Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena só percebeu que estava tremendo quando o carro dobrou a esquina e o imponente edifício da família Montenegro desapareceu de sua vista. Por alguns segundos, permaneceu olhando pela janela, tentando compreender tudo o que acabara de acontecer. Estava viva. Tinha voltado três anos no tempo, havia assinado o divórcio que na primeira vida se recusara desesperadamente a aceitar e, pela primeira vez desde que conhecera Adrian, não sentia vontade de correr atrás dele. A palavra liberdade surgiu em sua mente, estranha e quase assustadora. Durante anos, ela imaginara que sua felicidade dependia de ouvir Adrian dizer que a amava. Criara justificativas para as ausências dele, transformara indiferença em esperança e aceitara migalhas porque acreditava que algum dia conseguiria conquistar seu coração. Agora, tudo aquilo parecia pertencer a outra mulher. Talvez realmente pertencesse. À Helena que havia morrido.
— Senhora, para onde vamos? — perguntou o motorista.
Helena abriu a boca, mas demorou a responder. Na primeira vida, depois daquela reunião, ela voltara para a mansão Montenegro. Passara a noite chorando, recusara-se a arrumar as malas e lutara contra o divórcio durante semanas. Humilhara-se tentando salvar um casamento que existia apenas para ela. Desta vez, não pisaria naquela casa para implorar por nada. Havia, porém, algo muito mais urgente. Helena levou discretamente a mão à barriga. Na primeira vida, só descobrira a gravidez algumas semanas depois daquele dia. Lembrava-se perfeitamente dos enjoos, do atraso menstrual, do primeiro teste e da felicidade quase infantil ao imaginar que um bebê poderia finalmente aproximá-la do marido. Agora sabia que seu filho já estava ali.
— Hospital Santa Augusta — respondeu.
O motorista confirmou o destino e seguiu. Helena apoiou a cabeça no banco e fechou os olhos. Imagens de sua morte voltaram sem permissão: o sangue em suas roupas, as vozes desesperadas, a dor e sua mão protegendo inutilmente a barriga. Seu bebê morrera com ela sem que Adrian sequer soubesse de sua existência. Helena respirou fundo e acariciou o ventre ainda plano.
— Desta vez vai ser diferente — murmurou.
Quando chegou ao hospital, o cheiro de álcool e desinfetante quase a fez recuar. Por um instante, teve a impressão de estar novamente entre a vida e a morte. As luzes brancas do corredor se confundiram com aquelas que vira em seus últimos momentos. Helena apertou a bolsa contra o corpo e respirou lentamente até conseguir controlar o medo.
— Senhora, está tudo bem? — perguntou uma enfermeira que passava.
— Está. Obrigada.
Não estava. Mas ficaria.
Na recepção, pediu uma consulta e explicou que queria confirmar uma possível gravidez. Enquanto preenchia a ficha, seus olhos pararam no campo destinado ao estado civil. A palavra casada parecia absurda. Helena hesitou por alguns segundos, riscou-a e escreveu ao lado: divorciada. O processo ainda não estava formalmente concluído, mas, para ela, aquele casamento terminara no instante em que sua caneta tocara o acordo de divórcio.
Quase duas horas depois, estava diante de uma médica. Respondeu às perguntas sobre seu ciclo menstrual e ouviu atentamente enquanto a profissional fazia alguns cálculos.
— Existe possibilidade de gravidez, sim. Vou solicitar um beta-hCG. Se o resultado for positivo, posteriormente podemos fazer a ultrassonografia no período adequado.
— Quero fazer hoje.
A médica percebeu sua ansiedade e suavizou a expressão.
— É uma gravidez desejada?
Helena ficou alguns segundos em silêncio. Aquela pergunta doeu de uma maneira inesperada. Seu casamento não era desejado naquela segunda vida. Adrian já não era desejado. Mas aquela criança... aquela criança era a razão pela qual Helena começava a acreditar que talvez o destino tivesse lhe concedido uma segunda oportunidade.
— É — respondeu, com os olhos marejados. — Muito desejada.
O resultado saiu no final da tarde. Helena permaneceu sentada durante alguns segundos olhando para a palavra que já esperava encontrar.
POSITIVO.
As lágrimas caíram antes que pudesse contê-las. Ela levou uma das mãos à boca e a outra à barriga, rindo baixinho enquanto chorava. Algumas pessoas na sala de espera olharam em sua direção, mas Helena não se importou. Na primeira vida, segurara aquele mesmo ventre enquanto morria, desesperada porque não conseguia proteger a criança. Agora seu filho estava novamente dentro dela.
— Você voltou comigo... — sussurrou. — Eu prometo que desta vez vou proteger você.
Por alguns segundos, pensou em Adrian. Imaginou-se pegando o telefone e dizendo que estava grávida. Conhecia a antiga Helena suficientemente bem para saber o que teria feito: correria para ele, mostraria o exame e esperaria que a notícia de um filho fosse capaz de salvar o casamento. Talvez Adrian suspendesse o divórcio. Talvez permitisse que ela continuasse na mansão. Talvez até tentasse ser um marido diferente por obrigação.
Helena fechou os olhos e respirou fundo.
Não.
Seu filho não seria utilizado para prender um homem que não queria ficar. E ela não passaria sua segunda vida esperando que Adrian Montenegro aprendesse a amá-la. Dobrou cuidadosamente o resultado do exame e o colocou dentro da bolsa. Pelo menos por enquanto, Adrian não saberia que seria pai.
Ao deixar o hospital, Helena percebeu que precisava resolver problemas muito concretos. Precisava de um lugar para morar, dinheiro e uma forma de reconstruir sua vida. Possuía recursos em uma conta pessoal, mas grande parte do padrão de vida que tivera durante os últimos anos vinha da família Montenegro. Na primeira vida, recusara parte da compensação oferecida no divórcio porque queria provar que nunca estivera interessada no dinheiro de Adrian. Agora não precisava provar nada a ninguém.
E possuía uma vantagem que nenhum dinheiro poderia comprar.
Helena conhecia o futuro.
Não lembrava de cada número ou acontecimento, mas sabia de negócios importantes que surgiriam nos três anos seguintes. Conhecia empresas que quebrariam, regiões que seriam valorizadas e investimentos que transformariam desconhecidos em milionários. Uma lembrança, principalmente, fez seu coração acelerar: uma pequena empresa de tecnologia chamada Nexora. Naquele momento, quase ninguém falava nela. Dois anos depois, seus produtos começariam a ganhar mercado e, no terceiro ano, uma multinacional compraria parte da companhia por uma fortuna.
Helena sorriu pela primeira vez desde que saíra do hospital. Talvez aquela segunda vida não tivesse sido concedida apenas para que fugisse de Adrian. Talvez fosse sua oportunidade de construir algo que nunca tivera: independência.
O celular vibrou dentro da bolsa. Helena olhou para a tela e viu o nome de Adrian. Na primeira vida, teria atendido antes mesmo do segundo toque. Desta vez, observou o aparelho tocar até parar. Alguns segundos depois, ele ligou novamente.
Ela atendeu.
— O que foi?
Do outro lado da linha houve alguns segundos de silêncio.
— Onde você está? — perguntou Adrian.
— Isso não é mais problema seu.
— Ainda somos legalmente casados.
— Você deveria ter pensado nisso antes de colocar um acordo de divórcio na minha frente.
— Helena.
Ela reconheceu imediatamente aquele tom autoritário. Durante anos, bastava Adrian falar daquela maneira para que ela recuasse. Agora não sentia medo.
— Suas coisas continuam na mansão — disse ele.
— Vou buscá-las.
— Quando?
— Amanhã.
— Você realmente vai embora?
Helena franziu a testa. Aquela pergunta não fazia sentido. Não era exatamente aquilo que ele desejava?
— Foi você quem pediu o divórcio, Adrian.
— Eu sei.
— Então deveria estar comemorando.
— Não coloque palavras na minha boca.
Helena respirou fundo. Não queria desperdiçar mais um minuto daquela nova vida discutindo com ele.
— Precisa de mais alguma coisa?
Adrian demorou alguns segundos para responder.
— Isabella voltou.
O nome provocou uma reação involuntária. Não era exatamente ciúme, mas a memória de uma dor que Helena conhecia profundamente. Isabella Vasconcelos era a mulher que Adrian amara antes de seu casamento e a sombra que permanecera entre eles durante anos. Elegante, bonita e pertencente ao mesmo mundo da família Montenegro, Isabella sempre fora tudo aquilo que Helena acreditava não conseguir ser.
Só que agora Helena sabia algo que ninguém imaginava.
O retorno de Isabella coincidia com o início de uma sequência de acontecimentos que, três anos depois, terminaria com sua morte.
— Que bom — respondeu Helena.
— Que bom? — Adrian repetiu, claramente surpreso.
— Você queria ficar livre. Isabella voltou. Parece que conseguiu exatamente o que queria.
— Você está estranha.
Helena soltou uma pequena risada.
— Talvez eu tenha finalmente ficado normal.
E desligou.
No escritório da família Montenegro, Adrian permaneceu alguns segundos encarando o telefone. Helena havia desligado na cara dele. Aquilo nunca acontecera. Ela sempre ligava primeiro, sempre queria saber onde ele estava, sempre tentava prolongar qualquer conversa. Sua indiferença naquela manhã já o incomodara, mas agora havia alguma coisa diferente. Alguma coisa que ele não conseguia identificar.
— Algum problema?
A voz feminina fez Adrian erguer os olhos. Isabella estava parada à porta, usando um elegante vestido vermelho e o mesmo sorriso que ele conhecia havia anos.
— Nenhum.
Ela entrou lentamente.
— Era Helena?
Adrian colocou o celular sobre a mesa.
— Sim.
— Ela ficou muito abalada com o divórcio?
Ele não respondeu imediatamente.
— Ela assinou.
O sorriso de Isabella desapareceu por uma fração de segundo.
— O quê?
— Assinou tudo.
— Sem fazer escândalo?
— Sem nada.
Isabella recuperou o sorriso.
— Melhor assim. Agora finalmente podemos seguir nossas vidas.
Adrian deveria concordar. Afinal, durante muito tempo acreditara que aquela era exatamente a solução que desejava. Entretanto, enquanto Isabella falava, seus olhos voltaram para o telefone sobre a mesa.
Helena havia ido embora.
E, pela primeira vez, Adrian Montenegro parecia incomodado porque ela não havia tentado ficar.
Naquela noite, Helena encontrou um pequeno hotel no centro. Não havia empregados, corredores de mármore ou qualquer luxo parecido com a mansão Montenegro, mas, quando fechou a porta do quarto, experimentou uma tranquilidade que não sentia havia anos. Colocou a bolsa sobre a cama, retirou o exame e observou novamente o resultado positivo.
— Somos nós dois agora.
Depois abriu o notebook e digitou no mecanismo de busca:
Nexora Tecnologia.
Poucos resultados apareceram.
Exatamente como lembrava.
Helena pegou um caderno e começou a escrever tudo o que conseguia recordar dos três anos seguintes. Empresas. Investimentos. Datas aproximadas. Pessoas. Escândalos. Negócios. Precisava registrar aquelas informações enquanto as memórias permaneciam claras. Se fosse cuidadosa, poderia transformar o conhecimento do futuro em uma nova vida para ela e seu filho.
Então escreveu outro nome.
Isabella Vasconcelos.
A caneta parou sobre o papel.
Na primeira vida, Isabella retornara naquele mesmo período. Poucos meses depois começaram acontecimentos que Helena, na época, jamais relacionara entre si: telefonemas anônimos, documentos desaparecidos, ameaças e pequenos acidentes que todos classificavam como coincidências. Helena estava ocupada demais tentando recuperar Adrian para enxergar o que acontecia ao seu redor.
Agora havia uma lembrança que não conseguia ignorar.
No dia de sua morte, poucos minutos antes do acidente, recebera uma mensagem de um número desconhecido.
“Você deveria ter ido embora quando teve oportunidade.”
Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo.
Nunca descobrira quem enviara aquela mensagem.
Talvez sua morte não tivesse sido um acidente.
Talvez alguém realmente quisesse vê-la morta.
O celular vibrou sobre a cama.
Helena virou o rosto.
Número desconhecido.
Seu coração disparou.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel. Aquilo não poderia estar acontecendo. Na primeira vida, as mensagens ameaçadoras só haviam começado muito tempo depois.
Com as mãos frias, pegou o aparelho e abriu a mensagem.
Havia apenas uma frase:
“Você não deveria ter assinado aquele divórcio.”
Helena perdeu a cor.
Ninguém sabia onde ela estava.
Ninguém deveria saber o que estava fazendo.
E havia algo ainda mais assustador.
Na primeira vida, aquela mensagem nunca havia sido enviada.







