Mundo de ficçãoIniciar sessãoA festa continuava, som e perfumes caros, mas para Alis, tudo havia se reduzido a um zumbido distante, um pano de fundo desfocado para o turbilhão interno que a consumia. Cada célula do seu corpo parecia sintonizada num único homem: Samuel. Ela o via através da multidão, parado perto do bar, segurando um copo de uísque, seus olhos negros fixos nela. A dança havia sido apenas um primeiro chamariz, uma declaração silenciosa de intenções que agora ecoava em cada fibra do seu ser.
Ela circulava entre os convidados, um sorriso falso colado ao rosto, respondendo a elogios e perguntas vazias no piloto automático. Dentro, porém, era puro caos. O calor da mão dele em sua cintura era uma sensação fantasma, uma marca de fogo que teimava em não se apagar. A pressão de seu corpo contra o dela, o volume duro e promissor que ela sentira contra sua barriga, era uma memória tátil que a fazia tremer por dentro. O vestido de cetim, outrora uma armadura, agora parecia uma segunda pele excessivamente sensível, cada dobra do tecido uma lembrança do toque dele. Ele não se aproximou novamente. Era parte do jogo, ela percebeu. Parte da tortura deliciosa. Ele a observava, alimentando a tensão com a paciência de um predador que sabe que a presa já está praticamente em suas garras. E Alis, para seu próprio espanto e excitação crescente, sabia que era a presa. E ansiou por ser capturada. A noite avançou. Os noivos se retiraram em uma chuva de pétalas e aplausos. Os convidados começaram a se dispersar, alguns para seus quartos no hotel, outros para continuar a celebração em grupos menores nos arredores. Alis sentiu o cansaço começar a pesar em suas pálpebras, mas era um cansaço superficial, um véu fino sobre uma corrente elétrica de antecipação. Subiu as escadas largas que levavam aos quartos, seus saltos altos fazendo um som oco e solitário na madrugada silenciosa. O corredor era longo, iluminado por luzes suaves embutidas no piso, com portas escuras de madeira maciça de cada lado. O mar, agora, era um sussurro constante, uma respiração profunda e úmida que vinha das varandas abertas. E então, ela o viu. Ele não estava se movendo. Não estava procurando o próprio quarto. Estava simplesmente lá. Encostado na porta do quarto dela, o número 217. Como se soubesse. Como se tivesse recebido um mapa interno, uma bússola que o guiava diretamente para ela. Seus braços estavam cruzados sobre o peito largo, a camisa branca agora desabotoada no pescoço, revelando uma sombra de pele morena e uma promessa de músculos sob o tecido. A postura era de uma paciência infinita, de uma certeza absoluta. Um predador à espera. Alis parou a alguns metros de distância, seu coração batendo tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir. A surpresa inicial deu lugar a uma aceitação profunda. Era isso. Era para aqui que tudo estava conduzindo desde o momento em que seus olhos se encontraram no altar. Ele não disse uma palavra. Apenas a observou, seus olhos escaneando-a da cabeça aos pés, devagar, apreciativamente, como se estivesse revisando um território que em breve seria seu. O desafio naquele olhar era tão claro quanto a luz do dia. Alis engoliu em seco, sentindo a boca seca. O medo e o desejo se entrelaçaram, criando uma droga intoxicante em suas veias. Ela poderia dar meia-volta. Poderia fingir que estava indo para outro quarto. Poderia dizer algo cortante, algo que restaurasse a dignidade e a distância. Em vez disso, ela sentiu os cantos de sua boca se erguerem em um sorriso pequeno e desafiador. Ergueu o queixo, enfrentando seu olhar. — Estou sendo seguida? — sua voz soou mais rouca do que o habitual, carregada de uma provocação que ela não se preocupou em disfarçar. Ele desencostou-se da porta com uma lentidão fluida. Seus movimentos eram controlados, econômicos, cada músculo sob rédeas curtas. — Estou me controlando — ele respondeu, a voz um rosnado baixo que parecia vibrar no próprio ar entre eles. — E perdendo. A cada segundo que passa. Ele deu um passo à frente. Depois outro. A distância entre eles diminuiu até que ela pudesse sentir o calor radiante de seu corpo, cheirar o uísque e o aroma amadeirado de sua pele. Era uma invasão de espaço pessoal, uma afronta a todas as regras sociais, e era a coisa mais excitante que Alis já vivenciara. Ela não recuou. Permaneceu firme, seu olhar travado no dele. — E o que você pretende fazer sobre essa… derrota iminente? — Depende de você. — Sua mão levantou, mas ele não a tocou. Apenas passou as pontas dos dedos a centímetros do tecido do vestido, sobre a curva de seu quadril. Ela sentiu a pele sob o cetim arder com a proximidade. — A porta está ali. Você pode entrar sozinha e trancá-la. Ou… — Ou? — ela sussurrou, o ar preso em seus pulmões. — Ou você pode me convidar para entrar. — Seus olhos pareciam ainda mais escuros, as pupilas dilatadas, engolindo a íris marrom. — Mas eu te aviso, Alis. Se eu cruzar essa porta, não vai ser para tomar um chá e conversar sobre arquitetura. As palavras eram cortantes, cheias de duplo sentido, uma fachada frágil para o desejo incontrolável que fervilha sob a superfície. Ela podia sentir a umidade entre suas pernas, uma resposta física, primitiva e inegável à sua proximidade, à sua crueza. Ela olhou para a porta. Para a maçaneta de latão. Para a saída. Depois, olhou de volta para ele. Para a promessa daqueles olhos, daquela boca, daquelas mãos. Para a tempestade que ele representava. E tomou a decisão. Deu um passo à frente, fechando a ínfima distância que restava. Agora, seus corpos quase se tocavam. Ela podia sentir o calor dele através de suas roupas. Ergueu a mão e colocou a palma aberta contra seu peito, sobre o tecido da camisa. O coração dele batia acelerado e forte, um tambor selvagem ecoando sob sua mão. Ele estava longe de ser tão calmo quanto aparentava. — Então encosta — ela desafiou, sua voz um sussurro rouco e decidido. Ele a agarrou pela nuca, seus dedos se enterrando em seus cabelos, e puxou sua boca para a dele com uma força que foi quase brutal. Não foi um beijo de sedução, de exploração tímida. Foi uma conquista. Uma libertação de toda a tensão que havia se acumulado entre eles desde o primeiro olhar no casamento. Sua boca era quente, urgente, sua língua invadindo a dela sem cerimônia, reivindicando posse. O gosto dele era de uísque, de sal, de pura necessidade masculina. Alis gemeu contra seus lábios, uma resposta instintiva e igualmente faminta. Suas mãos subiram e se prenderam aos ombros largos dele, suas unhas cravando-se no tecido da camisa, tentando ancorar-se em um mundo que de repente havia virado de cabeça para baixo.






