“Eu quero a sorte de um amor tranquilo.” Cazuza
Silvia mal dormira. Algo lhe revirava o estômago enquanto a mente vagava, inquieta, por uma vida inteira de ausências.
“Como seria ser amada?”
Márcio gostava dela desde a juventude, ela sempre soubera. Mas o que ele era, afinal? Um operário sem importância — e, graças a ela, um capanga insignificante de Dante. Aquilo era pouco.
“E Cássio? Como seria ser admirada por alguém como ele? Será que, algum dia, poderia despertar nele algo além do uso, além da conveniência?”
Cássio dormia de costas para ela. O corpo largo, tranquilo, alheio. Silvia estendeu a mão, quase tocando os músculos firmes de sua lombar… mas conteve-se no último segundo.
“O que estou fazendo?” — repreendeu-se. “Eu não preciso disso.”
Levantou-se. O corpo parecia pesado, exausto, como se carregasse um peso que não sabia nomear. Seguiu até o banheiro.
Depois de fazer suas necessidades, parou diante do espelho. Encarou o próprio reflexo por tempo demais. A raiva veio quente,