Mundo de ficçãoIniciar sessãoKanina
O carro estacionou suavemente em frente a um condomínio que parecia ter saído diretamente de uma revista de arquitetura de luxo. A fachada de vidro e mármore espelhava o céu azul, e a segurança na portaria era mais rigorosa do que a de um banco central. É, o Dr. Richard não brincava em serviço quando o assunto era ostentar o salário de cirurgião-chefe. Era coisa de gente rica mesmo. O motorista saiu com passos rápidos e abriu a porta para mim, estendendo a mão para ajudar. — Me acompanhe, senhorita, por favor. Irei te levar até o apartamento — ele disse, com a mesma formalidade de antes. — Obrigada — respondi, descendo do carro e ajeitando minha bolsa. Olhei para ele por um momento, querendo quebrar um pouco daquele gelo corporativo. — Como o senhor se chama? — Jacob. — Prazer, senhor Jacob! — Dei um sorriso simpático, tentando ser a personificação da simpatia em meio a tanta frieza de condomínio de luxo. Ele apenas me olhou e assentiu, sem esboçar um único sorriso, mantendo a postura de quem guardava os segredos mais profundos da elite. Ele estendeu o braço indicando a entrada e começou a caminhar, me guiando pelo saguão imenso que cheirava a perfume caro e flores frescas. Pegamos o elevador privativo. À medida que os números dos andares subiam rapidamente no painel digital, meu coração deu uma leve acelerada — não de nervosismo pela bebê, mas pela antecipação de ver a pose do meu chefe desmoronar por completo. Quando as portas do elevador se abriram diretamente dentro do hall da cobertura, o som que ecoou no ambiente me fez segurar o riso na hora. Não era música clássica, nem o silêncio pacífico que aquele apartamento pedia. Era o choro estridente, agudo e desesperado de um bebê, misturado com a voz de Richard resmungando algo que parecia uma prece ou uma praga. Jacob deu um passo para o lado, mantendo a porta aberta, e fez um breve aceno com a cabeça, como se dissesse: “Boa sorte. Você vai precisar.” O apartamento era maravilhoso, digno de uma revista de decoração, mas parecia ter sido atingido por um furacão de fraldas. Havia latas de fórmula abertas na bancada da cozinha americana, caixas rasgadas espalhadas pelo chão e um Dr. Richard completamente desfigurado no meio da sala. O cabelo dele, sempre impecável no hospital, estava bagunçado, a camisa amassada e os olhos expressavam o mais puro pânico. Mas, para a minha surpresa, ele estava sozinho. Olhei em volta, procurando os reforços. — Cadê a Juliana e o Leo? — perguntei, cruzando os braços e analisando a cena. Richard se virou para mim como se estivesse vendo um anjo salvador descer dos céus. Ele balançava os braços de um lado para o outro de forma mecânica, tentando ninar a bebê, que chorava a plenos pulmões. — O Harry! — Richard quase gritou para conseguir falar por cima do choro da menina. — A Ju recebeu uma ligação da babá, o filho deles ficou doente, com febre alta. Eles não puderam ficar mais tempo, tiveram que correr para o hospital! Ele deu dois passos na minha direção, os olhos arregalados, a voz vacilando de um jeito que eu nunca achei que ouviria na vida. — Karina, por favor... me ajuda. Eu imploro. Eu não sei o que fazer! Ver o homem mais arrogante do hospital implorando daquele jeito desarmou qualquer provocação que eu tinha planejado no caminho. No fim das contas, tinha uma vida minúscula ali que precisava de cuidado. — Tá bom, tá bom. Calma — falei, sentindo meu instinto profissional falar mais alto. Tirei meu casaco e o joguei em cima do sofá, deixando a bolsa logo ao lado. Arregacei as mangas da blusa e me aproximei dele com passos firmes e tranquilos. — Vem cá com a tia, princesa — sussurrei com a voz doce, estendendo os braços. Richard praticamente me entregou o pacotinho com os braços trêmulos, soltando um suspiro de puro alívio. Ajeitei a cabecinha da Sophie no meu peito, apoiei a mão na base da coluna dela e comecei a fazer um movimento leve de balanço, ritmado, enquanto emitia um som baixinho e contínuo, bem perto do ouvido dela. Foram necessários exatamente cinco segundos. O choro estridente da Sofie começou a diminuir, virou um resmungo choroso e, num piscar de olhos, ela parou de chorar por completo, aninhando o rostinho na minha blusa. O silêncio que se instalou na sala foi quase ensurdecedor. Richard deu um passo para trás, olhando para mim e para a filha com os olhos arregalados e a boca literalmente aberta, chocado. — Como... Como você fez isso?! — ele sussurrou, como se tivesse presenciado um milagre ou um truque de mágica de outro mundo. — Eu estou tentando fazer ela parar faz mais de uma hora! Meu braço está dormente, minhas costas estão travadas e ela só berrava mais alto! Olhei para ele de soslaio, mantendo o balanço calmo, e dei um sorriso de canto, saboreando minha primeira vitória no território do chefe. — Ela sente o seu desespero, Richard — respondi, com a voz mansa, mas firme. — Bebês são como esponjas emocionais. Se você pegar ela rígido como um bloco de concreto e com o coração batendo a duzentos por hora, ela vai achar que o mundo está acabando. Você tem que manter a calma se quiser que ela se acalme. Ele engoliu em seco, olhando para as próprias mãos trêmulas e depois para a menininha que agora respirava tranquila no meu colo. O Dr. Richard estava oficialmente sob o meu comando.






