Capítulo 3.1

O coração dela falhou um compasso. Durante alguns segundos, Alya não soube o que responder. As palavras se embolaram na garganta.

— É só gratidão, Paolo… — tentou dizer, forçando um sorriso. — Você… se sente grato porque eu te ajudei. É normal confundir as coisas.

— Não parece só isso. — ele insistiu, agora se levantando devagar.

Paolo se aproximou, a luz da vela desenhando seus traços de um jeito mais intenso. O rosto dele ficava ora em sombra, ora iluminado, e isso o deixava ainda mais misterioso.

— Gratidão não faz o coração bater assim. — completou, encostando a mão livre no próprio peito — Fica… estranho. Aperta. Acelera. — ele engoliu em seco. — Principalmente quando você sorri.

Ela sentiu as bochechas queimando. Desviou o olhar, sentindo o estômago revirar de nervoso.

— Você está confundindo as coisas. — repetiu, mas sua voz não soou tão firme quanto gostaria.

Os dedos dele ainda seguravam a mão dela. O toque era quente. Não havia força ali, só presença. Um pedido silencioso para que ela ficasse.

— Se eu estiver… — sussurrou — você pode me explicar a diferença?

Alya respirou fundo. A sala parecia menor. O ar, mais pesado.

— Paolo… — tentou advertir, mas o nome saiu suave demais.

Ele deu um passo mais perto. A luz das velas desenhava o contorno dos lábios dele, o brilho dos olhos cinzentos. Havia um misto perigoso entre inocência e desejo naquela expressão. Como alguém que não entendia tudo, mas sentia demais.

— Eu não lembro de quem eu era. — continuou, a voz rouca — Não sei se antes disso eu era… bom ou ruim. Mas eu sei o que sinto agora. Quando acordo e vejo você aqui. Quando você diz meu nome. Quando encosta em mim.

As palavras foram desarmando as defesas dela uma a uma. Alya sentiu os olhos arderem. Não de tristeza, mas de algo que ela tentava conter há dias.

A convivência, os pequenos gestos, a maneira como ele parecia tão grande e, ao mesmo tempo, tão indefeso ali… tudo isso a havia cercado devagar, sem aviso.

Quando as mãos deles se tocaram de verdade, dedo com dedo, palma com palma, algo dentro dela se quebrou. Não foi um barulho alto. Foi um estalo silencioso no peito, uma certeza nascida no meio do caos.

Ela ergueu os olhos. Encontrou o olhar dele. Por um momento, o mundo inteiro pareceu se resumir àquele espaço minúsculo entre as bocas deles.

O primeiro beijo partiu dele. Um gesto ainda incerto, quase tímido, mas carregado de tudo o que ele não sabia dizer. Aproximou-se devagar, esperando que ela recuasse. Ela não recuou.

Os lábios se tocaram num choque suave no começo, como quem testa a água fria antes de mergulhar. O coração de Alya disparou. A mão livre dela subiu, quase sem perceber, até o peito dele, sentindo o coração bater rápido sob a pele e a camiseta simples.

Paolo aprofundou o beijo com cuidado, como se fosse algo precioso demais para ser tratado com pressa. Ainda assim, havia uma urgência ali. Um medo de perder, de acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho.

Alya respondeu ao beijo, deixando de lado qualquer resistência. As mãos dela subiram, contornando o pescoço, sentindo a nuca onde a dor o incomodava às vezes. Ele estremeceu, não de dor, mas de algo mais intenso, que tomava conta de todo o corpo.

A sala, a falta de luz, a tempestade que já não existia, nada mais importava. Eles se afastaram por um segundo, ofegantes, testando a realidade daquele momento.

— Isso… — ele sussurrou, roçando a testa na dela — Isso também é gratidão?

Ela sorriu de leve, os olhos brilhando.

— Não. — respondeu, numa sinceridade que a surpreendeu — Isso é tudo, menos gratidão.

Paolo respirou fundo e voltou a beijá-la, como se tivesse acabado de receber uma resposta que procurava há muito tempo, mesmo sem memória.

As velas tremularam quando os movimentos ficaram mais intensos. Os corpos se aproximaram, se reconheceram num ritmo próprio, guiado mais pelo sentimento do que por qualquer experiência lembrada. Cada toque era uma descoberta, cada suspiro, uma confissão.

Em algum momento, a sala deixou de ser suficiente. As mãos se entrelaçaram ainda mais forte, os passos incertos os levaram para o quarto pequeno de Alya. A porta bateu com um clique suave, como um segredo guardado do lado de dentro.

Lá dentro, os sussurros substituíram as palavras. O riso nervoso se misturou à respiração acelerada. Os dedos trêmulos desenharam caminhos sobre a pele, reconhecendo contornos, cicatrizes, histórias que ainda não tinham sido contadas em voz alta.

As velas, do lado de fora, seguiram queimando devagar, lançando sombras quentes pelo corredor. A casa inteira parecia segurar o fôlego, como se soubesse que algo importante estava acontecendo ali.

Naquela noite, não houve passado, não houve nomes, não houve memórias perdidas. Houve apenas dois corpos se encontrando como se já tivessem esperado tempo demais por isso. Houve coração, medo, desejo e uma entrega que nascia tão natural quanto a chuva que agora apenas pingava lá fora, tímida, envergonhada.

Quando o silêncio finalmente tomou conta do quarto, já era tarde. Alya sentia o corpo cansado, mas o peito leve. Paolo respirava ao seu lado, o rosto relaxado como ela nunca tinha visto.

Ela o observou por alguns segundos, os cabelos bagunçados, o peito subindo e descendo devagar.

— Meu Golden Retriever. — sussurrou, com um meio sorriso, antes de fechar os olhos — Grande, fofo e… totalmente meu problema agora.

Não percebeu quando adormeceu, ainda com a mão entrelaçada à dele.

Do lado de fora, a noite parecia guardar o segredo dos dois. E, sem que nenhum deles soubesse, algo muito maior do que só o corpo havia se ligado ali. Algo que nem mesmo a memória perdida de Paolo seria capaz de apagar.

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