O mundo parecia pequeno demais para o desespero de Deméter. Ela já tinha revirado cada canto atrás de Perséfone, mas a garota simplesmente havia desaparecido. O coração da deusa estava na mão; o medo de que o pior tivesse acontecido com sua filha amada não a deixava respirar. Sem saber mais o que fazer, pediu ajuda a Hermes para dar uma busca no mundo dos mortais. Vai que ela estava apenas distraída entre as flores e plantações? Mas não. Nenhum sinal dela por lá também.
Sua última esperança era o lugar favorito da filha: o campo de rosas asiáticas, um presente exclusivo de Zeus. Quando chegou lá, a cena foi de cortar o coração: o campo estava todo destruído e o lugar, completamente deserto. Em pânico, ela foi direto ao Soberano do Universo em busca de auxílio para localizar sua menina.
— Zeus... — chamou, tentando manter a calma e soar amável assim que o avistou em seu trono celestial. — Você viu a Perséfone hoje?
— Não. A última vez que a vi, ela estava no campo de lírios.
— Eu acabei de voltar de lá e nada! Hermes já procurou em todo lugar e voltou de mãos vazias. Eu realmente não sei mais onde procurar — desabafou, com a voz embargada, segurando o choro.
— Ah, Deméter... — ele soltou, meio impaciente. — Você é muito superprotetora. Relaxa, logo ela aparece em casa.
— Mas já faz três dias que ela sumiu! Ela nunca ficaria tanto tempo assim longe do
Olimpo.
— Sei lá, talvez ela esteja com algum rapaz por aí, ou só quis fugir de você mesmo. Você não dá um minuto de paz para a garota. Deixe ela respirar, ela deve estar bem.
Deméter saiu da presença de Zeus irritada. Ela não era grudenta; só se importava de verdade com o bem-estar dos filhos — principalmente de Perséfone. As duas tinham personalidades e poderes muito parecidos, eram extremamente unidas, e ela era, sem dúvidas, sua filha favorita. Zeus conseguiga ser muito inconveniente e dono da verdade. No fundo, ela sentia que algo estava muito errado, mas tentou se apegar à ideia de que talvez estivesse preocupada demais e imaginando coisas. Decidiu esperar mais um pouco. Se Perséfone não aparecesse, voltaria a implorar para que Zeus fizesse algo e fosse procurá-la.
Enquanto isso, em outra parte do mundo, Anastácia estava com o estômago frio de tanta ansiedade para conhecer o homem que havia salvado sua vida. Acompanhada por Talita e Alessandra, que guiavam seus passos ainda meio vacilantes, ela cruzou o pátio de mármore do Partenon em direção ao jardim dos fundos.
Lá estava ele, sozinho, cortando lenha e totalmente focado no que fazia.
— Ei, Nick! — Alex gritou, quebrando o silêncio. — Alguém quer te conhecer!
Ao avistar as garotas, ele vestiu a camisa rapidamente e se aproximou. Na mesma hora, as meninas começaram a rir de nervoso.
— Vocês estão querendo ser castigadas como a Medusa? — ele gritou de longe, com um sorriso brincalhão no rosto.
— Claro que não! — Talita se apressou em responder, puxando Alex pelo braço. — Anastácia, quando terminar a conversa, encontre a gente no pátio. Vamos ajudar a Dimitra com as oferendas.
As duas saíram vermelhas como pimentas, rindo, cutucando uma à outra e olhando para trás a cada dois passos. Anastácia nem lembrava quem era Medusa. Na verdade, não lembrava de absolutamente nada sobre os deuses; tudo ali parecia um universo completamente novo. Dimitra até a proibiu de interagir com as outras sacerdotisas, já que a garota não recordava se era virgem — e esse era um critério obrigatório para servir no templo de Atena.
— Então você é a Anastácia? Prazer, eu sou o Nicolas — disse ele, resgatando-a de seus próprios pensamentos.
— Prazer — respondeu ela, tímida.
Ele era alto, tinha cabelos loiros que combinavam perfeitamente com a pele bronzeada pelo sol e olhos incrivelmente azuis. Era totalmente compreensível as meninas terem ficado tão bobas e envergonhadas perto dele.
— Bom — ele riu, descontraído. — As meninas ficaram bem empolgadas com a sua chegada por aqui. Estão supercuriosas e não param de falar de você por um segundo. — Ele mudou o tom, ficando mais sério: — Sinto muito que você não se lembre de nada do que aconteceu com você.
— Bem, estou tentando viver um dia de cada vez. Não tem como sentir falta de pessoas ou de coisas que eu nem sei que existiam — disse ela, caminhando devagar, enquanto ele adaptava o passo dele ao ritmo dela.
— Justo — ele comentou, pensativo. — Ficar obcecada com o passado só te deixaria mais ansiosa e preocupada.
— Mas ainda é muito estranho não lembrar de nada. Só que estou me esforçando para ficar bem.
— E dá para ver que está conseguindo — Nick se apressou em dizer, encorajador. — Você parece muito bem recuperada. As meninas ficaram chocadas, disseram que você se curou muito rápido.
— Nicolas... — Anastácia mudou o tom de voz, assumindo uma expressão séria. — Você acha mesmo que os deuses estão olhando por mim?
Sua voz falhou no final e uma lágrima solitária acabou escapando de seus olhos.