Capítulo 54 — O que não se diz também decide

A madrugada chegava sempre da mesma forma: sem pedir licença.

Não era o silêncio que denunciava a hora, mas o peso dele. Um silêncio que não descansava — observava. Como se tudo o que havia sido dito durante o dia agora se organizasse em camadas invisíveis, esperando para ser sentido.

Ela estava sentada à beira da cama, o lençol escorregando lentamente pelos ombros, sem pressa de cobrir o que já não precisava mais ser escondido. O quarto ainda carregava vestígios de presença: o cheiro, o calor preso no colchão, o copo esquecido sobre a mesa. Nada gritava ausência. Tudo sussurrava permanência recente.

Ele não dormia.

Deitado de lado, um braço dobrado sob a cabeça, encarava o teto como quem revisita decisões antigas sem saber exatamente em qual ponto começou a errar — ou acertar demais.

Havia algo entre eles naquela noite que não era conflito, nem harmonia. Era consciência.

— Você também sente isso? — ela perguntou, sem olhar diretamente para ele.

Ele virou o rosto devagar. Não havia su
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