“Algumas sombras não retornam para nos assustar — retornam porque se recusam a aceitar que deixamos de pertencê-las.”
No bairro antigo, a casa parecia respirar aconchego. Helena e Santiago se moviam na cozinha com uma naturalidade que só quem já encontrou um ritmo próprio ao lado do outro consegue ter. Ele cortava legumes enquanto ela mexia a panela, os ombros encostando de vez em quando, os sorrisos suaves escapando sem necessidade de palavras.
Eles tinham decidido cozinhar juntos — um jeito de dar descanso aos talentos culinários de Marcelo.
No sofá, Pedro revisava as câmeras no notebook, a expressão concentrada demais para um sábado. O cenho franzido era um contraste gritante com o aroma acolhedor que vinha da cozinha.
— Por que essa cara feia, bombonzinho? — provocou Lívia, aproximando-se com uma taça de vinho.
Pedro ergueu apenas os olhos, sem mexer a cabeça.
— Não está cedo para você já estar bebendo?
— Eu preciso comemorar a ascensão da minha amiga artista, bobinho. — Ela se jo