Capítulo 3

Richard

Com as mãos mais trêmulas do que se estivesse segurando uma barra de dinamite, puxei o primeiro lenço umedecido do pacote. Juliana se posicionou ao meu lado, guiando cada movimento meu com uma paciência angelical.

​— Vai, Richard. Levanta as perninhas dela com cuidado... isso, bem devagar. Agora passa o lenço. Sem pressa, ela não vai quebrar.

​Eu suava frio. Juro que desarmar uma bomba relógio pareceria mais fácil do que aquilo. Sofie soltou um resmungo agudo quando o lenço gelado tocou sua pele, e eu quase dei um pulo para trás, pedindo desculpas como se tivesse cometido um crime. Colocar a fralda do Harry nela foi outro desafio de engenharia: a fralda cobria praticamente a barriga inteira da menina, quase chegando nas axilas. No momento em que consegui fechar as abas adesivas, soltei uma lufada de ar que nem sabia que estava prendendo.

​Juliana olhou para o meu trabalho — que parecia um embrulho de presente mal feito — e depois para mim, abrindo um sorriso cúmplice.

​— Viu? Conseguimos. Sobrevivemos à primeira fase.

​Sofie piscou os olhinhos, parando de chorar por alguns segundos, e ficou me encarando. Olhei para aquela carinha miúda dentro daquela fralda gigante e, por um milésimo de segundo, senti um calor estranho e desconhecido se aquecer no meio do meu peito em pânico. Nós realmente tínhamos conseguido.

​Mas a trégua durou exatamente três segundos.

​Sofie franziu o rosto, contraiu os punhos minúsculos e abriu a boca, soltando um choro ainda mais estridente e agudo do que antes. O som ecoou pelo teto da sala, estraçalhando a minha recém-adquirida pontinha de confiança.

​— E agora?! O que eu faço?! — desesperei-me, olhando para a Juliana com os olhos arregalados. — Eu quebrei ela? Apertei demais a fralda?

​Juliana deu uma risadinha leve, limpando uma mecha de cabelo do rosto enquanto ajeitava a manta rosa em volta da bebê.

​— Calma, Richard. A fralda ficou enorme nela, não está apertada. Agora, provavelmente, é fome. Bebês desse tamanho mamam de poucas em poucas horas.

​— Fome? Mas eu não tenho... quer dizer, eu obviamente não tenho como amamentar! E não tem leite em pó aqui, só tenho café e cerveja na geladeira! — O pânico estava me fazendo falar sem pensar.

​Nesse momento, Leo deu dois passos à frente, guardando o celular no bolso da calça de moletom com a postura de quem tinha acabado de salvar o dia.

​— Fica frio, amigão. Enquanto você estava aí quase desmaiando para limpar um cocô, eu já liguei na farmácia vinte e quatro horas. Pedi fraldas do tamanho certo para ela fórmula infantil, mamadeira, esterilizador e tudo o que ela vai precisar para passar o dia de hoje. Pedi até chupeta, caso a gente precise silenciar o alarme de incêndio aí. Devem entregar em dez minutos.

​Juliana se virou devagar para o marido. Os olhos dela brilharam com uma ternura tão profunda que o ambiente pareceu até mais quente. Ela deu um passo na direção dele, colocou a mão no peito de Leo e o olhou com uma cara totalmente apaixonada.

​— Por isso eu te amo, sabia? — sussurrou ela, com a voz transbordando orgulho.

​Leo deu um sorriso de canto, todo convencido, e passou o braço pela cintura dela.

​— Eu sei, meu amor. Minhas habilidades de gerenciamento de crise são irresistíveis.

Juliana deu um beijo rápido e estalado nos lábios dele, e eu quase entrei em combustão de tanto desespero.

​— Juliana, me ajuda pelo amor de Deus! — implorei, apontando para o sofá. — Ela não para de chorar!

​Ju deu um sorriso compreensivo, aproximou-se e pegou Sofie no colo com uma leveza impressionante. Ela começou a ninar a bebê, balançando o corpo de um lado para o outro e sussurrando palavras calmas, até que o som agudo da fone do interfone cortou o choro.

​— Deve ser o entregador, vou buscar — Leo falou, já indo em direção à porta com passos rápidos.

​Quando ele voltou, minutos depois, parecia que tinha assaltado o estoque inteiro da farmácia. Ele trazia tantas sacolas plásticas penduradas nos braços que mal conseguia andar. Leo despejou tudo em cima da mesa de centro: latas de leite em pó, caixas de fraldas tamanho RN, mamadeiras, escovas de limpeza, pacotes de algodão e potes de pomada.

​Eu fiquei parado, olhando para todo aquele monte de plástico e caixas coloridas com os olhos arregalados, sentindo o estômago dar um nó.

​— Como você sabe que ela vai precisar de tudo isso? — perguntei, chocado.

​— Experiência, caro amigo... — Leo respondeu, limpando o suor falso da testa com um sorriso convencido.

​Respirei fundo, tentando não hiperventilar.

​Juliana olhou para as sacolas e depois para mim.

​— Richard, segura ela aqui para mim um minuto — pediu Ju, estendendo a bebê na minha direção. — Preciso esquentar a água, tirar a fórmula da sacola e esterilizar a mamadeira.

​Peguei Sofie de volta, endurecendo o corpo todo como se segurasse um bloco de concreto. Olhei para a cozinha, onde Juliana já começava a abrir as caixas em um ritmo frenético.

​— Meu Deus, é muita coisa... Eu não vou saber o que fazer.

​— Você vai conseguir — Juliana gritou da cozinha, tentando sobrepujar o som da água correndo.

​Olhei para o Leo, depois para a Ju, sentindo o desespero puro tomar conta do meu bom senso.

​— Eu preciso de uma babá, gente. É sério. Alguém que possa ficar aqui direto, morar aqui se for preciso, pelo menos nesses primeiros meses. Eu vou enlouquecer.

​Juliana apareceu na porta da cozinha, enxugando as mãos em um pano de prato, com os olhos brilhando como se uma lâmpada tivesse se acendido na cabeça dela.

​— Eu sei quem pode! — Juliana falou, animada. — A Karina está de férias do hospital. Ela vai ter dois meses inteiros de folga, porque faz muito tempo que ela não tira férias e tinha um monte de dias acumulados também.

​Senti meu corpo congelar mais do que quando abri a porta para a bebê.

​— Logo a Karina? — falei, olhando para os dois com o cenho franzido, sentindo um frio genuíno na espinha.

​— A Karina! Ela é sensacional com crianças, Richard. Ela é tipo a encantadora de bebês lá do hospital — Ju defendeu, convicta.

​— Sério? — perguntei, genuinamente surpreso, tentando processar aquela informação.

​— É sim! Ela vai poder te dar uma força enorme com a Sofie.

​Respirei fundo, passando a mão livre pelo rosto enquanto Sofie soltava um murmúrio contra o meu peito.

​— Gente... nós não nos damos bem. Vocês sabem disso. A gente se alfineta desde o dia em que se conheceu.

​— Ah, fala sério! Isso é só tensão sexual demais acumulada entre vocês — Leo disse, soltando uma risada e quase engasgando com a própria saliva.

​Juliana largou o pano de prato na hora e lançou um olhar mortal para o marido. Ela colocou as mãos nas quadris, a expressão séria.

​— Richard, você sempre foi muito galinha — Ju disparou, sem meias palavras. — Minha amiga nunca ia se envolver com alguém que só quer uma noite com ela. A Karina já passou por muita coisa no passado e, sinceramente, ela não está disposta a esse tipo de joguinho.

​Leo encolheu os ombros, murmurando uma desculpa, enquanto eu engolia em seco, sentindo o peso das palavras da Ju. Mas, olhando para a bebê choramingando nos meus braços e para o caos na minha sala, o meu orgulho despencou para o último lugar na lista de prioridades.

​— Tá, tá bom! — cedi, desesperado, olhando para a Juliana com os olhos quase suplicantes. — Só liga para ela e pede para ela vir assim que acordar, pelo amor de Deus!

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