A casa acordou diferente no dia seguinte.
Não havia barulho, discussão ou portas batendo. Ainda assim, algo havia sido deslocado de forma irreversível. Como um móvel pesado arrastado alguns centímetros — quase imperceptível, mas suficiente para tornar impossível fingir que sempre esteve ali.
Ela percebeu isso ao descer as escadas.
O silêncio não era vazio. Era atento.
A criança estava sentada à mesa, desenhando. Não levantou o olhar imediatamente. Continuou concentrada, como se soubesse que aquele momento não precisava ser preenchido com palavras.
Ela serviu café, observando o reflexo do próprio rosto no vidro da janela. Não havia triunfo. Tampouco medo. Havia clareza — e isso, ela sabia, era o que mais incomodava quando surgia em ambientes acostumados à negação.
— Eles vão voltar? — perguntou a criança, sem erguer a cabeça.
Ela respirou antes de responder.
— Vão tentar — disse. — Sempre tentam quando percebem que perderam o controle.
— Mas não é mais igual — a criança concluiu.
Ela s