Mundo ficciónIniciar sesión“Você não foi a única que voltou.”
Helena continuou olhando para a tela do celular, incapaz de afastar os olhos daquela frase. O barulho da cidade parecia ter desaparecido. Não ouvia os carros passando ao lado, não prestava atenção no motorista nem nas pessoas atravessando as ruas. Tudo o que existia naquele momento eram aquelas seis palavras.
Até então, por mais impossível que sua situação parecesse, Helena começara a aceitar que havia recebido uma segunda oportunidade. Morrera grávida e, por alguma razão que não compreendia, despertara três anos antes, justamente no dia em que Adrian lhe entregara os documentos do divórcio. Era absurdo, mas estava acontecendo. O exame confirmara que seu filho estava novamente dentro dela. A data no celular confirmara que o tempo havia voltado. Seu próprio corpo confirmava aquilo. O que Helena jamais imaginara era que outra pessoa pudesse ter vivido a mesma coisa.
Ela ampliou a fotografia recebida. A imagem mostrava exatamente o momento em que saíra do prédio onde assinara o divórcio. O ângulo indicava que alguém estava do outro lado da rua. Helena examinou cada detalhe procurando um reflexo, uma sombra, qualquer coisa que revelasse quem havia tirado aquela foto, mas não encontrou nada.
Digitou rapidamente:
“Quem é você?”
A mensagem foi visualizada.
Dessa vez, Helena teve certeza.
Alguém estava do outro lado.
Esperou alguns segundos.
Nada.
— Senhora, está se sentindo bem? — perguntou o motorista, olhando para ela pelo retrovisor.
Helena percebeu que estava pálida e apertava o telefone com força.
— Estou. Pode continuar.
Ela tornou a olhar para a tela. Seus pensamentos corriam em todas as direções. Se aquela pessoa realmente havia voltado no tempo, quem poderia ser? Adrian? Isabella? Alguém envolvido em sua morte? E, principalmente, por que essa pessoa estava acompanhando seus passos?
Outra mensagem apareceu.
“Se quer continuar viva, pare de repetir os erros da primeira vida.”
O coração de Helena acelerou.
Ela respondeu imediatamente:
“Você sabe como eu morri?”
Dessa vez, a resposta veio quase no mesmo instante.
“Sei mais sobre sua morte do que você.”
Helena sentiu um arrepio percorrer os braços.
— Pare o carro.
— Senhora?
— Encoste, por favor.
O motorista estacionou próximo a uma cafeteria. Helena abriu a porta, saiu e respirou profundamente. Precisava pensar. Não queria chegar ao hotel enquanto estivesse sendo seguida. Se aquela pessoa tinha conseguido fotografá-la, poderia conhecer também o lugar onde estava hospedada.
Helena entrou na cafeteria e escolheu uma mesa no fundo, de onde conseguia observar a entrada. Pediu apenas água e manteve o celular sobre a mesa.
“Então me diga quem me matou.”
A mensagem foi visualizada.
Nenhuma resposta.
Helena esperou.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Quando estava prestes a escrever novamente, o telefone vibrou.
“Ainda não.”
Helena sentiu a raiva substituir parte do medo.
“Você diz que quer me manter viva e se recusa a dizer quem tentou me matar?”
A resposta demorou alguns segundos.
“Porque, se eu disser agora, você vai atrás dessa pessoa. Foi exatamente isso que fez você morrer.”
Helena congelou.
A frase despertou alguma coisa em sua memória. Uma sensação. Uma imagem incompleta. Naquela última noite, antes do acidente, ela realmente estava indo encontrar alguém. Durante todos aqueles anos, lembrara apenas do impacto, do sangue e do medo de perder o bebê. Mas agora uma parte esquecida daquela noite começava a surgir.
Um endereço.
Uma mensagem.
Alguém havia pedido que ela fosse até determinado lugar porque possuía provas sobre Adrian e Isabella.
Helena fechou os olhos, tentando forçar a lembrança.
Chovia.
Ela estava dirigindo.
O telefone tocara.
Depois...
Nada.
A memória desaparecia exatamente antes do acidente.
— Meu Deus...
Helena abriu os olhos.
Talvez tivesse passado três anos acreditando numa versão incompleta da própria morte.
O telefone vibrou outra vez.
“Não confie em ninguém da família Montenegro.”
Helena digitou:
“Nem em Adrian?”
Dessa vez, a pessoa demorou mais para responder.
“Principalmente nele.”
Helena sentiu o peito apertar.
Não porque ainda amasse Adrian como antes, mas porque aquelas palavras mudavam tudo. Na primeira vida, apesar da frieza e do desprezo dele, Helena jamais acreditara que Adrian fosse capaz de desejar sua morte. Poderia não amá-la. Poderia querer o divórcio. Poderia preferir Isabella. Mas assassiná-la?
Não.
Recusava-se a acreditar sem provas.
“Mostre seu rosto.”
Nenhuma resposta.
“Se realmente voltou como eu, prove.”
O silêncio continuou.
Helena pegou a bolsa e se levantou. Estava cansada daquele jogo. Se a pessoa quisesse ajudá-la, deveria aparecer. Se quisesse ameaçá-la, ela descobriria quem era.
Quando estava prestes a guardar o telefone, uma nova mensagem chegou.
“Você descobriu que estava grávida depois do divórcio. Comprou um par de sapatinhos brancos e guardou dentro de uma caixa no fundo do armário porque queria entregá-los a Adrian quando contasse sobre o bebê.”
Helena parou.
Seu corpo inteiro gelou.
Ninguém sabia daquilo.
Ninguém.
Na primeira vida, ela realmente comprara os sapatinhos. Ficara quase uma hora dentro da loja escolhendo o primeiro presente do filho. Pretendia colocar o exame junto deles e entregar a caixa a Adrian durante o jantar.
Nunca teve coragem.
Depois que percebeu que o casamento não tinha mais salvação, guardou a caixa no fundo do armário. Quando morreu, os sapatinhos ainda estavam lá.
Helena sentou-se novamente.
“Como você sabe disso?”
A resposta veio:
“Porque eu vi a caixa depois que você morreu.”
Helena levou a mão à boca.
Quem teria entrado em seu quarto depois de sua morte?
Adrian certamente poderia.
Marta também.
Funcionários da casa.
Isabella talvez.
Mas a pessoa que escrevia afirmava ter voltado.
Helena digitou outra pergunta.
“Quem é você?”
Desta vez, apareceu uma resposta diferente.
“Alguém que chegou tarde demais na primeira vez.”
No escritório da Montenegro Holdings, Adrian não conseguia se concentrar.
Um relatório financeiro estava aberto diante dele havia quase vinte minutos, mas ele continuava relendo o mesmo parágrafo. Irritado, fechou a pasta e se levantou.
Não gostava daquela sensação.
Helena estava conseguindo ocupar seus pensamentos justamente agora que finalmente havia saído de sua vida.
Durante anos, ela fizera de tudo para chamar sua atenção. Mandava mensagens, aparecia no escritório, preparava jantares que ele raramente comparecia e inventava motivos para acompanhá-lo a eventos. Adrian sempre considerara aquele comportamento sufocante.
Agora ela simplesmente havia parado.
E ele deveria estar satisfeito.
— Posso entrar?
Adrian ergueu os olhos.
Isabella estava à porta.
— Já entrou.
Ela sorriu e caminhou até a mesa.
— Você continua mal-humorado.
— Estou trabalhando.
— Trabalhando ou pensando na sua ex-esposa?
Adrian lançou-lhe um olhar frio.
— Helena não é assunto seu.
Isabella arqueou uma sobrancelha.
— Interessante. Ontem eu podia falar dela. Hoje não posso mais?
— Não comece.
Isabella se aproximou.
— Adrian, você passou anos querendo terminar aquele casamento. Agora conseguiu. Não entendo por que está agindo como se tivesse perdido alguma coisa.
Ele também não entendia.
Talvez fosse apenas orgulho.
Helena sempre estivera disponível. Saber que ela havia ido embora sem olhar para trás criara uma sensação incômoda, mas aquilo passaria.
— Não perdi nada.
Isabella sorriu.
— Então venha jantar comigo hoje.
Adrian hesitou.
Naquele exato momento, seu telefone tocou.
Marta.
Ele atendeu.
— O que aconteceu?
— Senhor Adrian... desculpe incomodar.
A voz da governanta parecia nervosa.
— Fale.
— A senhora Helena deixou algumas coisas no quarto. Gostaria de saber o que devo fazer.
Adrian olhou pela janela.
— Não mexa em nada.
— Certo.
— Marta.
— Sim?
— Helena disse onde está hospedada?
Houve uma pequena pausa.
— Não, senhor.
Adrian franziu a testa.
— Se ela entrar em contato, me avise.
Desligou.
Quando se virou, percebeu que Isabella o observava.
— Achei que não tivesse perdido nada — disse ela.
Adrian não respondeu.
Helena saiu da cafeteria somente depois de verificar várias vezes se alguém parecia segui-la. Em vez de retornar diretamente ao hotel, entrou em um shopping, caminhou por diferentes corredores e saiu por outra entrada. Talvez estivesse exagerando, mas havia aprendido da pior maneira possível que ignorar sinais podia custar sua vida.
No caminho, tomou uma decisão.
Não ficaria mais naquele hotel.
Precisava de um lugar seguro, preferencialmente um apartamento que não tivesse qualquer ligação com os Montenegro. E precisava acelerar seus planos financeiros. Se realmente havia outra pessoa com conhecimento do futuro, Helena já não possuía a vantagem que imaginava ter.
Ao passar diante de uma loja infantil, porém, seus passos diminuíram.
Na vitrine havia pequenas roupas, brinquedos e sapatinhos.
Helena ficou imóvel.
A mensagem voltou à sua mente.
“Você comprou um par de sapatinhos brancos...”
Entrou na loja quase sem perceber.
Uma atendente se aproximou.
— Posso ajudá-la?
Helena olhou para uma pequena caixa sobre uma prateleira.
Dentro havia um par de sapatinhos brancos.
Quase iguais aos que comprara na primeira vida.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Quanto custa?
Poucos minutos depois, saiu da loja segurando uma pequena sacola.
Desta vez, aqueles sapatinhos não seriam usados para anunciar sua gravidez a Adrian.
Eram apenas dela.
E de seu filho.
Do outro lado da avenida, dentro de um carro preto estacionado, um homem observava Helena sair do shopping.
Usava terno escuro, mas a gravata estava solta. No banco ao lado havia um notebook aberto, documentos e um telefone diferente daquele que usava normalmente.
Seus olhos acompanharam Helena até ela entrar em um carro.
Quando a viu segurando a pequena sacola da loja infantil, fechou os olhos por alguns segundos.
Aquela imagem despertava lembranças que ele gostaria de esquecer.
Um hospital.
Um corpo coberto por um lençol.
Adrian Montenegro destruído.
E uma pequena caixa branca encontrada entre os pertences de Helena.
O homem abriu os olhos.
Na primeira vida, soubera da existência dela tarde demais.
Quando descobrira a verdade, Helena já estava morta.
E a criança também.
Seu telefone vibrou.
Uma mensagem apareceu na tela.
“Senhor Valença, a reunião da Nexora foi confirmada para amanhã às dez.”
Ele olhou para o nome da empresa.
Nexora.
Então voltou a observar o carro de Helena desaparecer entre o trânsito.
Um sorriso discreto surgiu em seu rosto.
— Então você também se lembrou da Nexora.
Na primeira vida, aquela empresa havia transformado centenas de milhões em bilhões.
Na segunda, Helena acabara de colocar seus olhos sobre ela.
O homem guardou o celular.
Seu nome era Dante Valença.
Aos trinta e dois anos, era herdeiro de uma das famílias empresariais mais poderosas do país e um dos poucos homens que Adrian Montenegro considerava um verdadeiro adversário.
Mas Helena ainda não sabia disso.
Na primeira vida, os dois praticamente não tiveram oportunidade de se conhecer.
Dante só descobrira quem ela realmente era depois de sua morte.
E carregara aquela descoberta até o próprio fim.
Agora o destino havia colocado os dois novamente na mesma linha do tempo.
Só que desta vez Dante estava três anos adiantado.
Ele sabia quem Helena era.
Sabia que ela estava grávida.
Sabia que Adrian era o pai.
E sabia muito mais sobre o acidente que matou Helena do que estava disposto a revelar naquele momento.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Senhor Valença, devemos segui-la?
Dante permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Não.
— E a reunião da Nexora?
Dante olhou novamente para o notebook.
— Mantenha.
— Há mais alguma orientação?
Ele fechou a tela.
— Sim. Descubra se Helena Montenegro solicitou uma reunião com eles.
— E se tiver solicitado?
Dante olhou para a rua por onde ela desaparecera.
Na primeira vida, Helena nunca chegara perto daquele negócio.
Agora estava mudando o futuro.
Isso significava que cada escolha feita por ela poderia alterar também acontecimentos que Dante acreditava conhecer.
— Não interfira.
O motorista pareceu surpreso.
— Senhor?
— Quero descobrir o que ela pretende fazer.
Dante recostou-se no banco.
Durante três anos de uma vida que agora não existia mais, ele conhecera a história de uma mulher que morrera acreditando que ninguém havia tentado salvá-la.
Desta vez seria diferente.
Mas havia algo que Helena ainda não sabia.
Dante não havia voltado apenas para impedir sua morte.
Ele havia voltado porque, na primeira vida, também morreu naquela mesma noite.







