Mundo de ficçãoIniciar sessãoO amanhecer chegou devagar, esparramando tons de luzes amarelas pelas frestas da cortina. A tempestade da noite anterior havia cessado, deixando apenas o som distante do vento e o canto tímido de um passarinho que ousava saudar o novo dia.
Alya abriu os olhos devagar. O pescoço doía. Ela ainda estava sentada na cadeira, com a cabeça apoiada nos braços, bem ao lado do sofá. Demorou alguns segundos para lembrar onde estava e o que tinha acontecido. Virou o rosto e o viu ali, o homem desconhecido. Respirava com mais calma. Sua pele, antes pálida, agora tinha um pouco mais de cor. Aquele simples detalhe fez o coração dela disparar. — Ainda bem… — sussurrou, passando a mão cansada pelo rosto. — Você sobreviveu. Levantou-se devagar, alongando os braços adormecidos. Ajoelhou-se ao lado dele e ajeitou a manta. Observou o curativo, limpinho, estancando bem o sangue. Tudo parecia sob controle. Com cuidado, trocou o pano frio que repousava em sua testa. A casa estava quieta, e o cheiro de café recém-passado começava a se espalhar pela cozinha. Alya sorriu sozinha, sem saber por quê. Foi quando ouviu. Um som baixo, rouco... e depois um suspiro. Ela se virou rapidamente. Os olhos dele estavam abertos. Por um instante, os dois se encararam sem dizer nada. Ela prendeu o ar. Ele pisca, atordoado, olhando ao redor sem entender onde estava. Ele tentou mexer os ombros, mas o corpo pareceu pesar mil quilos. — Onde eu estou? — perguntou, a voz rouca, como se tivesse acabado de acordar de um sono profundo. Alya sentiu o corpo inteiro reagir. Respirou fundo, tentando não demonstrar tanto nervosismo. — Você está em casa. Quer dizer… — ela sorriu sem jeito — na minha casa. Eu te encontrei na estrada. Estava ferido… muito ferido. Ele levou a mão à cabeça. Os dedos tocaram a nuca com cuidado, e logo o cenho se contraiu. — Atrás da minha cabeça… dói muito. — disse num murmúrio, franzindo o rosto — Eu… quem sou eu? A pergunta cortou o ar como um estalo. Alya sentiu o coração gelar. — Não… não faço ideia. — respondeu baixinho — Mas podemos descobrir juntos, ok? Por um momento ele apenas ficou ali, olhando para o teto, como se buscasse respostas escondidas entre as rachaduras. Tudo nele parecia confuso… o olhar, a postura, o jeito de respirar. Era um homem forte, mas naquele momento, parecia completamente perdido. Alya percebeu que ele tentava se levantar. Correu até o lado dele. — Ei! Não, não faz isso. — segurou o ombro dele com firmeza — Você precisa descansar. Está com pontos no abdômen e provavelmente levou uma pancada na cabeça. Ele obedeceu, recostando-se no sofá novamente. Os olhos vagavam pela sala pequena, a cortina velha, o tapete gasto, o aroma de café vindo da cozinha. — Eu não lembro de nada. — disse com a voz baixa. — Nenhum nome, nenhuma lembrança. Apenas… — ele parou, apertando os dedos contra a têmpora — Uma sensação estranha. Como se algo estivesse trancado aqui dentro. — É normal. — ela respondeu, tentando soar firme — Você passou por um trauma forte. Pode ter perdido a memória temporariamente. — Então… — ele virou o rosto até alcançar o dela — por enquanto eu sou ninguém? Alya ficou calada por um instante. Aquilo a comoveu mais do que gostaria de admitir. — Ninguém não. — respondeu, erguendo delicadamente o queixo dele — Ainda não sabemos quem você é, só isso. Por alguns segundos, os dois se olharam sem dizer nada. O céu lá fora começou a clarear de vez, e um raio de sol invadiu a janela, iluminando o rosto dele. Alya notou o tom dos olhos, um cinza diferente, quase prateado. E, por um instante, sentiu como se aquele olhar procurasse abrigo no dela. Ele sorriu de leve, ainda confuso. — Então… enquanto não lembro… posso ter um nome novo? — perguntou. Alya arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Um nome novo? — É. — ele fez um meio sorriso, tímido — Só até eu lembrar quem sou. Assim fica mais fácil, né? Ela hesitou, encarando-o por um momento. Não sabia por que aquele pedido a deixava tão nervosa. De repente, olhou de novo para o rosto dele. A expressão calma, o corpo enorme, os traços marcantes. — Acho que você tem cara de Paolo. — disse, e acabou rindo — Rosto forte, olhar de quem já viveu mil vidas… e, convenhamos, você parece ter uns dois metros de altura. Ele sorriu pela primeira vez, um sorriso meio desajeitado que fez a boca dela se curvar sem querer. — Paolo… — repetiu devagar, saboreando o som — Eu… gostei. Paolo, então. — Pronto. — ela brincou, voltando a ajeitar a manta — Agora você tem um nome até a memória voltar. Ele a observou enquanto falava, o olhar curioso e tranquilo. Havia algo quase infantil naquela calmaria. E ao mesmo tempo, algo desconhecido, como se dentro daqueles olhos existisse uma sombra distante, esperando a hora certa para despertar. — Obrigado, Alya. — sussurrou — Se você não tivesse parado, eu… nem sei se estaria vivo. — Eu só fiz o que qualquer pessoa faria. — respondeu, desviando o olhar — E agora você precisa descansar, entendeu? Nada de se levantar antes da hora. Serei sua enfermeira temporária. — Tá bom… enfermeira. — respondeu em tom brincalhão. Ela riu, balançando a cabeça. — Trabalhei nisso há um bom tempo. Mas confesso que faz tempo que não cuido de ninguém. — Então deve estar enferrujada. — ele sorriu de canto — Mas ainda assim… me parece ótima nisso. Alya revirou os olhos, disfarçando o riso. — Você é atrevido pra quem acabou de acordar sem memória. — É que minha enfermeira é bonita. — respondeu sem pensar e, logo em seguida, franziu o cenho — Estranho… não sei porque falei isso. O comentário fez Alya corar. Ela fingiu não dar importância, indo até a cozinha buscar um copo d’água. Quando voltou, ele a acompanhava com o olhar atento, relaxado, como um animal que finalmente encontrava um canto seguro. Havia algo doce naquele homem. Uma ingenuidade que contrastava totalmente com a imagem do corpo forte, das cicatrizes, da voz grave. Parecia um contraste impossível, mas, de algum modo, fazia sentido. Alya o observou bebendo a água devagar, e percebeu que tremia um pouco ao segurar o copo. — Está tudo bem. — ela disse — Vai demorar pra recuperar as forças. Seu corpo passou por muita coisa. — Eu sinto… — ele pausou, tentando achar as palavras. — Que algo dentro de mim… já passou por muita coisa. Mesmo sem lembrar de nada… eu sinto isso. Ela parou por um instante, olhando para ele. A sinceridade nas palavras fez seu peito apertar. — Então deixa o tempo cuidar. — disse por fim — Agora não precisa lembrar de nada. Só de que está vivo. Por um segundo, o olhar dele se manteve preso no dela. Alya desviou rápido, constrangida. Lentamente, ele foi fechando os olhos de novo, vencido pelo cansaço. Ela ficou ali, observando o sono dele. Pela primeira vez, o rosto parecia tranquilo, quase inocente. — Parece um Golden Retriever. — sussurrou baixinho, com um sorriso divertido — Grande, fofo e gentil. Quem diria. Se recostou na poltrona, cruzando os braços. Pela primeira vez desde a noite anterior, sentiu o coração em paz. Ela não sabia, mas aquele sorriso bobo e sonolento dele seria o primeiro passo de uma história que mudaria tudo. Nada na vida de Alya seria igual depois daquele amanhecer.






