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Capítulo 7:Sem Nome, Sem Aviso, e a Porra da Realidade Batendo

Rafael Ventura

Acordei com a cabeça latejando e o lençol embolado nas pernas.

Olhei pro lado.

Nada.

Ninguém.

A cama fria.

Passei a mão pelo travesseiro.

Ainda tinha o cheiro dela.

Mistura de perfume doce, suor e safadeza.

Mas ela já tinha ido embora.

Sem dizer o nome.

Sem um bilhete.

Sem nem deixar um rastro.

Me sentei na cama, passei a mão no rosto e respirei fundo.

O corpo doía.

Mas era aquela dor boa. Aquela que só vem depois de uma foda fora da curva.

E aquela mulher...

Porra.

Aquilo não foi sexo.

Foi exorcismo.

Peguei o telefone do quarto e disquei zero.

— Recepção, bom dia!

— Bom dia. A mulher que estava comigo, sabe que horas ela saiu?

— Ah... sim, senhor Ventura. Ela saiu por volta das cinco da manhã. Sozinha. Não quis chamar táxi. Disse que ia caminhar um pouco.

— Tá. Obrigado.

Desliguei.

Caminhar?

A essa hora?

Sozinha?

Taquei o telefone de volta no gancho e fui pro banheiro.

Entrei debaixo da água quente, esfregando o corpo com força, como se pudesse tirar da pele as marcas que ela deixou com a boca.

Mas não saía.

Nem o cheiro.

Nem o gosto.

Nem a porra da vontade.

Cada vez que fechava os olhos, via aquele batom vermelho borrado.

A boca dela engolindo cada centímetro meu.

Os gemidos.

O jeito que ela rebolava em cima de mim, como se me conhecesse há anos.

E o pior?

A ausência.

Ela me deixou ali.

Feito um idiota.

Querendo mais.

Sai do banho, enxugando o cabelo com raiva.

Ainda pelado, escutei o celular vibrar em cima da mesinha.

Melissa.

Suspirei. Atendi.

Arrependi no mesmo segundo.

— Até que enfim! Onde você se enfiou ontem? Saiu do jantar sem dar tchau, me deixou lá como uma idiota!

— Não tava com saco.

— E o que foi mais importante do que um jantar com investidores?

— Uma garrafa de uísque e o silêncio.

— Você tá me tirando?

— Melissa, não começa.

— Onde você tá?

— ...

— Rafael?! Onde. Você. Tá.

— Dormindo.

— Sozinho?

— ...

— Você vai voltar pro mato, é isso?

— Tô indo agora.

Ela bufou do outro lado da linha.

— Um dia você vai perceber que tá perdendo tudo por essa vida de bicho do mato.

— Talvez. Mas pelo menos no mato ninguém enche o meu saco logo de manhã.

Desliguei.

Joguei o celular na cama, vesti a calça jeans, amarrei as botas, e encarei meu reflexo no espelho.

— Rafael Ventura...

Tu tá fodido, irmão.

Porque eu sabia.

Aquela mulher.

A desconhecida.

Do batom vermelho.

Do olhar de guerra.

Do corpo faminto...

Ela tinha mexido em alguma coisa que eu escondia há anos.

E agora, mesmo voltando pro mato...

Eu sabia que a porra da cidade tinha deixado uma marca.

E ela tinha nome.

Eu só ainda não sabia qual.

(***)

Voltar pra fazenda era como voltar pra realidade.

Só que a realidade... estava de saco cheio de mim.

Botei os pés no chão de terra, as botas afundando na lama molhada da chuva da noite passada.

Tirei a camisa, amarrei na cintura e fui direto pro curral.

Trator enguiçado.

Bezerro doente.

Pasto encharcado.

E funcionário que só trabalha quando grito.

A rotina era a mesma.

O suor escorria.

A raiva batia.

Mas minha cabeça...

estava presa naquela porra de quarto de hotel.

Cada vez que eu fechava os olhos, via ela de joelhos.

A boca quente.

A língua maldita.

A gemida baixa.

Caralho, Rafael. Foco.

Às 11h, meu estômago começou a reclamar.

Fui pra sede da fazenda, lavei as mãos na pia do tanque, joguei água no rosto.

A comida já tava na mesa.

Arroz, feijão, carne de panela, salada de alface com tomate.

A mesa grande de madeira. A cadeira de sempre.

E ela... minha mãe... sentada de frente, com aquele olhar de quem já vinha armada, e pronta para relembra um passado de merda que fiz de tudo para enterrar bem fundo.

— Bom dia, filho.

— Bom — murmurei, servindo o prato.

— Dormiu onde essa noite?

— No inferno.

— Ah, que ótimo. Lindo lugar pra homem comprometido.

Revirei os olhos, enfiei uma garfada goela abaixo.

— Mãe, por favor...

— Por favor o quê? Você acha que Melissa vai ficar te esperando pra sempre? Já vão fazer cinco anos, Rafael. CINCO. Isso não é namoro, é castigo. Rafael, a Melissa é linda, jovem, de uma família renomada... O que você quer mais?

— E quem disse que ela tá esperando? Se ela esta comigo não é obrigada, é porque quer.

— Rafael!

— Mãe, olha só — empurrei o prato — eu não vou casar com a Melissa. Nunca.

— E por que não?

— Porque eu não quero.

— Porque a Viviam te traiu, né?

Porque você acha que toda mulher vai te destruir como ela.

Soltei os talheres com força. O barulho ecoou na cozinha.

— Não fala dela.

— Eu falo sim!

Porque você tá se trancando nesse lugar, se escondendo atrás de gado, cerca e carrapato, fingindo que isso aqui é o suficiente!

Você tem 35 anos, Rafael!

E eu quero netos!

— Então vai continuar querendo — rosnei, levantando da mesa. — Porque eu não vou repetir o inferno que vivi. Eu não confio em mulher.

Principalmente na Melissa. Aquilo lá só tá comigo porque gosta do meu sobrenome.

— Então por que ainda tá com ela?

— Pra não ter que lidar com isso aqui — gritei, abrindo os braços. — Essa pressão, essa cobrança, esse julgamento!

Minha mãe ficou em silêncio.

— Eu só quero te ver feliz, Rafael...

— Então para de me forçar a viver um casamento que eu não acredito mais.

Saí da cozinha com o sangue fervendo.

Bati a porta com tanta força que os cachorros da varanda levantaram assustados.

Me sentei na cadeira de balanço, encostei a cabeça e respirei fundo.

Mas foi inútil.

Ela voltou.

Na minha cabeça.

A mulher da noite passada.

A desconhecida.

Do olhar debochado.

Da mão atrevida.

Da boca assassina.

Lambi os lábios sem perceber.

Meu corpo reagiu na hora.

Filho da puta... ainda ficou duro só de lembrar.

E o pior?

Eu nem sei o nome dela.

— Porra... — murmurei, passando a mão no rosto. — Isso é loucura.

Eu não sou de me apegar.

Eu nunca fui.

Depois da Viviam, virei gelo.

Mas essa mulher...

Essa maldita desconhecida...

Fez meu inferno parecer lugar de descanso.

E eu?

Eu tava querendo mais.

E isso era perigoso pra caralho.

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