As mãos tremiam levemente, o coração batia rápido demais.
Aquela noite seria perfeita — ela tinha certeza de que ele a pediria em namoro. Talvez até em noivado.
Desistiu de esperar o elevador e decidiu ir pela escada.
"Alguns andares só", murmurou.
O coração dela parecia leve. Tudo, finalmente, parecia dar certo.
Mas, no terceiro andar, uma voz familiar ecoou pela escadaria.
"A idiota da Karen está atrasada. Eu disse oito horas e já são oito e dez."
Ela parou. O som das palavras pareceu não fazer sentido. Peter era gentil. Peter a amava.
"Eu não sinto nada por ela, mas você precisa do rim, Lindsay. A equipe médica já está aqui. Só mais alguns dias e tudo estará resolvido."
O mundo se despedaçou.
“Ela é uma órfã ignorante. Nada nela me atrai.”
Karen deu um passo para trás e esbarrou em uma estátua decorativa. O barulho ecoou como um disparo.
Silêncio.
"Alguém está aí?" A voz de Peter soou alerta.
O pânico explodiu no peito dela. O ar parecia sumir. Ela virou e desceu as escadas correndo, os saltos batendo no mármore como tambores anunciando sua fuga. Atrás dela, a porta da escadaria se abriu com força.
"Karen? Pare!"
Ela não parou. As lágrimas vinham sem controle. O gosto salgado queimava na boca.
"Karen, espera! Deixa eu explicar! Isso é uma brincadeira!"
Ela desceu até o subsolo, correu entre os carros, o coração explodindo no peito.
Idiota. Idiota. IDIOTA.
A voz da Senhora Malcolm ecoava em sua mente: As pessoas são desonestas.
"Karen, vamos conversar!"
Ela se escondeu entre os carros e ouviu os passos apressados de Peter se aproximando. O som de seus sapatos ressoava como ameaça.
Um carro preto e elegante estava estacionado com o motor ligado. Karen nem pensou. Abriu a porta traseira e mergulhou para dentro, batendo a porta atrás de si.
Mas, em segundos, uma voz fria e irritada a surpreendeu.
"Saia do meu carro."
O tom era baixo e perigosamente calmo.
Karen levantou o rosto. Um homem estava sentado ao lado dela, com o laptop aberto no colo. Os olhos cinzentos dele a fitaram com uma mistura de incredulidade e fúria. Era bonito de uma forma brutal — maxilar definido, cabelo negro perfeitamente penteado, terno que provavelmente custava mais do que seis meses do salário dela.
E estava visivelmente irritado com a invasão. O maxilar contraído, os dedos longos batendo de leve no teclado do laptop, como se tentassem conter a própria paciência.
"Eu preciso de ajuda,” ela implorou.
"Eu não me importo."
A voz dele era fria, quase entediada. Não havia espaço para empatia ali, apenas controle.
"Por favor, me ajuda… aquele homem quer—"
"Você trapaceou nos jogos?" ele a interrompeu, sem sequer levantar o olhar, como se estivesse acostumado a ouvir desculpas de pessoas desesperadas.
Karen piscou, confusa.
"Não! Aquele homem quer o meu rim!"
O som das palavras dela pareceu pairar no ar, grotesco, absurdo demais para ser verdade. Ele finalmente ergueu o olhar e, pela primeira vez, os olhos cinzentos encontraram os dela.
Não havia piedade ali. Apenas cálculos e avaliação.
Por um segundo, ele pareceu prestes a responder, mas algo o fez parar. O olhar dele desceu para o pescoço de Karen, onde o tecido do vestido se afastou um pouco. Havia uma medalha pequena, com um número quase apagado pelo tempo: 125478 SM.
Ele conhecia aquela medalha..
Os dedos dele se moveram devagar, como se a visão daquilo tivesse perfurado uma camada de gelo que ele mantinha há anos.
"SM..." murmurou, mais para si do que para ela. A expressão dele mudou — a irritação deu lugar a algo mais sombrio, mais tenso. Lembranças.
Karen não entendeu. Tentou recuar, mas o olhar dele a manteve presa.
"Por que você tem esse pingente?" a voz dele continuava baixa.
"Eu… cresci no Saint Mary. Saí há seis meses."
Os olhos dele se estreitaram, e por um instante Karen achou que ele fosse dizer algo — mas o som de passos apressados ecoou do lado de fora.
O retorno de Peter.
O semblante de Sebastian mudou. Em um instante, a indecisão desapareceu, substituída por uma autoridade desconcertante.
"Fique abaixada", ele ordenou.
Karen hesitou, mas antes que pudesse reagir, a mão dele pousou em sua nuca — firme, quente, impositiva. Ele a empurrou suavemente para baixo, escondendo-a.
O calor do toque dele atravessou o tecido fino do vestido. O perfume era caro — e havia algo mais escuro nele, algo que fez o coração de Karen acelerar por um motivo que nada tinha a ver com medo.
Batidas na janela. Secas. Urgentes.
O homem abaixou o vidro apenas alguns centímetros.
"Sebastian?" A voz de Peter soou surpresa, quase trêmula.
Sebastian manteve o olhar fixo em frente, o maxilar imóvel.
"Eu vim falar com o Leonel."
Do lado de fora, Peter respirava com dificuldade. O suor escorria pela têmpora, o terno desalinhado. A compostura elegante de herdeiro havia desaparecido.
"Você viu uma garota? Vestido azul, cabelo castanho?"
Karen prendeu o ar. O corpo inteiro dela encolhido contra o banco de couro, o rosto pressionado no frio do assento. O cheiro de couro misturado ao perfume caro de Sebastian a cercava, sufocante.
"Não", ele respondeu, seco.
"Ela veio pra este lado, tenho certeza—"
Sebastian virou o rosto, devagar, os olhos cinzentos encontrando os de Peter através da fresta do vidro. O silêncio se estendeu como uma lâmina.
"Não vi ninguém. E estou ocupado."
A forma como ele disse ocupado não deixava espaço para réplica. Era um aviso. Um corte limpo.
Karen podia ouvir o som do coração dela martelando dentro do carro — ou talvez fosse o dele, impossível saber.
Do lado de fora, Peter hesitou, e pela primeira vez, soou pequeno.
"Se você vê-la..."
"Não vou ver." Sebastian interrompeu, a voz baixa, porém carregada de autoridade. "Agora saia da frente do meu carro."
O vidro subiu com um estalo final.
Karen permaneceu imóvel, os olhos fixos na linha do paletó dele, a respiração presa. Lá fora, as passadas de Peter se afastaram — rápidas, relutantes, e depois… silêncio.
Dentro do carro, o ar parecia diferente. Mais denso.
Sebastian largou o laptop e encostou o corpo no banco, finalmente permitindo-se respirar. "Dirija", ele disse para o motorista.
Então virou o rosto para ela, o olhar frio e cortante. A pausa que se seguiu foi mais ameaçadora do que um grito.
"Agora me diga… quem é você?"
"Eu sou... a camareira do hotel. Achei que seria pedida em namoro."
Sebastian arqueou uma sobrancelha, sem esconder o desdém.
"Pelo Peter?"
"Vocês se conhecem?"
"Somos irmãos."
O sangue fugiu do rosto de Karen. Ela piscou, sem conseguir acreditar.
"Não... isso não pode ser..."
Tentou abrir a porta, mas Sebastian foi mais rápido. A mão dele agarrou seu pulso com firmeza — não o bastante para machucar, mas o suficiente para deixá-la imóvel.
"Se você era íntima do Peter," ele disse com voz baixa, controlada, "deve saber que nos odiamos. Ele me chama de..."
"Bastardo", sussurrou Karen, a voz trêmula.
O olhar de Sebastian se cravou nela. Frio e invasivo, como se estivesse vendo um reflexo antigo de si mesmo.
“Acredite, já me chamaram de coisas piores.”
O carro ficou em silêncio. Do lado de fora, a cidade brilhava com luzes de néon, indiferente.







