A madrugada chegou como uma sombra espessa, sem vento, sem barulho, sem piedade.
Henrique e Clara tinham acabado de chegar em casa.
Ela estava no banheiro retirando a maquiagem enquanto ele, no escritório, revisava documentos, tentando juntar as peças da traição de Rafaela.
O silêncio era estranho — denso demais, quebradiço.
Clara sentia pela porta semiaberta que algo estava errado.
Henrique não respirava do mesmo jeito.
Não andava do mesmo jeito.
O ar ao redor dele estava mais pesado.
Ela enxugou o rosto com a toalha e caminhou até o escritório.
Henrique estava parado em frente ao computador, imóvel, a mão fechada ao lado do mouse.
O arquivo aberto tinha o cabeçalho da equipe de inteligência corporativa.
Clara parou na porta.
— Henrique?
Ele demorou a responder.
Quando virou o rosto para ela, Clara viu algo que não via desde os dias mais sombrios do divórcio dele:
um choque absoluto.
Um tipo de desilusão que ninguém deveria carregar.
Ele engoliu seco.
— Clara… senta.
— O que acontece