Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa segunda sessão, eu cheguei mais pontual. Não por disciplina, mas por inquietação. Algo tinha sido mexido na semana anterior e eu passei os dias seguintes revisitando memórias que sempre considerei neutras, quase bonitas. Pela primeira vez, comecei a suspeitar que elas não eram tão inofensivas assim.
— Eu pensei muito na palavra que você usou — disse ao psicanalista, sentando-me. — “História que não escrevemos”.
Ele assentiu, como quem reconhece um ponto sensível.
Respirei fundo antes de continuar.
— Acho que minha história começou antes mesmo de eu nascer.
Contei que sou a caçula de três irmãs. Esse detalhe sempre foi contado como algo leve, quase afetivo. “A mais nova”, “a boneca da casa”, “a que precisava ser poupada”. Durante anos, acreditei que esse lugar era privilégio. Hoje, percebo que também era um confinamento delicado.
— Desde cedo, tudo já estava organizado — expliquei. — Minhas irmãs mais velhas aprendiam sobre negócios, estratégias, decisões. Eu aprendia a ser educada, sensível, agradável.
Havia carinho, sim. Muito. Não quero apagar isso. Meus pais me amavam à maneira deles. Minha mãe, com sua ternura constante, acreditava genuinamente que me proteger era me afastar das durezas do mundo. Meu pai, com sua postura firme e silenciosa, achava que me preservar era não me expor.
— O problema — falei com cuidado — é que ninguém percebeu que me proteger também significava não me preparar.
O psicanalista anotava com calma. Não interrompia. Isso me dava espaço para ir além das versões prontas que sempre contei.
Descrevi a casa onde cresci. Grande, bonita, organizada. Funcionários discretos, horários definidos, regras implícitas. Tudo funcionava. Tudo parecia certo. Mas havia algo que não se falava: ali, cada um tinha um papel. E sair dele não era bem-visto.
— Minhas irmãs sabiam exatamente quem eram — continuei. — Eu sabia apenas quem esperavam que eu fosse.
Rebeca, a irmã do meio, sempre foi admirada pela firmeza. Ela falava pouco, decidia rápido, não se deixava afetar. Renata, a mais velha, aprendeu cedo a circular entre pessoas importantes, a sustentar conversas estratégicas, a fazer alianças. Ambas foram moldadas para o jogo do poder.
— E eu? — perguntei em voz alta, quase surpresa comigo mesma. — Eu era a que escutava. A que observava. A que sentia.
Durante muito tempo, achei que isso fosse virtude suficiente.
Contei que, desde pequena, percebia as conversas sendo interrompidas quando eu entrava na sala. Os olhares trocados. As frases pela metade. Ninguém fazia isso por mal. Era automático. Um pacto silencioso de que certos assuntos não me diziam respeito.
— Isso constrói algo perigoso — disse. — A ideia de que você não é capaz de lidar com a verdade.
Enquanto falava, senti uma pontada no peito. Não de dor aguda, mas de reconhecimento.
— Eu cresci acreditando que o mundo precisava ser filtrado para mim — continuei. — E, sem perceber, comecei a duvidar da minha própria força.
O psicanalista levantou os olhos.
— Como isso aparecia para você? — perguntou.
Pensei por alguns segundos.
— Na dificuldade de decidir. No medo de errar. Na sensação constante de que alguém saberia melhor do que eu.
Falei também sobre os jantares formais. As noites longas à mesa. Os discursos ensaiados. Eu estava sempre ali, sorrindo, educada, elogiada pela postura. Ninguém perguntava o que eu pensava. Apenas comentavam como eu estava “se tornando uma moça encantadora”.
— Encantadora — repeti, com um leve amargor. — Como se esse fosse o objetivo final.
Houve um silêncio breve.
— Às vezes — continuei — eu me sentia como aquelas princesas de histórias antigas. Cercadas de luxo, mas trancadas em torres bonitas demais para parecerem prisões.
Percebi que aquela imagem nunca tinha sido tão clara para mim.
— O castelo não era imposto à força — acrescentei. — Ele era oferecido com carinho. E isso torna tudo mais confuso.
Porque como reclamar de algo que parece cuidado? Como questionar o que vem embalado como amor?
Falei do quanto demorei para perceber que meu desejo de fazer Direito não era apenas vocação, mas uma tentativa inconsciente de sair daquele lugar passivo. De provar, talvez a mim mesma, que eu podia lidar com conflitos, com o real, com o que não era bonito.
— Eu queria entender o mundo sem filtros — disse. — Queria ver o que sempre esconderam de mim.
Quando a sessão se aproximava do fim, senti algo diferente da semana anterior. Não era alívio. Era lucidez incômoda.
— Acho que eu nunca escolhi o castelo — concluí. — Apenas aprendi a viver dentro dele.
O psicanalista fechou o caderno.
— Reconhecer isso não apaga o afeto que existiu — disse com calma. — Mas abre espaço para que você escolha o que faz com ele agora.
Saí do consultório naquele dia com uma certeza desconfortável:
para me tornar adulta, eu precisaria, antes, questionar a princesa que me ensinaram a ser.E essa talvez fosse a parte mais difícil de todas.







