Mundo de ficçãoIniciar sessãoFico em silêncio. A pergunta b**e nas paredes da minha mente.
— Porque ele me abandonou! — a resposta sai mais alta do que eu planejava, carregada de um choro reprimido há anos. — Porque no dia mais importante da minha juventude, no baile de formatura, ele me deu um vestido lindo, me levou de carro, mas quando pisou no salão, me deixou jogada em uma mesa no canto! Ele passou a noite inteira dançando com a Livi, foi coroado rei da festa do lado dela e, no final da noite, eu vi os dois se beijando no corredor! Ele me usou! Me usou na noite anterior para ser o primeiro homem da minha vida e no dia seguinte agiu como se eu fosse um nada! A Doutora Claire me escuta sem me interromper. Ela espera que a onda de indignação e dor baixe, que a minha respiração pesada se estabilize, antes de intervir. Ela limpa a garganta suavemente. — Hadasha, na Terapia Cognitivo-Comportamental, fundada por Aaron Beck, nós trabalhamos exaustivamente a diferenciação entre os fatos objetivos e as interpretações cognitivas que nós damos a esses fatos. Vamos fazer esse exercício juntas agora, como já fizemos em outros momentos da sua jornada aqui? Engulo em seco e assinto, limpando a lágrima com as costas da mão. — Vamos. — Perfeito — Doutora Claire pontua com os dedos. — Fato objetivo número um: ele presenteou você com o vestido de formatura e se ofereceu para levá-la. Fato objetivo número dois: na festa, a atenção dele foi monopolizada pela Livi, e ele dançou com ela. Fato objetivo número três: você os viu se beijando. Esses são os fatos. Agora, me diga: qual foi a interpretação narrativa que a Hadasha de dezessete anos construiu em cima desses fatos? — A interpretação de que eu não significava nada para ele — respondo em um fio de voz. — A interpretação de que ele sentiu pena de mim, me levou por caridade, me usou na noite anterior por curiosidade sexual e depois me descartou pela garota bonita e fútil. Doutora Claire me encara com uma serenidade desarmante. — E essa interpretação é uma verdade absoluta e comprovada... ou é uma hipótese que a sua dor de adolescente rejeitada formulou para tentar dar sentido a uma rejeição social? Fico estática. As palavras da terapeuta entram na minha mente como um bisturi afiado. — Eu... eu vi eles se beijando, Doutora... — Sim, você viu um gesto — a Doutora Claire argumenta com uma precisão cirúrgica. — Mas você investigou a dinâmica daquele gesto? Você deu a ele o direito de resposta? Vamos relembrar o que você me relatou em sessões passadas sobre o dia seguinte ao baile de formatura. O que o Caleb fez nas primeiras horas da manhã de domingo? Baixo os olhos, tomada por um sentimento de vergonha repentino. — Ele foi até a minha casa. — Ele foi até a sua casa — a Doutora Claire repete, enfatizando cada palavra. — Um homem que usa uma mulher e a descarta sem qualquer consideração, ele foi no dia seguinte até a sua casa procurar por se desculpar, e você foi embora ao meio dia desse dia não foi? Então me diga, como se chama essa sua reação? — Eu fui embora, para não ter que ouvir as desculpas dele — whispering em tom confessional. — Eu estava tão ferida, tão destruída pelo que tinha visto, que me escondi no quarto. Pedi para a minha mãe não dar meu contato nem endereço caso ele me procurasse. Pedi para ela mandar ele ir embora e me deixar em paz. — Exatamente — a Doutora Claire inclina o corpo, me olhando fixamente nos olhos. — Você se fechou em um mecanismo de defesa arcaico. Para evitar o risco de ser ferida novamente, você negou ao outro a oportunidade de se explicar. Você decretou a sentença sem ouvir o réu. —E mais: você alimentou essa narrativa de vitimização durante cinco anos.






