Mundo de ficçãoIniciar sessãoJá é outro dia, mas a sensação da noite anterior ainda permanece em mim, como um alerta constante que se recusa a desaparecer. Estou na biblioteca da faculdade com Laura, sentada à mesa, alguns livros abertos à nossa frente… completamente ignorados.
— Claire, isso é simplesmente surreal! — Laura diz, os olhos brilhando de empolgação enquanto se inclina na minha direção. — Um homem misterioso aparece do nada, te salva, te protege… e depois desaparece? Isso é praticamente uma história de romance! Reviro os olhos, soltando um suspiro baixo, cruzando os braços enquanto me recosto na cadeira. — Para de sonhar, Laura. — digo, em um tom mais seco do que o normal. — Aquilo não teve nada de romântico. Foi estranho… muito estranho. Minha mente volta automaticamente para o momento no beco, para a forma como tudo aconteceu rápido demais… preciso demais. Nada ali parecia coincidência. Nada parecia… comum. Laura faz uma careta, claramente não concordando, mas não insiste naquele ponto. Em vez disso, cruza os braços sobre a mesa, me analisando com mais atenção. — E você vai fazer o quê? Só fingir que nada aconteceu? Desvio o olhar por um instante, passando os dedos lentamente pela borda de uma das páginas abertas à minha frente, sem realmente enxergar o que está escrito. — Eu estava pensando em falar com o meu pai. — digo por fim, a voz mais baixa, mais controlada. Laura se ajeita na cadeira imediatamente, a expressão mudando para algo mais sério. — Não sei se isso é uma boa ideia… — ela comenta, hesitante. — Você sabe como ele é. Isso pode virar algo maior do que já é. Aperto levemente a mandíbula, sentindo aquele incômodo familiar surgir ao pensar nele. — Ou talvez… — continuo, levantando o olhar novamente, mais firme — ele saiba exatamente o que isso é. E, pela primeira vez desde ontem… Essa possibilidade parece ainda mais inquietante do que todo o resto. .... Vou direto para a empresa do meu pai, tentando ignorar a inquietação que ainda insiste em me acompanhar desde a noite passada. Assim que chego, como sempre, sou atingida pela imponência do lugar. O prédio se ergue alto, revestido de vidro espelhado, refletindo tudo ao redor como se estivesse acima de qualquer coisa. Por dentro, não é diferente. Mármore impecável, iluminação sofisticada, móveis luxuosos… tudo ali exala poder, dinheiro… controle. E, de alguma forma, também distância. Mesmo acostumada, ainda me surpreendo. Caminho até a recepção, meus passos ecoando suavemente pelo ambiente amplo e silencioso. A recepcionista me olha por um segundo, e imediatamente sua postura muda ao me reconhecer. — Bom dia, senhorita Claire. Em que posso ajudar? — Quero falar com o meu pai. — digo, direta, sem rodeios. Ela acena com a cabeça, já pegando o telefone. — Claro, vou avisar que a senhorita está aqui. Pode aguardar um instante. Apenas concordo com um leve movimento de cabeça e me afasto alguns passos, cruzando os braços enquanto espero. Meu olhar percorre o ambiente, mas minha mente está longe… presa entre a noite anterior e a conversa com Laura. Algo não está certo. E eu sinto isso. A recepcionista se levanta, indo pessoalmente em direção à sala do meu pai, provavelmente para avisar que estou ali. Fico sozinha por alguns segundos, o silêncio ao redor sendo quase sufocante. Até que meu celular toca. O som ecoa alto demais no ambiente calmo, fazendo meu coração dar um salto imediato. Franzo o cenho, pegando o aparelho rapidamente… e, ao ver o nome do hospital na tela, sinto meu estômago gelar. Atendo na mesma hora. — Alô? Minha voz sai mais baixa do que o normal. Do outro lado, a voz é rápida… tensa… profissional demais. E tudo dentro de mim despenca. Algo aconteceu. — Eu já estou indo. — digo, quase sem perceber quando desligo. Minhas mãos tremem levemente enquanto seguro o celular, minha respiração ficando irregular, o pânico subindo rápido demais. — Claire? A voz do meu pai surge atrás de mim, firme, séria. Me viro na mesma hora, encontrando ele já caminhando na minha direção, a expressão fechada, os olhos atentos analisando cada detalhe meu. — O que aconteceu? Engulo em seco, sentindo o desespero tomar conta de vez. — É a mamãe… — minha voz falha por um segundo, mas continuo — aconteceu alguma coisa com ela. Por um instante, vejo algo passar pelo olhar dele… rápido demais para identificar. Mas ele não perde tempo. — Vamos. — ele diz, direto. E eu não penso duas vezes. Saímos praticamente correndo dali, os passos apressados ecoando pelo chão de mármore, enquanto tudo ao meu redor perde o foco. Meu coração dispara, minha mente entra em caos, e uma única coisa domina meus pensamentos enquanto seguimos para o hospital. Por favor… não agora. Não assim. Chegamos ao hospital às pressas, o coração ainda batendo descompassado no peito enquanto atravesso os corredores que, até ontem, já eram pesados… mas agora parecem sufocantes. Paro por um segundo ao lado do meu pai, minha respiração falha, minha mente em completo caos. — Vai falar com o médico. — digo, tentando manter a voz firme, mesmo sentindo o desespero me consumir. — Eu vou ver a minha mãe. Ele me encara por um instante, como se quisesse dizer algo… mas apenas concorda com um leve aceno. Não espero mais. Sigo pelo corredor quase correndo, meus passos rápidos, o som ecoando alto demais nos meus ouvidos. Minha mão treme levemente quando alcanço a maçaneta do quarto… e, por um segundo, hesito. Então eu entro. O ar parece mais pesado ali dentro. Mas diferente de antes… Ela está acordada. Meu coração aperta imediatamente ao vê-la. Minha mãe está deitada, os olhos abertos, mas visivelmente fraca… pálida… como se cada segundo estivesse drenando o pouco de energia que ainda resta nela. — Mãe… — minha voz sai quase em um sussurro enquanto me aproximo rapidamente da cama, pegando sua mão com cuidado, como sempre faço. — O que aconteceu? Ela aperta levemente meus dedos, mas seu olhar… está diferente. Mais sério. Mais… urgente. — Claire… — sua voz sai fraca, quase falhando, mas carregada de algo que me faz gelar por dentro — presta atenção… você precisa prestar atenção… eu não tenho muito tempo. Meu coração despenca. — O quê? Não… mãe, não fala assim… — minha voz falha, o desespero começando a tomar conta — você vai ficar bem, o tratamento— — Não. — ela me interrompe, com uma firmeza que não combina com o estado dela. E isso me assusta mais do que qualquer coisa. Minha respiração trava enquanto eu a encaro, sem entender… sem querer entender. Com mãos trêmulas, ela pega algo ao lado da cama e coloca na minha mão. Um papel. — Hoje à noite… — ela continua, olhando diretamente nos meus olhos — eles vão atrás de você. Sinto o mundo parar. — O quê…? — minha voz sai quase inaudível, completamente perdida. — Para te matar. — ela completa, sem rodeios. O ar desaparece dos meus pulmões. — Isso não faz sentido… mãe, do que você está falando? — o desespero toma conta de vez, minhas mãos tremendo enquanto seguro o papel — quem? Por quê? — Shhh… — ela sussurra, apertando minha mão com o pouco de força que ainda tem — fica quieta e escuta. Lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto sem que eu perceba. — Não tem mais o que fazer por mim… — ela continua, a voz cada vez mais fraca — eu vou morrer, Claire… — Não fala isso! — digo imediatamente, a voz quebrando, completamente desesperada. — E depois… eles vão atrás de você. — ela ignora, como se não houvesse mais tempo para suavizar nada. Meu coração parece estar sendo esmagado. — Não… não… — balanço a cabeça, incapaz de aceitar aquilo. — Você precisa ir. Agora. — ela insiste, olhando para mim com urgência — vai até esse endereço… — seus olhos indicam o papel na minha mão — não fala nada para o seu pai… nada, Claire. — Mas— — Vai. — ela interrompe, com uma firmeza que me faz congelar — e procura por Ares Neytan. O nome ecoa na minha mente. Desconhecido. Perigoso. — Ele vai te ajudar… ele vai te explicar tudo… — Mãe, eu não estou entendendo nada! — minha voz sai em meio ao choro, desesperada — me explica, por favor… o que é isso? Quem são essas pessoas? Ela me puxa com o pouco de força que ainda tem, me envolvendo em um abraço fraco… mas cheio de tudo que ela ainda consegue transmitir. Sinto seu cheiro. Sinto seu calor… ainda ali. — Eu te amo… — ela sussurra, tão baixo que quase não consigo ouvir — e você precisa fazer exatamente o que eu disse. Meus dedos se apertam contra o lençol, meu corpo tremendo enquanto eu me agarro a ela, como se pudesse impedir tudo aquilo de acontecer. — Por favor… — murmuro, quebrada. Mas, no fundo… Eu já sei. Nada vai parar o que está vindo.






