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Capítulo 3 - ALGUÉM SABIA QUE ELA VOLTARIA

Helena releu a mensagem tantas vezes que as palavras começaram a perder o sentido.

“Você não deveria ter assinado aquele divórcio.”

O quarto do hotel pareceu subitamente pequeno demais. Ela se levantou e verificou a porta. Estava trancada. Aproximou-se da janela, afastou discretamente a cortina e observou a rua lá embaixo. Carros passavam normalmente, pessoas caminhavam pelas calçadas e nenhuma movimentação parecia suspeita. Ainda assim, Helena sentia que estava sendo observada.

A mensagem não poderia ser coincidência.

Na primeira vida, ninguém tentara impedir que ela assinasse o divórcio naquele dia porque, simplesmente, ela não havia assinado. Helena passara semanas lutando contra Adrian, acreditando que ainda poderia salvar o casamento. Desta vez, havia mudado o passado. E poucas horas depois alguém reagira àquela mudança.

Com os dedos tensos, digitou uma resposta.

“Quem é você?”

Esperou.

Um minuto.

Dois.

Cinco.

Nenhuma resposta.

Helena tentou ligar para o número, mas uma gravação informou que a chamada não poderia ser completada. Tentou novamente. Nada.

Sentou-se na beirada da cama e levou a mão à barriga. A partir daquele momento, não podia pensar apenas em si mesma. Havia uma criança dependendo de cada decisão que tomasse.

Se alguém realmente estivesse acompanhando seus passos, precisava descobrir quem.

Mas não naquela noite.

Helena apagou as luzes, deixando apenas o abajur aceso. Depois fotografou a mensagem e salvou a imagem em dois lugares diferentes. Na primeira vida, costumava ignorar sinais que não compreendia. Desta vez, guardaria tudo.

Antes de se deitar, olhou novamente para o exame de gravidez.

— Ninguém vai machucar você — sussurrou. — Eu prometo.

Dormiu pouco.

Quando conseguiu fechar os olhos, sonhou com o acidente.

Na manhã seguinte, Helena despertou assustada, com a respiração acelerada. Durante alguns segundos não soube onde estava. Procurou instintivamente Adrian ao lado da cama, como fizera durante anos, até perceber que estava sozinha.

Então lembrou.

O divórcio.

A gravidez.

A mensagem.

Helena pegou o celular.

Nenhuma nova ameaça.

Levantou-se e foi até o banheiro. Quando viu o próprio reflexo, percebeu como estava diferente da mulher que morrera. Era mais jovem, mas seus olhos carregavam lembranças que aquela versão de seu rosto jamais deveria conhecer.

— Você ganhou outra chance — disse para si mesma. — Não desperdice.

Tomou banho, prendeu os cabelos e vestiu uma roupa simples. Precisava voltar à mansão Montenegro para buscar suas coisas. Não queria adiar aquilo.

Antes de sair, porém, fez uma ligação.

— Banco Imperial, bom dia.

Helena respirou fundo.

— Gostaria de verificar meus investimentos e solicitar uma reunião com um gerente.

O dinheiro que possuía não era suficiente para transformá-la em uma mulher rica da noite para o dia, mas era um começo. Na primeira vida, ela gastara boa parte de seus recursos tentando acompanhar o padrão social dos Montenegro. Roupas, eventos, presentes, viagens. Tudo para caber em um mundo que nunca a aceitara completamente.

Agora cada centavo teria um propósito.

A mansão Montenegro parecia ainda maior quando Helena chegou.

Os enormes portões se abriram e o carro avançou pelo jardim impecável. Durante três anos, ela chamara aquele lugar de casa. Naquela manhã, parecia apenas uma construção bonita onde havia deixado algumas roupas.

A governanta apareceu na entrada.

— Senhora Helena!

O alívio no rosto de Marta foi imediato.

— Graças a Deus. O senhor Adrian disse que a senhora viria, mas eu pensei...

A mulher interrompeu a frase.

Helena conhecia Marta havia anos. Na primeira vida, ela fora uma das poucas pessoas naquela casa que demonstrara carinho verdadeiro.

— Está tudo bem, Marta.

— A senhora vai mesmo embora?

Helena olhou para o interior da mansão.

— Vou.

Marta abaixou os olhos.

— Sinto muito.

— Não sinta.

A resposta fez a governanta encará-la.

Helena sorriu levemente.

— Algumas coisas precisam terminar para outras começarem.

Subiu as escadas.

Seu antigo quarto permanecia exatamente como deixara. Abriu o closet e ficou alguns segundos observando vestidos, bolsas e sapatos. Tantas coisas compradas para impressionar pessoas que mal se importavam com ela.

Pegou duas malas.

Levaria apenas o necessário.

Enquanto separava roupas, ouviu passos no corredor.

— Então é verdade.

Helena reconheceu a voz antes mesmo de virar.

Isabella estava encostada à porta.

Usava óculos escuros sobre a cabeça e um vestido claro perfeitamente ajustado ao corpo. Continuava tão bonita quanto Helena lembrava.

Na primeira vida, apenas a presença daquela mulher era suficiente para fazê-la se sentir inferior.

Agora Helena apenas continuou dobrando uma blusa.

— O que é verdade?

— Você está indo embora.

— Parece bastante óbvio.

Isabella entrou no quarto.

— Confesso que estou surpresa.

Helena não respondeu.

— Você lutou tanto por esse casamento.

— Pessoas mudam.

— De uma noite para outra?

Helena parou.

Olhou para Isabella.

Havia algo naquele olhar que a incomodava.

— Às vezes uma noite é suficiente.

Isabella cruzou os braços.

— Adrian me contou que você assinou sem exigir praticamente nada.

— Adrian anda falando muito sobre mim para alguém que acabou de se divorciar.

O sorriso de Isabella diminuiu.

— Não tenha esperança. Ele não está arrependido.

— Espero sinceramente que não esteja.

A resposta pareceu desconcertá-la.

Helena fechou a primeira mala.

— Afinal, foi para ficar com você que ele quis se livrar de mim, não foi?

— Adrian e eu sempre tivemos uma história.

— Eu sei.

— Então talvez finalmente tenha entendido que nunca houve espaço para você entre nós.

Na primeira vida, aquela frase teria destruído Helena.

Desta vez, ela apenas sorriu.

— Talvez.

Isabella franziu a testa.

Helena aproximou-se.

— Mas sabe o que é curioso?

— O quê?

— Eu passei anos achando que você tinha vencido alguma competição.

Isabella permaneceu em silêncio.

— Hoje percebi que não existia competição nenhuma. Você pode ficar com ele.

Helena passou por Isabella e pegou outra mala.

— Completamente.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Então Isabella perguntou:

— E você?

Helena virou-se.

— Eu o quê?

— O que pretende fazer agora?

A pergunta pareceu casual.

Mas Helena sentiu alguma coisa diferente.

Curiosidade demais.

— Viver.

— Onde?

Helena estreitou os olhos.

— Por que quer saber?

Isabella sorriu.

— Curiosidade.

— Então continue curiosa.

---

Adrian chegou à mansão pouco antes do meio-dia.

Quando entrou, encontrou duas malas próximas à porta.

Parou.

— De quem são?

Marta hesitou.

— Da senhora Helena.

Adrian tirou o paletó.

— Ela está aqui?

— No andar de cima.

Ele subiu sem responder.

Encontrou Helena fechando a última mala.

Isabella não estava mais no quarto.

— Você realmente está levando tudo?

Helena ergueu os olhos.

— Não tudo. Só o que é meu.

Adrian observou o closet.

Metade das roupas continuava ali.

— Essas coisas também são suas.

— Pode doar.

— Há vestidos que custaram uma fortuna.

— Então venda.

Ele franziu a testa.

— Você está tentando provar alguma coisa?

Helena fechou a mala.

— Adrian, você tem uma capacidade impressionante de acreditar que tudo é sobre você.

Ele ficou em silêncio.

Helena puxou a mala.

Adrian segurou a alça.

— Espere.

Ela olhou para a mão dele.

— Solte.

— Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre essa mudança repentina.

Helena soltou uma pequena risada.

— Você pediu o divórcio e agora está incomodado porque eu aceitei?

— Não estou incomodado.

— Ótimo.

Ela tentou puxar a mala, mas Adrian continuou segurando.

— Onde você está ficando?

Helena sentiu um alerta interno.

Primeiro a mensagem.

Depois Isabella perguntando onde ela moraria.

Agora Adrian.

— Por quê?

— Porque ainda sou responsável por você até o divórcio ser concluído.

— Não é.

— Helena...

— Eu sei cuidar de mim.

Ele a encarou.

— Desde quando?

A pergunta foi cruel.

Talvez Adrian nem percebesse.

Na primeira vida, Helena teria chorado.

Agora aproximou o rosto do dele.

— Desde que descobri que ninguém mais faria isso por mim.

Adrian soltou lentamente a mala.

Por um instante, algo mudou em sua expressão.

Helena não esperou.

Saiu.

Quando chegou ao térreo, Marta a abraçou.

— Cuide-se.

Helena sentiu os olhos marejarem.

— Você também.

Antes de atravessar a porta, porém, ouviu Marta chamar:

— Senhora Helena...

Ela virou.

A governanta parecia nervosa.

— Ontem aconteceu uma coisa estranha.

Helena sentiu o coração acelerar.

— O quê?

Marta olhou discretamente para as escadas.

— Um homem veio até o portão.

— Quem?

— Não disse o nome. Perguntou se a senhora já tinha assinado os documentos.

O sangue de Helena gelou.

— Que documentos?

— Foi exatamente o que perguntei. Ele não respondeu. Quando o segurança se aproximou, foi embora.

Helena apertou a alça da bolsa.

— Como ele era?

— Alto. Terno escuro. Não consegui ver direito o rosto.

— Adrian sabe?

— Não.

Helena respirou fundo.

— Não conte ainda.

Marta pareceu confusa.

— Mas...

— Por favor.

A governanta assentiu.

Helena saiu da mansão tentando controlar o medo.

Aquilo já não era coincidência.

Alguém sabia do divórcio antes mesmo de sua decisão se tornar pública.

E alguém não queria que ela tivesse assinado.

Dentro do carro, Helena abriu novamente a mensagem.

“Você não deveria ter assinado aquele divórcio.”

Desta vez, reparou em algo que não percebera na noite anterior.

Havia uma segunda notificação.

Uma imagem.

O arquivo demorou alguns segundos para carregar.

Quando apareceu, Helena deixou o celular quase cair.

Era uma fotografia dela saindo do escritório de Adrian no dia anterior.

A foto havia sido tirada do outro lado da rua.

Alguém estava seguindo seus passos.

Abaixo da imagem havia uma nova mensagem.

“Na primeira vez, você não foi embora.”

Helena parou de respirar.

Leu novamente.

Na primeira vez.

Não “antes”.

Não “ontem”.

Na primeira vez.

Suas mãos começaram a tremer.

Apenas uma pessoa deveria saber que aquela vida já havia acontecido.

Ela.

Helena olhou pela janela do carro, procurando desesperadamente algum rosto conhecido entre as pessoas.

Então o celular vibrou novamente.

Uma última mensagem apareceu:

“Você não foi a única que voltou.”

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