– QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO
ANA
Eu aprendi cedo que o silêncio também pode ser um tipo de proteção.
Nos últimos dias, tinha falado menos. Observado mais. Respirado fundo antes de responder.
Não por fraqueza.
Por sobrevivência.
A casa já não era um lugar neutro.
Daiane circulava pelos cômodos como quem mede território. Com passos leves. Sorrisos ensaiados. E olhos atentos demais.
William… estava dividido.
E eu sentia isso no jeito como ele me olhava. Como se tentasse entender algo que ainda não tinha nome.
Naquela tarde, encontrei Daiane na cozinha.
Sozinhas.
Ela fechou a porta devagar.
— Você parece cansada, Ana — comentou, com voz suave demais. — Deve ser difícil viver de favor.
Não respondi.
Continuei organizando as compras.
— Engraçado… — continuou. — Sempre achei curioso como você se encaixou rápido aqui.
Como se estivesse esperando essa oportunidade.
Virei-me devagar.
— O que você quer dizer com isso?
Ela se aproximou.
Perto demais.
— Quero dizer que você não é família — diss