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CAPÍTULO 6 — O SEGREDO QUE DANTE NÃO PODIA REVELAR

Helena não conseguiu esquecer o modo como Dante Valença a olhara antes de as portas do elevador se fecharem. Havia alguma coisa naquele homem que a incomodava profundamente, mas não era medo. Era uma sensação pior: familiaridade. Como se ela já tivesse visto aqueles olhos em algum lugar, em algum momento que sua memória se recusava a alcançar. Durante o trajeto de volta para casa, tentou racionalizar. Dante era conhecido no mundo empresarial. Talvez o tivesse visto em eventos, revistas ou reuniões na primeira vida. Talvez seu cérebro estivesse apenas misturando lembranças. Ainda assim, uma pergunta continuava martelando: como ele sabia do divórcio poucas horas depois de acontecer?

Ao chegar ao apartamento, Helena colocou a pasta da Nexora sobre a mesa e foi direto para a cozinha. Não sentia fome, mas precisava comer alguma coisa. O médico ainda não havia lhe passado recomendações específicas porque a gravidez estava no início, porém ela sabia que não podia repetir os descuidos da primeira vida. Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e tentou preparar uma torrada. O cheiro da manteiga aquecendo foi suficiente para embrulhar seu estômago.

Helena largou tudo e correu para o banheiro.

Apoiou as duas mãos na pia, respirando com dificuldade depois do enjoo. Quando levantou o rosto, encontrou uma mulher pálida refletida no espelho. Por um segundo, sorriu. Era desagradável, mas aquele mal-estar tinha outro significado.

Seu filho estava ali.

Vivo.

Helena colocou a mão sobre a barriga.

— Pode me dar todos os enjoos do mundo — murmurou. — Eu não vou reclamar.

O celular tocou na sala.

Ela limpou o rosto e voltou lentamente.

Não era Adrian.

Não era o número desconhecido.

Era Augusto Nogueira, da Nexora.

Helena atendeu imediatamente.

— Senhor Augusto?

— Senhora Duarte, espero não está incomodando.

— Não está.

— Conversei com os outros sócios depois da nossa reunião.

O coração dela acelerou.

— E?

— Sua proposta é menor do que a rodada que estamos buscando, mas decidimos abrir uma participação limitada para investidores menores. Se ainda estiver interessada, podemos conversar amanhã sobre os termos.

Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

Tinha conseguido.

Na primeira vida, aquela oportunidade jamais aparecera diante dela. Agora, pela primeira vez, estava utilizando o conhecimento que trouxe do futuro para construir algo próprio.

— Estou interessada.

— Ótimo. Minha secretária enviará os documentos preliminares ainda hoje.

— Obrigada.

Antes que desligassem, Helena perguntou:

— Posso saber se o senhor Valença fechou participação com vocês?

Houve uma pequena pausa.

— Não.

— Ele desistiu?

— A proposta dele foi suspensa esta manhã.

Helena franziu a testa.

Aquilo era estranho.

Dante Valença havia demonstrado interesse suficiente para comparecer pessoalmente à empresa. Por que retiraria uma proposta justamente no mesmo dia em que ela tentava entrar?

— Entendi. Obrigada.

Desligou.

Helena ficou olhando para a tela.

Talvez fosse coincidência.

Mas coincidências estavam se tornando frequentes demais naquela segunda vida.

Do outro lado da cidade, Dante permanecia sentado diante de uma enorme janela de vidro, observando os prédios do centro financeiro. Sobre a mesa estavam os documentos da Nexora, mas sua atenção não estava neles. O celular repousava ao lado de sua mão, exibindo a última ameaça recebida.

“Desta vez serão três.”

Ele sabia exatamente o que significava.

Helena.

Ele.

E a criança.

O problema era que Dante não sabia quem estava por trás das mensagens.

Na primeira vida, passara meses tentando descobrir quem organizara a sequência de acontecimentos que terminara naquela estrada. Reuniu nomes, ligações, movimentações financeiras e ameaças. Chegou perto demais da verdade.

E morreu antes de conseguir revelá-la.

Agora tive outra chance.

Mas o inimigo também.

— Senhor Valença?

Rafael entrou no escritório.

Dante bloqueou a tela.

— Fale.

— A Nexora aceitou negociar uma participação com Helena Duarte.

— Quanto?

Rafael informou.

Dante assentiu.

— Garanta que o acordo seja concluído.

— Sem aparecer nosso nome?

— Sem aparecer nosso nome.

Rafael permaneceu parado.

— Posso fazer uma pergunta?

— Você sempre faz.

— Por que está fazendo isso?

Dante o encarou.

— Fazendo o quê?

— Abrindo mão de um investimento que sabemos que vai valer muito e entregando a oportunidade para uma mulher que, até ontem, o senhor dizia não conhecer.

Dante recostou-se na cadeira.

Rafael era uma das poucas pessoas em quem confiava. Na primeira vida, também havia sido.

Mesmo assim, não podia contar tudo.

Não ainda.

— Porque eu posso ganhar dinheiro de outras maneiras.

— E ela não?

Dante desviou o olhar para a janela.

— Ela vai precisar.

Rafael ficou em silêncio.

Então colocou um envelope sobre a mesa.

— Pediu que verificássemos Adrian Montenegro.

Dante abriu.

— E?

— Nada fora do normal até agora. Mas ele mandou um funcionário descobrir onde Helena está morando.

A expressão de Dante mudou.

— Quando?

— Hoje cedo.

— Encontraram?

— Ainda não.

Dante fechou o envelope.

Na primeira vida, Adrian só começara a procurar Helena seriamente quando já era tarde demais. Nesta, estava agindo muito antes.

Outra mudança.

Outra peça saindo do lugar.

— Continue acompanhando.

— E se Montenegro se aproximar dela?

Dante respondeu sem hesitar:

— Quero saber antes.

Adrian estava irritado havia horas e não conseguia explicar por quê.

O contrato de divórcio estava assinado. Isabella voltara. Helena não fez escândalo. Tudo havia acontecido exatamente como deveria.

Então por que seu dia parecia pior?

Ele estava no meio de uma reunião quando seu assistente entregou discretamente um bilhete. Adrian leu e ergueu os olhos.

Helena esteve na Nexora Tecnologia.

A reunião continuou, mas ele deixou de ouvir.

Nexora?

Helena nunca demonstrou qualquer interesse real por investimentos. Durante o casamento, ela evitava conversas sobre negócios porque acreditava que aquilo não fazia parte de sua vida. De repente, menos de dois dias depois do divórcio, estava procurando uma empresa de tecnologia.

Quando a reunião terminou, chamou o assistente.

— Quem estava com ela?

— Ninguém.

— Ela se reuniu com quem?

— Augusto Nogueira.

— Mais alguém esteve lá?

O funcionário hesitou.

— Dante Valença.

Adrian ergueu lentamente o olhar.

— Dante?

— Sim.

Uma sensação desagradável surgiu em seu peito.

Não era ciúme.

Adrian se recusava a chamar aquilo de ciúme.

Era desconfiança.

— Eles se encontraram?

— Não conseguimos confirmar.

Adrian caminhou até a janela.

Dante Valença não se aproximava de ninguém sem motivo.

— Descubra.

— Senhor?

— Quero saber se Helena e Dante já se conheciam antes de ontem.

O assistente assentiu.

Adrian voltou para a mesa, mas sua atenção permaneceu longe.

Helena havia pedido o divórcio sem lutar.

Desaparecera.

Começara a investir.

E agora Dante Valença estava perto dela.

Nada daquilo combinava com a mulher que ele conhecia.

Ou talvez Adrian nunca tenha realmente conhecido a própria esposa.

No início da tarde, Helena decidiu sair para comprar algumas coisas para o apartamento. Precisava de roupas confortáveis, alimentos e, principalmente, queria procurar uma clínica onde pudesse iniciar o acompanhamento da gravidez sem qualquer vínculo com a família Montenegro.

Entrou em uma pequena farmácia perto de uma avenida movimentada e ficou alguns minutos escolhendo vitaminas, até perceber que o enjoo voltava. O ambiente parecia quente demais. Sua visão escureceu por alguns segundos.

Helena segurou a prateleira.

— Senhora, está tudo bem? — perguntou uma funcionária.

— Só preciso...

Ela não conseguiu terminar.

Deu dois passos em direção à saída procurando ar, mas as pernas ficaram fracas.

Uma mão segurou seu braço antes que caísse.

— Helena.

Ela conhecia aquela voz.

Ergueu os olhos.

Dante.

— Você?

Ele a conduziu até uma cadeira próxima.

— Sente-se.

— Estou bem.

— Você quase desmaiou.

— Eu disse que estou bem.

Dante a observou por alguns segundos.

Então seu olhar desceu.

Diretamente para a barriga dela.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Mas Helena viu.

Seu corpo ficou rígido.

Dante percebeu o erro tarde demais.

— Água — pediu à funcionária.

Helena não tirou os olhos dele.

— Por que olhou para minha barriga?

Dante permaneceu em silêncio.

— O quê?

— Você ouviu.

A funcionária trouxe a água.

Dante entregou o copo.

— Beba primeiro.

— Não mude de assunto.

Helena tomou apenas um pequeno gole.

— Você sabe alguma coisa sobre mim.

— Todo mundo sabe alguma coisa sobre os Montenegro.

— Eu não sou mais uma Montenegro.

— Ainda não legalmente.

A mesma resposta.

Helena estreitou os olhos.

— Você sabe do divórcio. Sabe onde estive. Aparece exatamente quando eu passo mal e olha para minha barriga como se...

Ela parou.

O coração bateu mais forte.

Dante não respondeu.

Helena levantou-se lentamente.

— Como você sabia?

— Sabia o quê?

— Que estou grávida.

Por um instante, a expressão de Dante mudou.

Foi mínimo.

Mas suficiente.

Helena perdeu a cor.

— Meu Deus.

— Helena...

— Você sabia.

— Não disse isso.

— Nem precisava.

Ela pegou a bolsa.

— Quem contou?

— Ninguém.

— Só eu tenho o resultado.

Dante passou a mão pela nuca.

Precisava pensar rápido.

Na primeira vida, ela só descobriria que ele sabia da gravidez muito depois.

Agora cometera um erro estúpido.

— Foi um palpite.

Helena riu, sem humor.

— Você olha exatamente para minha barriga no momento em que quase desmaio e chama isso de palpite?

— Enjoo. Tontura. Você estava comprando vitaminas.

Helena olhou para a prateleira.

As vitaminas que segurava não eram específicas para gestantes.

— Está mentindo.

Dante ficou em silêncio.

— Quem é você? — perguntou ela.

— Você sabe quem eu sou.

— Não estou perguntando seu nome.

A frase atingiu Dante com força.

Helena se aproximou.

— Eu estou perguntando por que tenho a sensação de que você sabe coisas sobre mim que nunca contei a ninguém.

Dante sustentou o olhar dela.

Por alguns segundos, pensou em contar tudo.

Que já a vira morrer.

Que segurara sua mão naquela noite.

Que descobrira a gravidez depois.

Que também acordara três anos antes.

Mas não podia.

Se revelasse tudo agora, Helena faria perguntas para as quais ele ainda não tinha respostas.

— Você está assustada — disse.

— Não responda por mim.

— E está grávida. Precisa evitar estresse.

Helena ficou imóvel.

Dante percebeu que acabara de confirmar.

— Então você realmente sabia.

Ele fechou os olhos por um instante.

Erro atrás de erro.

— Helena...

— Não chegue perto de mim.

Ela se afastou.

— Escute.

— Eu já escutei demais.

Dante segurou delicadamente seu braço.

Helena puxou-o imediatamente.

— Não toque em mim.

Ele soltou.

— Existe alguém atrás de você.

Helena congelou.

— O quê?

— Alguém sabe sobre sua gravidez.

Seu rosto perdeu a cor.

— Como você sabe?

— Porque também entrou em contato comigo.

Helena sentiu o coração disparar.

— O número desconhecido?

Dante não respondeu.

Aquilo bastou.

— Foi você quem me mandou aquelas primeiras mensagens?

Outra pausa.

— Algumas.

Helena recuou.

— Então era você.

— Eu estava tentando avisá-la.

— Avisar de quê?

— De que mudar o passado tem consequências.

A respiração dela ficou presa.

Dante percebeu imediatamente que tinha ido longe demais.

Helena aproximou-se devagar.

— Mudar o passado?

Ele não respondeu.

— Como você sabe que eu mudei o passado?

Silêncio.

Helena já sabia.

Os olhos dela se arregalaram.

— Foi você.

Dante permaneceu imóvel.

— Você também voltou.

---

O telefone de Dante vibrou.

Ele ignorou.

Helena continuava diante dele, esperando uma resposta.

Vibrou novamente.

Depois de uma terceira vez.

Dante finalmente olhou.

Número desconhecido.

Abriu a mensagem.

“Boa reunião.”

Abaixo havia uma fotografia.

Ele e Helena dentro da farmácia.

Alguém estava observando.

Dante imediatamente procurou pelas vitrines.

Nada.

Então chegou outra mensagem.

“Você pode protegê-la de mim.”

Dante continuou lendo.

“Mas não pode protegê-la daquele que dormiu ao lado dela durante três anos.”

Seu rosto endureceu.

Helena percebeu.

— O que foi?

Dante não respondeu.

Uma última mensagem apareceu:

“Pergunte a Adrian Montenegro o que ele realmente sabe sobre a noite em que vocês morreram.”

Dante ficou imóvel.

Helena tentou olhar para o celular.

— Dante.

Ele bloqueou a tela.

Pela primeira vez desde que retornara, sentiu algo que quase havia esquecido.

Medo.

Porque na primeira vida ele investigou Isabella, funcionários, rivais empresariais e dezenas de pessoas próximas à família Montenegro.

Mas nunca considerara seriamente uma possibilidade.

Adrian.

Dante olhou para Helena.

Se a mensagem estivesse dizendo a verdade, então o homem que ela passara três anos amando talvez soubesse muito mais sobre sua morte do que qualquer um deles imaginava.

E, pela primeira vez, Dante compreendeu que talvez tivesse voltado com a memória incompleta.

Porque existia uma parte daquela noite que nem ele conseguia recordar.

A parte entre encontrar Helena na estrada...

e morrer ao lado dela.

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