Mundo de ficçãoIniciar sessão
Richard
A última imagem nítida que eu guardava daquela noite era o rosto dramaticamente sofrido de Leo, gesticulando com seu copo de cerveja enquanto desabafava sobre as "agruras" da vida de casado. — Você não entende, Richard. O casamento é uma instituição complexa. Uma engrenagem delicada — filosofou ele, com toda a seriedade que três chops conseguiam proporcionar. — Você fala como se estivesse marchando para o corredor da morte — brinquei, encostando as costas na cadeira do bar. — Porque você não estava lá ontem. Você não viu a guerra fria que se instalou na minha sala por causa do posicionamento estratégico de duas almofadas fúcsia. Fúcsia, Richard! Eu nem sabia que isso era uma cor! Miranda soltou uma gargalhada alta, limpando o canto dos olhos. — Eu juro que vocês, casados, inventam problemas só para não caírem no tédio. Helena, que até então só observava a cena com um sorriso divertido, ergueu sua taça de espumante no centro da mesa. — Um brinde aos solteiros convictos, que dormem em paz e não discutem por paletas de cores ou almofadas. — Amém. Obrigado por isso — respondi, brindando com ela. Leo revirou os olhos, apontando o dedo indicador na minha direção. — Rias agora, meu amigo. Rias agora. O amor morde a retaguarda quando você menos espera. Eu apenas ri e mudei de assunto. Afinal, eu estava seguro no meu casulo de solteiro convicto. Não fazia a menor ideia do que o destino estava costurando para mim dali a poucas horas. Trimmm. Abri um olho, a visão borrada pelo sono pesado. Silêncio. Pensei ter sido resquício de algum sonho estúpido e afundei a cabeça no travesseiro. Trimmm. Trimmm. Dessa vez, o som agudo da campainha arranhou meus tímpanos. Pisquei, tateando o criado-mudo atrás do celular. A tela acesa quase me cegou: 03:30 da manhã. Quem, em sã consciência, tocava a campainha de alguém àquela hora? Se fosse uma emergência com Leo ou os outros, teriam ligado. Levantei soltando um palavrão baixinho, os pés descalços colando no piso frio enquanto eu atravessava a penumbra do apartamento. Destranquei a fechadura e abri a porta com o cenho franzido, pronto para soltar os cachorros no infeliz. Não havia ninguém. O corredor do prédio estava completamente deserto, iluminado apenas pela luz amarelada e fria do sensor de presença. — Muito engraçado, palhaço — resmunguei, colocando a cabeça para fora, esperando ver algum vizinho bêbado ou um adolescente correndo pelo lance de escadas. Nada. O silêncio era quase sepulcral. Até que um som quebrou o vazio. Não era o vento. Era um chiado agudo, um resmungo sôfrego que logo evoluiu para um choro agudo, esganiçado. Baixei os olhos. Meu coração deu um solavanco tão violento contra o peito que cheguei a dar um passo para trás. Havia um cesto de vime trançado bem ali, encostado no meu batente. Dentro dele, afundada em uma manta rosa que parecia grande demais para o seu tamanho, estava uma bebê. Miúda, com o rosto incrivelmente vermelho e os punhos fechados, chorando a plenos pulmões. Meu cérebro simplesmente desligou. Entrou em pane, como um computador antigo tentando rodar um programa pesado demais. — Não... não, não. Isso não tá acontecendo. Me ajoelhei no chão frio do corredor, as mãos pairando no ar, trêmulas, sem coragem de tocar na criaturinha. — Isso é pegadinha. Cadê as câmeras? — Olhei freneticamente para os lados, para o teto, esperando o elenco de algum programa de TV sair de trás do elevador. Ninguém apareceu. O corredor continuou vazio. O choro dela, no entanto, parecia aumentar de volume, ecoando pelas paredes de alvenaria. A adrenalina disparou. Sem pensar nas consequências, peguei o cesto nos braços e entrei, chutando a porta para fechar atrás de mim. Larguei o cesto no sofá e tirei a menina dali de dentro com o máximo de cuidado que minhas mãos trêmulas permitiam. Ela parecia feita de cristal. Foi quando notei um envelope branco preso com um alfinete de fralda na borda da manta. Havia um nome escrito à caneta, com uma caligrafia apressada: Richard. Sentei-me no sofá com a bebê aninhada de forma desajeitada contra o meu peito. Ela soluçava, o calor do corpinho dela atravessando a minha camiseta. Com uma das mãos, rasguei o envelope. A cada linha que meus olhos escaneavam, meu estômago despencava um andar na escala do pânico. A carta era de Catherine. Puxei pela memória o nome, a imagem... e o estalo veio. Uma mulher de cabelos escuros que conheci meses atrás na boate Eclipse. Uma única noite de impulsividade e névoa alcoólica. Nada mais. Nunca mais tínhamos nos falado. Até agora. Na carta escrita às pressas, ela explicava que descobriu a gravidez poucas semanas depois daquela noite. Contava que entrou em pânico, que passou os últimos meses cuidando da mãe gravemente doente no interior, tentando equilibrar o peso do mundo nas costas e resolver tudo sozinha. Disse que nunca teve coragem de me procurar, que achou que daria conta de ser mãe solo sem atrapalhar a vida de um desconhecido. “Mas eu não consegui, Richard. Eu quebrei. Não tenho estrutura, não tenho dinheiro e minha mãe piorou. Ela precisa de você agora. O nome dela é Sofie. Ela é sua filha.” A carta terminou ali. Fiquei longos segundos estático, encarando a parede oposta como se esperasse que ela me desse as respostas do universo. Depois olhei para o papel. Depois para a bebê. — Eu tenho uma filha — sussurrei para o apartamento vazio. Sophie, como se entendesse o peso da revelação, soltou um choro ainda mais estridente. — Certo. Justo. Eu também entraria em pânico se descobrisse que sou seu pai — falei com a voz embargada, passando a mão livre pelos cabelos, completamente desnorteado. Eu mal conseguia cuidar das minhas plantas, como ia cuidar de uma vida? Instinto de sobrevivência. Eu precisava de ajuda. E só havia uma pessoa que, apesar de reclamar de almofadas, parecia ter a vida minimamente sob controle. Peguei o celular e disquei. Chamou uma, duas, três vezes. — Richard? — a voz de Leo veio arrastada, rouca de sono. — Cara... você tem noção de que horas são? Alguém morreu? — Tem um bebê na minha casa. Houve um longo silêncio na linha. Dava quase para ouvir as engrenagens da cabeça dele tentando girar. — O quê? Você tá bêbado? — Leo, eu estou sóbrio como um monge. Tem um bebê. Na minha sala. Neste exato momento. Outro silêncio sepulcral. Mas, ao fundo, ouvi o lençol se mover e uma voz feminina, sonolenta e preocupada: “Leo? O que aconteceu? É o Richard?” Era Juliana. — O Richard está dizendo que tem um bebê com ele — Leo repetiu para a esposa, o tom de voz mudando de sonolento para genuinamente alarmado. — Um bebê?! — a voz de Juliana ecoou, agora mais perto do aparelho. — Na minha casa! — reiterei, quase gritando. Para selar o meu destino, Sofie soltou um berro agudo bem perto do microfone do celular. Ouvi Juliana soltar uma exclamação abafada do outro lado. — Meu Deus do céu, Leo, isso é realmente o choro de um bebê! — Eu disse! Vocês acham que eu estou inventando uma criança às três da manhã?! — Richard, como assim tem um bebê aí? De onde surgiu isso? — Leo perguntou, a voz agora carregada de urgência de quem estava pulando da cama. — Eu não sei... Quer dizer, eu sei, a carta... Eu não sei o que fazer! — Calma. Respira e não faça nenhuma besteira — instruiu Leo, tentando manter a liderança da situação. — Cara, eu estou tão desesperado que nem saberia por onde começar a fazer uma besteira! De repente, o telefone mudou de mãos. A voz de Juliana veio firme, com aquele tom acolhedor de quem assume o controle do caos: — Richard, escuta a minha voz. Calma. Nós estamos indo para aí agora. Senti um nó na garganta. — Vocês... vocês vão vir? — Claro que vamos, seu bobo. — Mas... agora? Na madrugada? — Richard — Juliana fez uma pausa, e sua voz vacilou por um segundo com a gravidade da situação, transbordando empatia. — Você acabou de descobrir que é pai. Você realmente achou que a gente ia deixar você sozinho nessa? Aguenta firme. Dez minutos. Ela desligou. Olhei para a tela escura do celular e depois para Sofie, que agora me encarava com os olhinhos muito abertos e marejados.






