Capítulo dois

Saio do quarto em silêncio, fechando a porta com cuidado atrás de mim, como se qualquer som mais alto pudesse quebrar o pouco de paz que ainda resta ali dentro. O corredor parece ainda mais frio agora… mais vazio.

Caminho pelo hospital com passos controlados, mas por dentro tudo está em desordem. O som dos meus saltos ecoa baixo no piso impecável, misturando-se aos ruídos distantes de máquinas e vozes abafadas. Não olho para trás. Não olho para ninguém.

Só quero sair dali.

Assim que atravesso as portas principais, o ar do lado de fora me atinge de forma diferente — menos pesado, mas não exatamente leve. Respiro fundo, tentando organizar meus pensamentos, conter o aperto no peito… recuperar o controle.

Começo a caminhar em direção à casa, preferindo o trajeto a pé. Preciso disso. Preciso do movimento, do silêncio, da distração… ou pelo menos de algo que me impeça de pensar demais.

A rua está relativamente tranquila. O céu começa a mudar de cor, pintado em tons suaves de fim de tarde, enquanto as luzes da cidade vão se acendendo aos poucos. Meus passos seguem firmes, ritmados… mas minha mente continua distante.

Até que algo muda.

É sutil no começo.

Uma sensação.

Como se… eu não estivesse sozinha.

Franzo levemente o cenho, diminuindo o ritmo por um segundo, prestando atenção ao som ao meu redor. Passos. Há outros passos além dos meus. Sincronizados demais para serem coincidência.

Meu corpo reage antes mesmo da minha mente processar completamente. Endireito a postura, meu olhar se torna mais atento, mais frio. Continuo andando, mas agora cada detalhe importa — reflexos em vitrines, sombras no chão, qualquer movimento fora do lugar.

E então eu vejo.

De relance, no vidro de uma loja fechada… uma silhueta atrás de mim.

Distante o suficiente para não chamar atenção. Perto o bastante para não ser ignorada.

Meu coração acelera, mas meu rosto permanece impassível.

Não é a primeira vez que sinto perigo.

Mas dessa vez… é diferente.

Porque quem quer que esteja me seguindo… sabe exatamente o que está fazendo.

Fingi que não percebi, mantendo o olhar fixo à frente e o ritmo dos meus passos constante, como se tudo estivesse completamente normal. Por fora, eu estava calma… intocável. Mas por dentro, cada parte do meu corpo estava em alerta. Meus sentidos se aguçaram de forma quase automática, captando cada som ao redor, principalmente aquele… os passos atrás de mim, que não desapareciam. Pelo contrário, me acompanhavam com uma precisão inquietante.

Continuei caminhando, segurando a alça da minha bolsa com um pouco mais de força, sentindo meu coração acelerar dentro do peito, mas me recusando a demonstrar qualquer sinal de fraqueza. Meus olhos analisavam tudo ao redor de forma discreta, usando os reflexos das vitrines para confirmar o que eu já suspeitava… a mesma silhueta permanecia ali, atrás de mim, mantendo distância… mas nunca indo embora. Aquilo não era coincidência. Era intencional. E só de pensar nisso, um frio desconfortável percorreu minha espinha.

À medida que eu me aproximava de casa, o ambiente parecia mudar. As ruas ficavam mais silenciosas, o movimento diminuía, e o som dos meus próprios passos parecia alto demais aos meus ouvidos. O portão já estava visível ao longe, imponente, como uma promessa de segurança… mas, pela primeira vez, nem isso foi suficiente para me tranquilizar.

E então… tudo mudou.

Os passos atrás de mim, que antes eram controlados, começaram a se aproximar. Mais rápidos… mais próximos.

Meu coração disparou de forma violenta, e o ar pareceu ficar pesado demais para respirar direito. O desespero começou a tomar conta, quebrando todo o controle que eu vinha mantendo até então. Apertei minha bolsa com mais força, e meu corpo reagiu antes mesmo que eu pudesse pensar.

Acelerei o passo.

E ele também.

Agora não havia mais dúvida.

Ele estava vindo.

O medo me atingiu de vez, intenso, sufocante… e sem pensar, sem olhar para trás… eu corri.

Meus passos ecoavam pela rua quase vazia, rápidos, descompassados, enquanto o vento batia contra o meu rosto e meus cabelos se moviam com o impulso. Tudo ao meu redor virou um borrão — luzes, sombras, formas — nada importava além da sensação de que eu não estava sozinha… de que ele estava logo atrás de mim.

Meu coração batia forte demais, desesperado, e por mais que eu corresse, nunca parecia suficiente.

Eu só conseguia pensar em uma coisa.

Chegar em casa.

Mas, no fundo… havia algo pior me consumindo.

A sensação de que ele estava cada vez mais perto.

Virei bruscamente para um beco, o corpo se movendo mais rápido do que meus próprios pensamentos. O lugar era estreito, escuro, quase engolido pelas sombras, com um cheiro úmido e abafado que tornava o ar pesado demais para respirar direito. Me encostei na parte mais escura, tentando controlar a respiração, levando a mão ao peito na tentativa inútil de acalmar meu coração que parecia prestes a denunciar minha presença a qualquer segundo.

Fiquei imóvel.

Ouvindo.

Sentindo.

Cada passo que se aproximava do beco fazia meu corpo inteiro se contrair, cada som parecia alto demais naquele silêncio sufocante. Eu precisava pensar… precisava agir… mas minha mente estava em caos.

E então—

Uma mão forte cobriu minha boca de repente, me puxando bruscamente para trás, me prensando contra um corpo firme na escuridão.

O susto foi imediato.

Meu instinto reagiu na mesma hora, meu corpo se tensionando, pronta para me debater, para lutar, para fazer qualquer coisa que me tirasse daquela situação—

— Fica quieta… eu estou te ajudando. — A voz masculina surgiu baixa, firme, próxima demais ao meu ouvido.

Congelei.

Meu coração continuava acelerado, mas algo naquela voz… não era ameaça. Era controle. Era certeza.

Ainda assim, não relaxei.

Apenas parei.

Respirando com dificuldade contra a mão que ainda cobria minha boca, meus olhos se ajustando lentamente à pouca luz do beco.

Foi então que eu vi.

O homem entrou no beco.

A silhueta dele surgiu na entrada, olhando ao redor, atento, procurando… por mim. Meu corpo inteiro travou, cada músculo rígido, enquanto eu assistia, presa contra aquele desconhecido que dizia estar me ajudando.

Ele deu alguns passos para dentro, analisando cada canto, cada sombra… mas não nos viu.

O tempo pareceu parar.

Minha respiração ficou presa na garganta, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que podia ser ouvido.

Mas ele não me encontrou.

Depois de alguns segundos que pareceram eternos, ele soltou um suspiro irritado, levando a mão ao bolso e pegando o celular. Observei, em silêncio absoluto, enquanto ele fazia uma ligação rápida, falando baixo demais para que eu pudesse entender… e então, simplesmente, se virou e foi embora.

Sumiu.

Assim como apareceu.

A mão que cobria minha boca se afasta de repente, e o corpo atrás de mim recua na mesma rapidez, como se nunca tivesse estado ali. O ar volta aos meus pulmões de uma vez só, fazendo minha respiração sair descompassada, quase trêmula, enquanto eu ainda tento processar tudo o que acabou de acontecer.

Fico parada por um segundo, completamente imóvel, sentindo o coração bater forte demais no peito, os sentidos ainda em alerta, como se o perigo não tivesse ido embora por completo.

Então eu me viro.

— Eu…

As palavras morrem antes mesmo de saírem por completo.

Não tem ninguém.

O espaço atrás de mim está vazio. Apenas a escuridão do beco, silenciosa, imóvel… como se ele nunca tivesse estado ali. Franzo o cenho, dando um passo à frente, meus olhos percorrendo cada canto, cada sombra, procurando qualquer sinal… qualquer movimento.

Nada.

Ele simplesmente… sumiu.

Um arrepio percorre minha espinha, dessa vez diferente. Não é medo.

É dúvida.

Quem era ele?

E por que me ajudou?

Minha mente tenta encontrar alguma resposta, algum sentido lógico, mas tudo o que encontro é o vazio… e a lembrança da voz dele, baixa, firme… controlada.

Seguro a alça da minha bolsa com mais força, respirando fundo, tentando recuperar o controle de mim mesma. Ficar ali não é uma opção.

Saio do beco com passos rápidos, olhando rapidamente ao redor antes de seguir em direção à minha casa. Agora, cada movimento parece mais urgente, mais tenso… como se a qualquer momento algo pudesse acontecer de novo.

Não olho para trás.

Não paro.

E mesmo quando finalmente me aproximo do portão, a única coisa que continua ecoando na minha mente não é o homem que me perseguiu…

Mas aquele que apareceu… e desapareceu como se fosse apenas uma sombra.

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