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Capítulo 10 - O Gosto Do Que Eu Não Posso Ter

Lorena Azevedo

Quatro meses.

Cento e vinte e dois dias.

Dezesseis semanas.

Incontáveis aprendizados.

E ainda assim, às vezes eu acordava no meio da madrugada com o corpo quente demais, o coração acelerado e um nome mudo nos lábios que eu fingia não lembrar.

Mas eu tava viva.

Tava de pé.

E mais que isso: tava vencendo.

Continuava morando com a Tati — ou melhor, ela continuava morando comigo, como ela mesma dizia, já que eu fazia questão de ajudar com tudo.

A gente dividia as contas do aluguel, do gás, da feira do mês.

Hoje, tinha carne no prato, arroz soltinho, feijão temperado.

E mais: eu tinha conseguido comprar uma mesa nova, um sofá que não quebrava as costas e até um armário modesto pra guardar as roupas do Miguel.

Falando nele...

— Mãe! Cadê minha blusa nova do dinossauro?

— Tá na gaveta de cima, meu amor! Dobradinha, igual te ensinei.

Ele saiu correndo, rindo, com o cabelo bagunçado e o dente da frente ainda faltando.

Ver aquele menino sorrindo de novo... era o que me mantinha firme.

A cafeteria tinha virado meu refúgio.

Marta, minha chefe, tinha se tornado quase uma madrinha.

E os clientes... até os chatos me faziam sentir importante. Vista.

Com o primeiro salário, comprei algumas roupas novas.

Com o segundo, ajudei a pagar o conserto do fogão da Tati.

Com o terceiro, comprei brinquedos e calçados novos pro Miguel.

Com o quarto...

Comprei um vestido vermelho.

Não porque eu tivesse pra quem usar.

Mas porque eu queria lembrar que ainda era mulher.

Mesmo que, às vezes, na solidão do banheiro...

eu ainda fechasse os olhos e lembrasse daquela noite.

Da voz rouca.

Das mãos fortes.

Da boca quente.

Do homem que nunca soube meu nome.

E que nunca mais ia saber.

(***)

Dia de folga.

Sol bonito no céu de Belo Horizonte.

O tipo de sábado que começa leve e promete ser inesquecível.

— Hoje é dia de mimar você, minha guerreira! — Tati falou, jogando os óculos de sol no rosto e ajeitando o cabelo como se fosse diva da novela das seis.

— E eu? Eu também sou guerreiro! — Miguel gritou, já pulando na frente, com um boné torto na cabeça e um dente faltando que o deixava ainda mais irresistível.

— Você é o príncipe do rolê, meu amor — respondi, rindo, agarrando a mãozinha dele.

Fomos até a Praça da Liberdade, um dos meus lugares preferidos.

O céu azul, as árvores balançando com o vento leve, as crianças correndo, os namorados trocando beijos, a vida pulsando no centro da cidade.

Sentamos na grama, tomamos picolé, tiramos fotos, Miguel correu atrás de pombos e Tati tirou selfie até o braço cansar.

— Sabia que faz tempo que eu não via seu rosto assim? — Tati disse, colocando a cabeça no meu ombro. — Leve. Livre.

— Eu tô tentando, Tati. De verdade.

— Você tá conseguindo.

Eu sorri. Queria acreditar.

Foi aí que o celular vibrou.

PAULO.

O nome congelou meu sangue.

— Atende — Tati disse. — Vai ver é algo importante com o Miguel.

Respirei fundo. Atendi.

— Alô?

— Lorena.

— Oi. O que foi?

— Quero ver meu filho no próximo fim de semana. Levar ele pra dormir em casa. Faz tempo.

— Eu... eu posso pensar e ver se ele vai querer...

— Não tem que pensar. Ele é meu filho também. Tenho direito. Você que escolheu sair daqui e levar ele com você.

Engoli em seco.

— Eu vou conversar com ele, Paulo. E se ele quiser ir, eu deixo.

Houve uma pausa.

E então, do nada, ele soltou.

— Mesmo sendo a vagabunda que destruiu nossa família... você ainda acha que merece ser feliz?

Meu peito travou.

— O quê?

— É isso mesmo. Você acabou com tudo. Me humilhou. Ferrou com nosso lar. Com o Miguel. Com a gente.

Você não presta, Lorena. Nunca prestou. E um dia ele vai saber disso.

— Chega.

— Vai desligar? Vai fugir de novo?

— Não... Eu só tô cansada demais pra discutir com alguém que me culpa por tudo enquanto esquece que foi você quem me deixou invisível... Boa noite, Paulo.

E desliguei.

O celular caiu no meu colo.

Minha mão tremia.

— Lorena... — Tati se aproximou, preocupada.

— Tá tudo bem — menti. — Ele só quer ver o Miguel.

O resto... eu enterrei. Ou tentei.

Voltamos pra casa.

Miguel dormiu no sofá, cansado de tanto correr.

Tati foi tomar banho.

E eu... fui pra cozinha.

Fiz arroz.

Frango grelhado.

Salada.

Mas não comi.

Fiquei sentada na mesa.

O prato na frente.

A mão segurando o copo de suco que já tinha perdido o gelo.

As palavras dele ecoando na minha cabeça como maldição.

"Você é uma vagabunda.

Acabou com a gente.

Não merece ser feliz."

Fechei os olhos.

Engoli seco.

Eu sabia que não era verdade.

Mas ainda assim... doía.

Porque toda mulher que já foi diminuída por um homem uma vez...

carrega o peso de provar que merece ser amada.

Mesmo quando sabe que merece.

Mesmo quando já reconstruiu tudo.

(***)

O dia seguinte chegou como qualquer outro.

Miguel acordou reclamando de sono, mas bastou prometer pão de queijo na volta que ele levantou rapidinho.

Arrumei a lancheira dele, ajeitei o cabelo, dei um beijo demorado em sua testa e o deixei na porta da escola.

Ele acenou, sorrindo.

E eu retribuí, sentindo aquele velho aperto no peito.

Fui direto pra cafeteria.

O movimento começou forte logo cedo.

Turistas, executivos, estudantes.

A gente mal dava conta de repor as mesas e limpar os balcões.

Por volta das 10:30, aproveitei que o fluxo acalmou e fui terminar de limpar a cozinha. Estava com a mão cheia de detergente quando ouvi a voz da Marta:

— Lorena! Mesa quatro quer um café forte, sem açúcar. Capricha.

— Pode deixar! — respondi, lavando as mãos e secando com pressa.

Peguei a xícara.

Preenchi com o café mais encorpado da máquina.

Sem açúcar. Quente. Amargo.

Perfeito pro dia merda que eu ainda sentia no corpo desde a noite anterior.

Fui caminhando até a mesa quatro.

O cliente estava de costas, de boné escuro, ombros largos, sentado de maneira preguiçosa e dominante ao mesmo tempo.

Nada fora do comum — a cafeteria vivia cheia de homem tentando parecer maior do que era.

Apoiei a xícara na mesa com cuidado.

— Aqui está. Café forte, sem açúcar. Deseja mais alguma coisa?

E então...

Ele levantou o rosto.

E o mundo parou.

Os olhos negros.

A barba malfeita.

A boca pecadora.

O olhar afiado que me despiu sem encostar.

O cheiro.

O maldito cheiro.

Ele.

RAFAEL.

— Você. — ele disse, com a voz grave e baixa como um trovão preso no peito.

E eu...

Gelei.

Inteira.

Até a alma.

As mãos tremendo.

O coração disparando.

As pernas querendo correr.

— O... oi?

Meu corpo dizia "foge".

Minha mente gritava "NÃO, NÃO, NÃO".

Mas o olhar dele...

Era de quem lembrava.

Cada toque.

Cada gemido.

Cada gota.

Ele sorriu de canto. Lento. Perigoso.

— Não esperava te encontrar aqui.

E eu soube...

O inferno voltou.

Com cheiro de café quente e batom vermelho no passado.

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