A madrugada chegava sempre da mesma forma: sem pedir licença.
Não era o silêncio que denunciava a hora, mas o peso dele. Um silêncio que não descansava — observava. Como se tudo o que havia sido dito durante o dia agora se organizasse em camadas invisíveis, esperando para ser sentido.
Ela estava sentada à beira da cama, o lençol escorregando lentamente pelos ombros, sem pressa de cobrir o que já não precisava mais ser escondido. O quarto ainda carregava vestígios de presença: o cheiro, o calor preso no colchão, o copo esquecido sobre a mesa. Nada gritava ausência. Tudo sussurrava permanência recente.
Ele não dormia.
Deitado de lado, um braço dobrado sob a cabeça, encarava o teto como quem revisita decisões antigas sem saber exatamente em qual ponto começou a errar — ou acertar demais.
Havia algo entre eles naquela noite que não era conflito, nem harmonia. Era consciência.
— Você também sente isso? — ela perguntou, sem olhar diretamente para ele.
Ele virou o rosto devagar. Não havia su