Mundo ficciónIniciar sesiónHelena acordou antes do despertador. Por alguns segundos, ficou deitada observando o teto do novo apartamento que alugara na noite anterior, tentando organizar mentalmente tudo o que acontecera desde que abrira os olhos naquela segunda vida. Em menos de quarenta e oito horas, havia assinado o divórcio, descoberto que estava novamente grávida, recebido mensagens de alguém que conhecia detalhes impossíveis sobre sua primeira vida e descoberto que talvez sua morte não tivesse sido um simples acidente. Era informação demais para qualquer pessoa, mas Helena não podia se permitir desmoronar. Agora havia uma criança dependendo dela, e isso tornava cada decisão muito maior do que seus próprios medos.
Levantou-se, tomou banho e abriu as cortinas. O apartamento era pequeno, mobiliado e ficava em um edifício discreto numa região movimentada da cidade. Helena pagara três meses antecipadamente e fizera questão de não utilizar qualquer funcionário ou conhecido ligado aos Montenegro para conseguir o imóvel. Ainda não sabia quem a estava observando e, até descobrir, não confiaria em ninguém. Sobre a pequena mesa da sala estavam o resultado positivo do exame, o par de sapatinhos brancos que comprara no dia anterior e um caderno repleto de anotações sobre acontecimentos que ainda não tinham ocorrido.
Helena sentou-se e abriu o caderno na página onde escrevera em letras grandes:
NEXORA TECNOLOGIA.
Na primeira vida, ouvira Adrian comentar sobre aquela empresa durante um jantar. Ele considerara o negócio pequeno demais e recusara a oportunidade de investir. Dois anos depois, a Nexora desenvolveu uma tecnologia que chamou atenção internacional. No terceiro ano, parte da companhia foi adquirida por um conglomerado estrangeiro e seus primeiros investidores multiplicaram o patrimônio de maneira impressionante. Helena não lembrava dos valores exatos, mas lembrava perfeitamente do arrependimento de Adrian.
Desta vez, ela chegaria primeiro.
Não possuía milhões para investir, mas tinha algumas economias pessoais e joias adquiridas antes do casamento. Poderia vender parte delas. Era arriscado, porém Helena conhecia o resultado que aquela aposta tivera na primeira vida. Se conseguisse uma pequena participação agora, poderia construir a primeira base de sua independência financeira.
O celular vibrou.
Por reflexo, Helena ficou tensa.
Não era o número desconhecido.
Era uma mensagem do banco confirmando sua reunião para aquela tarde.
Ela respirou aliviada.
Nenhuma mensagem havia chegado do estranho desde o dia anterior. Helena não sabia se aquilo a tranquilizava ou assustava ainda mais.
Antes de sair, colocou os sapatinhos dentro de uma gaveta e pousou a mão sobre a barriga.
— Mamãe vai trabalhar pelo nosso futuro.
Sorriu discretamente ao perceber a naturalidade com que pronunciara a palavra “mamãe”.
Na primeira vida, não tivera tempo de vivê-la.
Nesta, teria.
A sede da Nexora era muito diferente do que Helena imaginava para uma empresa que, em poucos anos, valeria uma fortuna. Funcionava em dois andares de um prédio comercial relativamente antigo. A recepção era pequena, havia caixas próximas a uma parede e alguns funcionários atravessavam o corredor carregando computadores e documentos. Nada naquele lugar indicava que ali estava nascendo uma das empresas mais promissoras dos anos seguintes.
Helena aproximou-se da recepcionista.
— Bom dia. Meu nome é Helena... — Ela hesitou antes de completar. — Helena Duarte. Tenho interesse em conversar sobre investimento na empresa.
Duarte era seu sobrenome de solteira.
Dizer aquilo provocou uma sensação inesperadamente boa.
— A senhora tem horário marcado?
— Não diretamente com a diretoria. Enviei uma solicitação ontem.
A recepcionista consultou o computador.
— Um momento, por favor.
Helena se sentou. Enquanto aguardava, observou tudo ao redor. Na primeira vida, naquele mesmo horário, provavelmente estaria na mansão Montenegro chorando pelo divórcio. Talvez estivesse telefonando para Adrian. Talvez tentando descobrir onde ele estava com Isabella.
Agora estava ali.
Pensando em negócios.
Pensando no próprio futuro.
A diferença quase a fez sorrir.
— Senhora Duarte?
Helena ergueu os olhos.
— Sim?
— O senhor Augusto Nogueira poderá recebê-la em aproximadamente vinte minutos.
— Obrigada.
Ela voltou a olhar o celular.
Nenhuma mensagem.
Então ouviu uma movimentação diferente na entrada.
Dois homens de terno entraram primeiro. Logo atrás deles surgiu um terceiro.
Helena não sabia quem era, mas percebeu imediatamente que não se tratava de um visitante comum. Alto, cabelos escuros, postura tranquila e um terno perfeitamente ajustado, ele caminhava sem pressa, mas todos ao redor pareciam mudar de comportamento quando o viam. Um funcionário que passava pelo corredor parou imediatamente para cumprimentá-lo.
— Senhor Valença, bom dia.
Helena ergueu os olhos.
Valença.
O sobrenome despertou uma lembrança.
Ela já ouvira Adrian mencionar aquela família.
Os Valença possuíam empresas nos setores de tecnologia, construção, hotelaria e investimentos. Adrian raramente elogiava concorrentes, mas certa vez dissera durante um jantar que existia apenas um homem no mercado que ele jamais subestimaria.
Dante Valença.
Helena olhou novamente para o desconhecido.
Então era ele.
Na primeira vida, lembrava-se de tê-lo visto algumas vezes em revistas de negócios e eventos sociais, mas nunca haviam conversado. Dante era conhecido por evitar entrevistas e por manter a vida pessoal longe da imprensa. Alguns o consideravam arrogante. Outros diziam que ele simplesmente não desperdiçava palavras.
Helena desviou os olhos.
Não tinha qualquer motivo para se envolver com aquele homem.
Ainda.
Dante a viu no instante em que entrou.
Por mais que tivesse se preparado, encontrá-la viva provocou algo que nenhuma fotografia conseguira provocar.
Helena estava sentada a poucos metros dele.
Viva.
Respirando.
Com uma pasta sobre o colo.
Na última vez em que Dante a vira na primeira vida, havia sangue em seu vestido.
Ele fechou a mão discretamente.
Não podia demonstrar nada.
Para Helena, eles eram desconhecidos.
Precisava continuar assim.
— Senhor Valença? — chamou um dos diretores da Nexora. — Estamos esperando na sala de reuniões.
Dante assentiu.
Quando passou perto de Helena, sentiu o perfume dela.
O mesmo.
Por um segundo, uma imagem atravessou sua mente.
Chuva.
Faróis.
Metal retorcido.
Helena desacordada.
E sua própria mão ensanguentada tentando abrir a porta do carro.
Dante continuou caminhando.
Não olhou para trás.
— Senhora Duarte, podemos recebê-la agora.
Helena entrou na sala e encontrou Augusto Nogueira, um dos fundadores da Nexora. Ele aparentava pouco mais de trinta anos e parecia cansado.
— Disseram que a senhora deseja investir.
— Sim.
— Como conheceu nossa empresa?
Helena havia preparado aquela resposta.
— Tenho acompanhado pequenas empresas de tecnologia com potencial de crescimento.
Augusto sorriu discretamente.
— Então provavelmente percebeu que ainda somos muito pequenos.
— Empresas grandes também começaram pequenas.
Ele a observou com maior interesse.
Helena abriu a pasta.
— Não tenho interesse em controlar a empresa. Quero participar do crescimento.
— Estamos buscando investidores maiores.
— Imagino.
— Posso perguntar qual valor pretende investir?
Helena informou a quantia.
Augusto não conseguiu esconder uma pequena decepção.
— Entendo.
— É pouco para o que vocês precisam.
— Para ser sincero, sim.
Helena não se intimidou.
— Mas talvez seja suficiente para uma participação pequena agora.
Augusto cruzou os braços.
— A senhora realmente acredita tanto assim na Nexora?
Helena sorriu.
— Mais do que você imagina.
Antes que ele respondesse, alguém bateu à porta.
Um funcionário entrou.
— Desculpe interromper. Senhor Augusto, o senhor Valença pediu os documentos da proposta.
Augusto se levantou.
— Já vou.
Helena fechou a pasta.
— Parece que encontrei concorrência.
Augusto riu.
— Se Dante Valença está interessado, provavelmente estamos fazendo alguma coisa certa.
Helena ficou pensativa.
Dante Valença também estava interessado na Nexora?
Aquilo não fazia parte de suas lembranças.
Na primeira vida, ela se recordava de que um grupo de pequenos investidores havia financiado a empresa inicialmente. Não lembrava do nome Valença associado à Nexora naquele período.
Talvez sua memória estivesse incompleta.
Ou talvez...
Helena sentiu um desconforto.
Talvez o futuro já estivesse mudando.
Quando saiu da sala, Helena encontrou Dante parado próximo aos elevadores.
Ele estava sozinho.
Por um instante, os dois se olharam.
Dante foi o primeiro a desviar os olhos.
Helena apertou a pasta contra o corpo e caminhou até o elevador.
As portas se abriram.
Ela entrou.
Dante entrou logo depois.
Sozinhos.
Helena apertou o botão do térreo.
O elevador começou a descer.
O silêncio era estranho.
Dante mantinha os olhos voltados para frente.
Helena tentou ignorá-lo, mas havia algo naquele homem que a deixava inquieta. Não sabia explicar. Era como se já tivesse estado perto dele em algum lugar.
— Nexora é um investimento arriscado — disse Dante inesperadamente.
Helena virou o rosto.
— Está falando comigo?
— Não há mais ninguém aqui.
Ela quase revirou os olhos.
— E desde quando o senhor Valença oferece conselhos financeiros gratuitamente?
Dante finalmente olhou para ela.
Por um segundo, quase sorriu.
Era exatamente aquele tipo de resposta que imaginara que Helena daria se tivesse tido oportunidade de conhecê-la antes.
— Então sabe quem eu sou.
— Seu sobrenome não é exatamente desconhecido.
— E o seu também não.
Helena ficou rígida.
Dante percebeu.
— Helena Montenegro — continuou.
— Duarte.
Ele ergueu discretamente uma sobrancelha.
— Perdão?
— Meu nome é Helena Duarte.
— O divórcio ainda não foi concluído.
Helena sentiu um alerta imediato.
— Como sabe do meu divórcio?
Dante percebeu o erro.
Tinha falado demais.
— O mercado fala.
— Meu divórcio aconteceu ontem.
— O mercado fala rápido.
Helena o encarou.
As portas do elevador se abriram no térreo, mas nenhum dos dois saiu imediatamente.
— Nós já nos conhecemos? — perguntou Helena.
Dante sustentou seu olhar.
A pergunta atingiu um ponto perigoso.
— Não.
— Tem certeza?
— Eu me lembraria.
Helena não soube explicar por que aquela resposta pareceu carregar um significado diferente.
Saiu do elevador.
Dante permaneceu dentro.
Antes que as portas se fechassem, disse:
— Senhora Duarte.
Helena virou.
— Sim?
— Se pretende investir na Nexora, não espere muito.
Ela estreitou os olhos.
— Isso foi um conselho?
— Considere como quiser.
As portas se fecharam.
Helena permaneceu parada no saguão.
Alguma coisa naquele encontro não estava certa.
Dante entrou no carro e soltou o ar que vinha prendendo.
Seu assessor, Rafael, estava no banco da frente.
— Como foi a reunião?
— Suspenda nossa proposta para a Nexora.
Rafael virou-se imediatamente.
— Suspenda? Estávamos negociando uma participação significativa.
— Eu sei.
— Posso perguntar por quê?
Dante olhou pela janela.
Helena acabava de sair do prédio.
— Porque alguém precisa daquela oportunidade mais do que nós.
Rafael acompanhou seu olhar e percebeu a mulher.
— Quem é ela?
Dante demorou alguns segundos para responder.
— Helena Duarte.
— A esposa de Adrian Montenegro?
— Ex-esposa.
— O divórcio nem foi anunciado.
Dante permaneceu em silêncio.
Rafael o conhecia havia muitos anos e percebeu imediatamente que havia algo estranho.
— O senhor conhece essa mulher?
— Não nesta vida.
Rafael franziu a testa.
— Como?
Dante ignorou a pergunta.
— Quero que descubra quanto a Nexora precisa para fechar a rodada atual.
— E depois?
— Garanta que aceitem o investimento dela.
— Sem que ela saiba?
— Principalmente sem que ela saiba.
Rafael assentiu, ainda confuso.
Dante olhou novamente para Helena.
Ela estava prestes a atravessar a rua.
Então seu telefone vibrou.
Uma mensagem de um número que ele conhecia muito bem.
Dante abriu.
“Ela procurou a Nexora, exatamente como você disse.”
Ele respondeu:
“Não chegue perto dela.”
A resposta apareceu quase imediatamente.
“Você não manda mais em mim.”
Dante ficou imóvel.
Outra mensagem chegou.
“Você acha que voltou para salvá-la. Eu voltei para terminar o que comecei.”
O rosto de Dante endureceu.
Ele digitou:
“Se tocar nela, eu encontro você.”
Três pontos apareceram na tela.
Depois veio a resposta:
“Na primeira vida você tentou. Os dois morreram.”
Dante fechou os olhos por um instante.
Então uma última mensagem surgiu:
“Desta vez serão três.”
Ele abriu os olhos.
Três.
Dante olhou imediatamente para Helena do outro lado da rua.
A palavra só poderia significar uma coisa.
O desconhecido não estava ameaçando apenas Helena e Dante.
Ele sabia que Helena estava grávida.







