Nicolas olhou para a lágrima que escorria pelo rosto de Anastácia e, por um momento, o machado em sua mão pareceu pesado demais. Ele o cravou no tronco de madeira que usava como apoio e deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O tom brincalhão de antes sumiu completamente.:
— Se os deuses estão olhando por você, Anastácia? — ele repetiu a pergunta, a voz baixa e ponderada. — Sendo sincero, eu não sei. Mas quem quer que tenha feito aquilo com você, certamente tinha a atenção deles.
Anastácia piscou, limpando a lágrima rapidamente com as costas da mão. O coração dela acelerou.
— O que você quer dizer com isso? Você me encontrou, não foi?
— Sim, na base da montanha, logo após aquela tempestade de raios que quase partiu os pinheiros centenários ao meio — Nicolas começou, cruzando os braços e olhando para os picos rochosos por um instante, como se revivesse a cena. — Você estava desacordada no chão de terra e pedras, cercada por árvores arrancadas pela raiz que pareciam ter sido cortadas por lâminas de energia, e não pelo vento. Mas o que realmente chamou a atenção não foi a destruição. Foi a própria natureza ao seu redor.
Ele voltou a olhá-la nos olhos, e Anastácia sentiu um calafrio na espinha.
— A tempestade caía com violência, a lama descia pelas encostas engolindo as rochas, mas os raios e os galhos que despencavam simplesmente desviavam de onde você estava deitada. Havia um círculo perfeito de terra seca e grama intocada ao seu redor, como se a fúria da montanha estivesse proibida de tocar em você. E as suas roupas... não eram tecidos comuns. Pareciam fios tecidos com uma precisão que nenhuma tecelã mortal conseguiria replicar.
Anastácia olhou para as próprias mãos, trêmulas. Ela tentou forçar a mente a buscar aquela base de montanha, o som dos trovões, o frio do vento cortante, mas só encontrou uma névoa densa e intransponível.
— Quando Dimitra e eu a trouxemos para o templo — Nicolas continuou, a voz quase num sussurro —, suas feridas eram profundas, como se você tivesse caído diretamente do ponto mais alto do céu. Qualquer mortal teria levado meses para se apoiar nos próprios pés, mas em três dias a sua pele se fechou completamente, sem deixar uma única cicatriz. É por isso que Dimitra está tão rigorosa com você. Não é só pela regra da virgindade para servir a Atena. É medo. Ela sabe que você não foi apenas salva por um milagre; você foi escondida aqui.
Ele deu mais um passo, tocando de leve no ombro dela, um gesto de apoio que contrastava com a gravidade de suas palavras.
— Você não se lembra de onde veio, Anastácia, mas o seu corpo e o mundo ao seu redor lembram. Há marcas de poder em você. A questão não é se os deuses estão olhando por você agora... a questão é de quem você estava fugindo lá em cima antes de despencar e esquecer quem era.
As palavras de Nicolas ecoaram na mente de Anastácia como trovões em uma noite silenciosa. Um círculo de areia seca. Feridas profundas que se fecharam em três dias. Roupas tecidas por mãos que não pareciam humanas. Cada detalhe arrancava o chão sob seus pés, transformando sua amnésia em algo muito mais sombrio do que um simples acidente. Ela deu um passo atrás, afastando-se do toque dele, não por medo de Nicolas, mas pelo peso do que ele acabara de revelar. Seus olhos se fixaram no chão do jardim.
— De quem eu estava fugindo... — repetiu ela, a própria voz parecendo distante, como se pertencesse a outra pessoa.
De repente, a menção ao mar e à tempestade disparou algo em seu peito. Uma pressão sufocante esmagou seus pulmões, e o ar ao seu redor pareceu ficar estranhamente denso, carregado com o cheiro de ozônio e sal.
Um estalo.
Por uma fração de segundo, a névoa em sua mente se partiu. Ela não viu um rosto, mas sentiu. Uma sensação avassaladora de queda livre. E, acima de tudo, uma gargalhada feminina, ecoando enquanto ela caia montanha a baixo, que fazia suas entranhas revirarem de puro terror. Havia um par de olhos dourados que a fitavam na escuridão daquela memória flash, olhos que pareciam vitoriosos ao ver a queda dela.
Anastácia cambaleou, levando as mãos à cabeça quando a imagem sumiu de forma tão abrupta quanto surgira, deixando apenas uma enxaqueca latejante e um pressentimento assustador.
— Anastácia! Você está bem? — Nicolas deu um passo rápido à frente, segurando-a firme pelos braços antes que ela perdesse o equilíbrio.
Ela respirava de forma arquejada, o suor frio brotando em sua testa. Olhou para as mãos de Nicolas em seus braços e depois subiu o olhar para o rosto preocupado dele.
— Eu... eu vi alguma coisa — sussurrou ela, trêmula, o olhar fixo no vazio. — Não foi um pensamento, Nicolas. Foi um aviso. Eu não caí daquela montanha por acidente. Eu fui jogada.
Ela engoliu em seco, sentindo um arrepio violento percorrer sua espinha. O pressentimento que se instalou em seu peito era nítido e aterrorizante: a tempestade que quase destruiu a floresta ali perto não era um fenômeno natural. Era uma caçada. E quem quer que estivesse atrás dela naquele dia, não ia desistir só porque ela havia esquecido o próprio nome.
— Se eu fui escondida aqui — Anastácia olhou nos olhos azuis de Nicolas, o pânico dando lugar a uma determinação desesperada —, então este templo não é um santuário. É um alvo. E o tempo está acabando.