Mundo de ficçãoIniciar sessãoRichard
Os dez minutos que Juliana prometera pareceram durar três encarnações. Eu andava em círculos pela sala, balançando Sofie em um ritmo frenético que provavelmente parecia mais o andar de um marujo bêbado do que um ninar materno. Quando a campainha tocou novamente, não esperei o segundo trimmm. Abri a porta num solavanco. Leo e Juliana entraram como uma equipe de resgate de elite. Leo ainda vestia uma calça de moletom amassada e ostentava um cabelo que desafiava as leis da gravidade. Juliana, por outro lado, já parecia totalmente desperta, os olhos focando instantaneamente no embrulho rosa nos meus braços. — Meu Deus... — Juliana sussurrou, levando as mãos à boca. Ela deu um passo à frente, desacelerando o passo para não assustar a menina. — Ela é... ela é minúscula, Richard. Leo parou logo atrás dela, os olhos arregalados, alternando o olhar entre mim e a bebê como se estivesse processando um cálculo matemático complexo. — Cara... você não estava brincando — Leo soltou, a voz rouca. — Você realmente materializou um ser humano na sua sala às quatro da manhã. — Eu disse para vocês! — minha voz saiu um oitavo mais aguda do que o normal. — Entrem, por favor, fechem a porta. Eu acho que ela está quebrando. Ela não para de chorar e está ficando vermelha! — Ela não está quebrando, Richard, ela só está assustada. E provavelmente com fome. Ou suja — Juliana disse, assumindo o controle com uma calma que me deu vontade de ajoelhar e agradecer aos céus. Ela olhou ao redor e viu o papel amassado na mesa de centro. — E a mãe? Quem é ela? Onde ela está? Passei a mão pela nuca, sentindo o suor frio. — O nome dela é Catherine. Lembram daquela noite na Eclipse, uns meses atrás? Logo antes de nos irmos para fazenda? — Olhei para Leo, que franziu o cenho, tentando puxar pela memória. — Pois é. Uma noite. Ela escreveu na carta que descobriu depois, tentou segurar a barra sozinha porque a mãe dela adoeceu no interior, mas... ela quebrou. Não tem dinheiro, não tem estrutura. Ela me achou e... deixou a Sofie aqui. Juliana soltou um suspiro pesado, um misto de pena e choque. — Sofie... — Ju testou o nome, aproximando-se e estendendo os braços. — Deixa eu pegar ela um pouco. Você está tremendo tanto que vai acabar fazendo a menina ter labirintite. Entreguei a bebê como se estivesse passando uma bomba relógio com o cronômetro correndo. No momento em que Sofie mudou para os braços experientes de Juliana, seu choro diminuiu para um resmungo manhoso. No entanto, um cheiro perfeitamente reconhecível e nada agradável subiu no ar. Juliana franziu o nariz, dando um leve sorriso de canto. — Bom, o mistério do choro atual está resolvido. Alguém aqui precisa de uma fralda nova urgentemente. Olhei para ela, em choque. — Fralda? Eu não tenho fraldas! Eu tenho... papel toalha? Lenço umedecido de limpar o monitor do computador? — Richard, pelo amor de Deus, não limpa a menina com álcool isopropílico! — Leo interveio, horrorizado. — Na mala do carro tem uma bolsa do Harry que a Ju nunca tira de lá. Tem fralda de reserva so vai ficar um pouco grande nela e lenço de bebê. Vou buscar, aproveito e já ligo na farmácia pedindo fraldas, leite e tudo que ela vai precisar hoje. Já volto! Leo saiu quase correndo do apartamento. Juliana caminhou até o sofá e deitou Sophie com cuidado sobre a manta rosa. Ela olhou para mim e apontou para o espaço ao lado da bebê. — Vamos, Richard. Vou te ensinar. Dei um passo para trás, erguendo as mãos em sinal de rendição. — Eu não sei fazer isso! Eu nunca mudei uma fralda na minha vida, Juliana. Eu mal consigo prender o botão das minhas próprias calças quando estou com pressa! — Eu sei que você não sabe — Juliana respondeu, a voz firme, mas extremamente doce. — Mas vou te mostrar. Você vai ter que aprender agora. Chega aqui. Aproximei-me a passos de tartaruga, o coração batendo na garganta. Olhei para aquela criaturinha indefesa no meu sofá e uma onda de pura realidade me atingiu como um soco no estômago. O pânico, que estava adormecido pela adrenalina, voltou com força total. — Ju... eu realmente preciso de ajuda — desabafei, a voz embargada, os olhos fixos em Sofie. — Olha para mim. Como eu vou cuidar dessa bebê? Eu moro sozinho, eu trabalho feito um louco, eu... eu não sei ser pai. Eu não tenho a menor ideia de como fazer isso. Nesse momento, a porta se abriu e Leo entrou, arquejando levemente, com uma bolsa térmica colorida nas mãos. Ele colocou a bolsa na mesa, caminhou até mim e pousou uma mão pesada e firme no meu ombro. O olhar brincalhão dele tinha sumido; agora era o meu melhor amigo ali. — É sua filha, amigão — Leo disse, com uma seriedade calorosa. — E ó, você sempre se deu super bem com a Mel quando eu mais precisei e fiquei sozinho com a Mel sem saber o que fazer você me ajudou muito! você não me desamparou segurou minha mão e hoje nos estamos aqui com você. Olhei para Leo, sentindo um nó dolorido na garganta. — É diferente, Leo — respondi, a voz quase um sussurro. — A Mel é sua filha. Brincar com ela por duas horas e devolver para você é fácil. A Sofie.. a Sofie é minha. Para sempre. Juliana olhou para nós dois, os olhos marejados, e abriu a bolsa de fraldas, puxando um pacote de lenços umedecidos. — Exatamente, Richard. Ela é sua — disse ela, com um sorriso encorajador. — E é por isso que o seu primeiro treinamento começa agora. Pega aquele lenço ali e vamos ao trabalho.






