Mundo ficciónIniciar sesiónSelene
Acordei como quem retorna de um poço muito fundo. Primeiro veio o cheiro, mofo, ferro, água parada. Depois o frio, um frio que parecia ter unha. Só por último reencontrei o corpo, pesado, latejante, coberto por sangue que não era só meu. Tentei me erguer, mas meus músculos lembravam da queda, do grito preso, do chão que engole. Abri os olhos. A luz era pouca, uma fresta alta que derramava uma lâmina pálida sobre pedra húmida. A cela cabia em mim, e isso foi insulto… eu, que já ocupei salões com o meu vestido branco, agora ocupava um buraco. Levei a mão ao pescoço por reflexo. O véu não estava mais ali, a pele, porém, ainda carregava o fantasma do toque frio de Kaleb quando virou meu rosto para ver melhor a ruína. — “Vingança.” — ele disse. A palavra reverberou no crânio como sinos. — “Selene.” — A loba dentro de mim se mexeu, dolorida, mas viva — “Respira.” Respirei. O ar doeu. Rolei até encostar a bochecha na pedra gelada. O sangue seco repuxava, estalando como tinta velha. Era de outros, dos meus, e de mim. Meu vestido, outrora branco, agora era um mapa de manchas. Passei a mão pelo ventre com um gesto automático, uma contagem de perdas. A mão tremeu quando alcançou o batimento do meu próprio coração: estava lá, teimoso, errado, insistindo. A tranca da porta chiou. O som arranhou minhas pálpebras. Dois guardas empurraram a grade, e entre eles apareceu ele. Negro e prata, limpo como se o massacre tivesse sido uma festa onde não se derrama taça. O mel dourado dos olhos brilhava, satisfeito. Minha garganta se fechou por um instante, violentamente, não de amor, não mais, de ódio, e de uma saudade cruel da menina que eu fui antes. — Acordou. — Kaleb não perguntou, constatou, como quem verifica se a caça ainda respira — Achei que levaria mais tempo. — Desculpe decepcioná-lo. — respondi, a voz rouca, mas inteira — Ainda tenho o péssimo hábito de sobreviver. Ele sorriu, inclinado no gosto das próprias palavras. — É isso que a torna valiosa, pequena loba. A palavra “valiosa” bateu na parede e voltou pelo chão, fria. — “Valiosa”? — repeti, cuspindo sílabas como se fossem cacos — Para quê? Para que você possa olhar todo dia o que destruiu? — Para que eu possa construir. — corrigiu, sem pressa — Você sobreviveu ao que nenhum dos seus suportou, Selene. Pelo sangue raro que carrega. A Deusa da Lua jogou seu manto sobre você. É raro. É útil. Senti Ash curvar as garras dentro de mim, pronta. — “Cuidado, isso não é elogio. É cálculo.” — Útil, como uma ferramenta? — perguntei, olhando-o de baixo, sem baixar a cabeça. — Como um altar. — ele disse, teatralmente doce — Ou… como uma matriz. A palavra demorou um segundo para atravessar meu entendimento. Quando atravessou, meu estômago virou mar. — Não. — Sim. — Kaleb inclinou-se um pouco, como se me contasse um segredo trivial — Você gerará uma linhagem que unirá o sangue da tua deusa ao meu. Filhos fortes. Filhos que acabarão com as velhas disputas de uma vez por todas, nascendo do lado certo. — O “lado certo”... — resisti — é o dos que não pisam em corpos para subir degraus. Ele riu baixo, e o riso não encontrou graça. — Você fala como se as histórias se escrevessem com flores. — Passou a ponta do dedo na grade, medindo-a — Seu clã derramou sangue suficiente para irrigar um continente, Selene. Só que acreditou que sua bandeira fosse um álibi. A diferença é que eu não minto para mim. Eu quero poder. E agora o poder quer você. — Eu não sou um vaso. — falei, controlando o tremor que queria tomar a minha boca. — É mais que isso. — ele disse, o que de alguma forma foi pior — É a chave. Além do mais… — o olhar desceu pelo meu vestido sujo, como quem avalia um cavalo, e subiu devagar — o processo pode ser… agradável, se você tiver juízo. Um calor de raiva me subiu à face, desses que não aquecem, queimam de dentro para fora. — Agradável? — minhas mãos apertaram o tecido no joelho — Você acha que pode me engravidar a golpes de mentira e chamar isso de destino? Kaleb não recuou. Nunca recua. — Eu acho que posso oferecer escolhas inteligentes a quem sabe perder. — Virou-se aos guardas — Tragam água fresca. Tirem esse vestido. Dêem algo que não cheire a velório. — seu olhar retornou a mim — Não quero você doente. — Não quer? — Eu o atravessei com os olhos — E os meus? Estão muito bem, obrigada? — Eles não tinham o que você tem. — devolveu, simples — A lua não os escolheu. — Deu meio passo para trás — E antes que envenene o ar com “honra” e “justiça”, poupe sua saliva. Você está viva por dois motivos: sua utilidade e a minha vontade. Se a primeira falhar, a segunda… varia. Ele fez menção de ir. Eu me ergui, agarrando as barras apesar da dor que estourou no ombro e no quadril. — Olha pra mim, Kaleb. — mandei, surpresa com a firmeza da minha voz — Olha bem. Ele olhou. O olhar era um lago congelado. — Você partiu meu mundo… — eu disse, palavra por palavra, como quem crava pregos — mas não me partiu. Ainda. E se pensa que vai me quebrar usando meu próprio corpo… vai precisar da benção de deuses que nem você consegue comprar. — Não pretendo comprar nenhum deus… — ele respondeu, suave — só usar os milagres que eles deixam cair. Virou-se. Antes de sair, como quem se lembra de um detalhe, acrescentou sem olhar: — Ah, e não grite por ajuda. As paredes daqui são mais velhas do que a sua fé. A tranca bateu. O som viajou por mim. Fiquei parada, as mãos nas barras, até o metal gelar meus dedos. O coração batia irregular, as lembranças faltavam e voltavam, cenas picadas… o altar, minha mãe tombando, a boca dele beijando outra mulher, a risada de vitória. Engoli a náusea. Os guardas voltaram com um balde de água, um pedaço de pano grosseiro, e uma túnica marrom que servia em qualquer vergonha. Um deles, um rapaz, mais novo que eu, evitou meu olhar quando passou a roupa pelas grades. Suas mãos tremiam. O outro, mais velho, não tinha olhos, tinha pedras. — Vire-se. — ordenou o de pedra — Troque. — Podem sair. — respondi — Ou acostumem-se com o que veem. Ele fez menção de repreender, o mais novo tocou-lhe o cotovelo. Algo nas linhas duras do primeiro amoleceu um milímetro. — Seja rápida. — rosnou, e fecharam a fresta com desdém. Tirei o vestido manchado com cuidado, como quem despe um corpo caído do campo. O pano novo roçou minha pele como lixa. Lavei o rosto, os braços, os dedos. A água no balde virou rosa, depois vermelha, depois marrom. O cheiro do mofo cedeu um pouco ao do sabão barato. Sentei no chão. Encostei a cabeça na parede. Deixei que as lágrimas viessem, não as de dor, as de fúria. Ash respirou comigo. — “Você viveu.” — disse ela, finalmente — “Viveu quando outros não puderam. Isso é peso. E é arma.” — Arma… — repeti, cansada, mas presa na palavra como salva-vidas. — “O sangue. O nosso.” — Ash rondou dentro de mim, testando limites — “Ele disse a verdade sobre uma coisa… a lua te pôs a salvo de um golpe que mataria outras. Isso não é perdão. É tarefa. A gente descobre como usar.” Fechei os olhos. Por trás das pálpebras, o salão voltava, com as flores brancas tingidas, meu pai e minha mãe em simultâneo, jovens e mortos. Meu coração batia como um tambor velho. Eu via duas versões do Kaleo a do altar e a que destruiu minha vida, uma ilusão. — Eu vou me vingar. — falei, em voz tão baixa que era quase pensamento — Pela lua, pelas cinzas, pela criança em que eu fui. — “E por mim.” — Ash completou — “Eu vi tudo com você. Sou testemunha.” A respiração estabilizou. O frio continua frio, a dor continuava dor. Mas no centro do peito, onde antes havia só ruína, algo acendeu, pequeno, teimoso. Era raiva. E era fé. — Eu não sou um vaso. — repeti, agora para mim — Sou uma lâmina que ainda não aprendeu a mão.






