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Capítulo 3 – O Alfa de Coração de Ferro

Ayres

Eu sabia o que estava fazendo quando disse aquelas palavras. Não foram um tropeço, nem um impulso. Foram escolhidas como quem coloca tijolos num muro, um por um, até ninguém mais ver o que ficou do lado de dentro. O problema é que, quando o salão esvaziou e as vozes se calaram, o que sobrou atrás do muro fui eu.

A noite parecia mais pesada do que o normal. O vento trazia o cheiro da terra fria e, por baixo, um perfume que eu reconheceria em qualquer lugar… rosas com toque de chuva. Samantha. Mesmo quando eu tentava afastar a lembrança, o meu corpo não obedecia. O peito doía sem esforço, como se cada batida pedisse desculpas por mim.

— “Covarde.”

A palavra não veio de fora. Veio de dentro, grave, antiga, com dentes. Fenrir não rosnou, ele enunciou como sentença.

— Você não entende. — respondi em pensamento, cruzando a aldeia em direção à casa grande — Não é sobre o que eu quero.

— “É sobre o que você teme.” — A resposta dele veio seca.

Fenrir sempre viveu no extremo do meu instinto. Nas batalhas, ele me ergue. Nas noites vazias, ele cala. Mas, naquela hora, recusou o silêncio.

— “Ela é nossa.” — ele disse, sem cerimônia — “A alma dela encostou na nossa. Você ouviu como eu ouvi.”

— Eu ouvi. — admiti, fechando a porta da sala com mais força do que pretendia. A madeira estremeceu, e eu também — E por isso mesmo eu disse não.

Atravessei o corredor até o escritório. Sobre a mesa, mapas, relatórios, listas de patrulha. Coisas que eu entendia. Coisas que eu sabia controlar. Sentei, apoiei as mãos nas têmporas e esperei o raciocínio voltar, como sempre voltou.

Mas a imagem do rosto dela insistia em ocupar tudo… os olhos claros, a boca serena, os cabelos caindo em ondas suaves sobre o ombro. Não havia ostentação nela. Havia presença. Um tipo de beleza que não faz barulho, que só firma raízes e fica.

Quando ela falou comigo, pouco antes de ir embora, eu quase cedi. A voz dela não tinha pedido, tinha honestidade. E honestidade é o que mais assusta quem passou a vida inteira se protegendo de sentir.

— Eu não sou atalho para a sua cura. — repeti em voz baixa, só para experimentar a frase fora da cabeça. Doeu de novo, do mesmo jeito.

— “Você a feriu diante de todos.” — Fenrir não me poupou — “E mais, feriu a alcateia quando cortou o que a Lua costurou.”

— Eu protegi a alcateia. — retruquei, levantando. Caminhei até a janela. A Lua continuava no alto, vigiando como uma velha guardiã — Já perdi demais para essa palavra… amor.

O gosto metálico do passado subiu à boca. Eu não precisava fechar os olhos para ver, a memória vinha inteira quando queria. A noite antiga, a fumaça, o latido dos cães, o estampido, o corpo da minha mãe caindo como se o mundo tivesse tropeçado. Eu tinha doze.

O meu pai chegou tarde demais e, desde então, jurou que sentimento era ferrão. Repetiu até ficar tatuado no meu sangue:

— “O Alfa vive porque é duro. Quem amolece, sangra.” — Eu cresci ouvindo e obedeci. Sobreviver, antes de qualquer coisa.

— “Sua mãe não morreu por amar.” — Fenrir devolveu, firme — “Morreu porque lutou sozinha.”

— Eu não vou deixar ninguém sob meus cuidados lutar sozinho. — falei, sincero — Muito menos com a minha fraqueza exposta.

A porta bateu às minhas costas. O Beta entrou sem cerimônia, só o suficiente para me lembrar que o mundo existia fora das minhas lembranças.

— Alfa. — Ele me estudou rápido — Preciso da sua assinatura nas rotas de ronda. E… também ouvi coisas.

— O que ouviu, Joran? — minha voz saiu estável, graças a anos de treino.

— Que a alcateia está… inquieta — ele escolheu a palavra com cautela — Alguns dizem que a Deusa não foi honrada.

Olhei para o papel, não vi nada escrito. Tentei dar de ombros:

— Que honrem com trabalho. Patrulhas dobradas por três noites.

Joran franziu o cenho.

— E quanto a ela?

— Ela tem nome. — eu disse, antes que pudesse me conter — Samantha.

— Sim. — O Beta assentiu — E uma marca que brilhou em plena cerimônia na sua Luna. Todos viram.

Fenrir se moveu dentro de mim, como fera que fareja trilha e encontra.

— “Ele a chamou pelo jeito certo. Está aprendendo.”

— Isso é assunto meu. — encerrei — Assinarei as rotas.

Joran entendeu o limite e saiu. Sentei de novo, mas não voltei ao papel. Em vez disso, encostei a testa nos punhos, os olhos ardendo daquele jeito que eu não permito que ardam.

O meu erro não foi rejeitar. O meu erro foi acreditar que rejeitar salvaria alguém. O corpo sabia de outra coisa, desde que ela saiu do salão, uma parte de mim ficou lá, de joelhos, vendo-a ir embora sem me pedir nada.

Eu precisava lembrar do que me fez chegar até aqui. Afastei a cadeira, desci as escadas laterais e saí pela porta de serviço que dava direto na trilha dos fundos.

A floresta me recebeu com cheiro de musgo e a canção baixa dos insetos. Tinha sido aqui que aprendi a correr sem pensar, a virar aço sob o próprio comando. Tirei a camisa, alonguei a coluna e deixei a mudança tomar conta.

Os ossos estalaram. A pele latejou. A transição sempre foi meu refúgio, meu modo de dizer ao mundo que ainda mando em mim.

No fim, Fenrir ergueu a cabeça, alto e sólido, com a pelagem escura entrecortada de reflexos pálidos. Ele respirou fundo, puxando o ar como quem recebe notícia.

— “Ela chorou sem lágrimas.” — disse, num tom que não era acusação, era lamento — “E mesmo assim te olhou de pé.”

Eu sabia. Eu estava lá.

Corremos. Passamos pela margem do rio, cruzamos troncos caídos, subimos a encosta que dá vista para a aldeia. O vento nos cortou a cara e nos limpou. Ali de cima, vi telhados, trilhas, vultos que iam e vinham com suas próprias importâncias.

E, como se alguém acendesse uma tocha no meio da noite, o meu faro captou de novo o perfume de rosas e chuva, mais tênue, vindo do lado do chalé dos órfãos.

Fenrir estacou, a pata direita suspensa, o corpo inteiro atento.

— “Arwen.”

Um arrepio subiu por nós.

— Arwen? — perguntei, curioso, quase em voz alta dentro de mim.

— “A loba dela, seu idiota.” — ele rosnou.

O nome pareceu dançar no ar. Dócil sem ser fraca. Firme sem ser pedra.

A palavra Arwen deixou um rastro doce na minha mente, como mel que não gruda, só marca. Tive vontade de descer, de chegar perto. De fazer qualquer coisa que não fosse continuar fingindo que nada aconteceu.

— “Vá até ela.” — Fenrir pediu — “Não como ordem. Como uma verdade.”

— Eu não posso. — Desci a pata, voltei a trotar — Não depois do que eu disse.

— “Então diga outra coisa.”

— Ainda não.

Corremos até o fôlego queimar. Voltei para casa quando o horizonte começava a clarear, a Lua indo embora com um gesto lento, dessas despedidas que prometem retorno.

No banho, a água quente arrancou o barro do corpo, mas não arrancou a marca do que eu tinha feito.

Depois vesti a roupa de sempre, preto, simples, prático, e sentei outra vez diante dos mapas. Eu era bom quando tinha guerra para resolver. Eu era péssimo quando a batalha estava dentro.

Fenrir não insistiu. Ficou quieto, como quem espera o momento certo de lembrar que a verdade não muda só porque a gente vira o rosto.

Eu achei que o dia terminaria em tarefas, mas a vida tem talento para ironias, antes do meio-dia, um Ancião veio me chamar.

Havia um problema com uma família na borda leste, uma cerca rompida por humanos bisbilhoteiros. Nada demais, se a aldeia já não estivesse em ponto de ebulição desde a cerimônia. Fui. Resolver coisas concretas sempre me salvou do resto.

No caminho, cruzei com duas mulheres cochichando. Pararam quando me viram. Não precisei escutar para saber o tema: a rejeição.

Eu nunca me importei com a opinião de ninguém, respeito e medo sempre foram suficientes, mas, naquele dia, algo me arranhou na parte de dentro. O que me arranhou não foi o julgamento contra mim, foi imaginar que sussurravam sobre ela.

Fenrir ergueu a cabeça.

— “Estamos de acordo, então?”

— Sobre o quê?

Sobre protegê-la mesmo quando você não a quer perto.

Eu não respondi. O compromisso já estava selado sem fala. Quem conhece meu jeito sabe, eu não volto atrás na decisão tomada. Mas também sabe que eu não abandono os meus. E, mesmo que eu não admitisse em voz alta, Samantha já era “minha” em um lugar onde as ordens não chegam.

Quando terminei as inspeções, voltei para o centro da aldeia no começo da tarde, com o sol alto demais para o meu gosto. Parei na escadaria do salão sagrado, sentei no último degrau e descansei os cotovelos nos joelhos. A pedra ainda guardava o frio da madrugada.

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