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Capítulo 3 - Alma, carne e inocência

Os dias seguintes foram estranhamente tranquilos. A casa pequena de Alya, que antes vivia em silêncio, agora parecia viver diferente. Havia um par de passos a mais no chão de madeira, uma respiração pesada no sofá, uma risada tímida vinda da cozinha.

Paolo se movimentava devagar, ainda se acostumando com o próprio corpo. A cicatriz no abdômen puxava um pouco a pele quando ele se erguia mais rápido, e às vezes uma dor fina na nuca o fazia interromper qualquer gesto. Mas, apesar disso, havia nele uma disposição quase infantil.

— Posso te ajudar? — ele perguntava sempre que via Alya pegando uma vassoura, um pano, um prato.

No começo, ela até tentou recusar.

— Você já ajuda muito só ficando quieto e se recuperando. — respondia, ajeitando uma pilha de roupa ou abrindo a janela — Não precisa se esforçar demais.

Mas ele insistia. Ajudava a lavar a louça, mesmo derrubando água para todo lado. Tentava varrer, mas juntava mais poeira do que tirava. A primeira vez que decidiu cozinhar sozinho, quase colocou fogo na frigideira.

— Paolooo! — Alya correu até o fogão, desligando o gás às pressas — Você quer fritar ovo ou explodir a casa?

Ele deu uma risada envergonhada, coçando a nuca.

— Eu juro que isso fazia mais sentido na minha cabeça.

— Ainda bem que só a frigideira saiu traumatizada. — ela respondeu, rindo junto.

Aos poucos, aquilo virou rotina. Alya passava parte do dia trabalhando na farmácia da cidade, e sabia que podia deixar Paolo ali, mais calmo a cada dia, andando pela casa, tentando ajudar do seu jeito.

Quando voltava, era recebida com coisas assim:

— Eu arrumei o sofá. — ele dizia, orgulhoso, apontando para a manta mal esticada.

Ou:

— Lavei a louça. Só que… quebrei dois pratos. Mas foram só dois, juro.

Ela ria, balançando a cabeça, mas o peito se aquecia. Tinha se acostumado com a presença dele mais rápido do que gostaria de admitir. O silêncio da casa já não parecia tão pesado quanto antes.

Uma tarde, depois do trabalho, Alya chegou cansada e o encontrou sentado no chão da sala, mexendo na velha gaveta de fotos dela. Ele olhava cada uma com um cuidado quase sagrado.

— Ei! — ela disse, surpresa. — Fuçando minhas coisas sem permissão?

Paolo levou um susto e deixou cair uma das fotos, apressado.

— Desculpa! Eu… eu só… — respirou fundo. — Eu estava tentando ver se alguma foto me fazia lembrar de alguma coisa. Tipo… sei lá, se eu já te conhecia.

Ela respirou fundo, pegou a foto do chão e se sentou ao lado dele.

— Se você já me conhecesse… — falou, olhando as fotos antigas com a mãe e o pai — eu tenho certeza que eu saberia.

Ele sorriu fraco.

— É. Acho que eu ia lembrar de você.

Alya fingiu que não ouviu aquilo, mas as bochechas queimaram.

A convivência foi criando um laço que nenhum dos dois sabia nomear. Paolo era grande, forte, cheio de cicatrizes… mas, por dentro, havia nele uma doçura desconcertante.

Uma noite, Alya tropeçou em uma cadeira e quase caiu de cara no chão. Antes que percebesse, as mãos dele estavam em sua cintura, segurando-a com firmeza.

— Cuidado. — sussurrou, a voz baixa perto do ouvido dela — Você é desastrada demais pra andar sozinha.

O toque dele a fez congelar por um instante. O cheiro, o calor, a proximidade. Ela se afastou rápido demais, rindo para disfarçar o nervosismo.

— Eu só estava testando seus reflexos de herói. — brincou.

Paolo sorriu, meio sem jeito.

— Então eu passei?

— Por pouco.

Às vezes, quando achava que Alya não estava vendo, ele a observava calado. Olhava o jeito como ela prendia o cabelo, concentrada, ou como franzia o nariz quando lia algo difícil. Era como se tivesse medo de perder qualquer detalhe.

Ela percebia. Fingindo que não.

Uma noite, depois do expediente na farmácia, Alya chegou exausta. O céu estava pesado, mas não chovia. O calor era abafado. Assim que entrou em casa, percebeu que não havia luz acesa, e, quando tentou ligar o interruptor, nada aconteceu.

— Ah, ótimo. — resmungou. — Faltou energia.

Paolo apareceu na porta da cozinha, segurando duas velas acesas em potes de vidro.

— Eu já vi isso acontecendo hoje à tarde. — explicou. — Achei melhor adiantar o clima romântico.

Ela revirou os olhos, rindo.

— Não começa, Paolo.

Ele colocou uma vela sobre a mesa e outra no aparador. A casa ficou banhada em um brilho amarelado e suave, que desenhava sombras pelas paredes. Aquele pequeno lar parecia um lugar completamente diferente à luz de velas. Mais íntimo. Mais vulnerável.

Alya se sentou, soltando o ar numa longa respiração.

— Hoje foi puxado?

— Foi. — ela respondeu, apoiando os cotovelos na mesa — Muita gente doente, muita receita pra separar… e ainda tinha uma senhora que jurava que o remédio dela estava “olhando” pra ela de volta.

Paolo riu, se aproximando e se sentando à sua frente.

— Eu queria poder te ajudar lá também. Não só aqui.

— Aqui já é muito. — respondeu. — Você cuida da casa, me faz rir… e às vezes quase explode a cozinha, mas eu deixo passar.

Ele ficou a olhando por alguns segundos. O brilho da vela dançava nos olhos dela, e Alya desviou o olhar, inquieta.

— Você não devia me olhar assim. — sussurrou.

— Como? — ele perguntou, genuinamente confuso.

— Como se eu fosse… — hesitou, procurando as palavras. — A coisa mais interessante da sala.

— Mas você é. — Paolo respondeu, com uma naturalidade que fez o coração dela acelerar. — Eu olho em volta e só vejo… coisas. Aí eu olho pra você.

Ela engoliu em seco. O silêncio que se instalou não era desconfortável… mas era carregado demais. Para quebrar o clima, Alya se levantou.

— Quer saber? Acho que vou pegar mais uma vela pro quarto, antes que eu esqueça.

Quando passou ao lado dele, Paolo segurou de leve sua mão, sem puxar, só… pedindo para que ela parasse. Ela sentiu o toque. Parou.

— Alya… — ele chamou, a voz mais baixa do que de costume. — Tem uma coisa que eu não entendo.

— O quê? — ela perguntou, sem ousar olhar diretamente pra ele.

— Por que meu peito aperta quando olho pra você?

A pergunta veio limpa, sincera, sem filtros. Como tudo nele desde que acordou.

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