####CAPÍTULO 40

HADASHA

O restante do expediente não passa; ele se arrasta como um fardo físico sobre os meus ombros.

Por mais que eu tente me afundar nas planilhas orçamentárias, nos relatórios de logística e nos e-mails acumulados, a minha mente permanece presa, em um ciclo ininterrupto, à imagem de Caleb parado na minha sala. A fragilidade dele, a voz embargada, o olhar de desespero silencioso e aquele pedido de desculpas rasgado... tudo volta para me assombrar a cada cinco minutos. Olho para a fotografia dos meus filhos ao lado do notebook e uma pontada fria de angústia atravessa o meu peito. Até quando vou conseguir sustentar esse castelo de cartas? Até quando vou conseguir olhar para Zara e Owen e fingir que o homem que deu a eles a vida não passa de um fantasma esquecido?

Por volta das quatro horas da tarde, sinto o ar faltar nos meus pulmões. O peso da culpa e da dúvida está me sufocando. Preciso de uma âncora. Pressiono o botão do interfone com o indicador trêmulo.

— Emily, por favor.

A porta se abre em poucos segundos. A minha secretária entra com a eficiência de sempre, segurando um bloco de anotações.

— Sim, senhorita Smith.

— Emily, você pode entrar em contato com o consultório da Doutora Claire, por favor? Veja se ela tem qualquer horário vago no final do dia de hoje. Eu... eu preciso muito conversar com ela.

Emily percebe a alteração no meu tom de voz, mas mantém o profissionalismo. Ela consulta o tablet por alguns instantes e faz uma ligação rápida para a recepção da clínica.

— Senhorita Smith, a Doutora Claire teve um cancelamento e consegue encaixar a senhora exatamente às dezoito horas. A secretária dela disse que ela estará esperando.

Solto um suspiro profundo, sentindo uma leve fração da tensão acumular nos meus ombros ceder.

— Obrigada, Emily. Excelente.

Às dezessete horas e trinta minutos em ponto, desligo o computador. Arrumo as minhas coisas na mesa com uma lentidão quase ritualística. Antes de pegar a bolsa, os meus olhos se fixam novamente na fotografia maior de Zara e Owen, rindo no parque, abraçados ao meu pescoço. Toco o vidro da moldura com a ponta dos dedos, buscando a força de ser mãe.

— A mamãe já volta — murmuro para o silêncio da sala.

O trajeto até o consultório é um borrão de luzes de trânsito e pensamentos desordenados. Estaciono o carro na calçada arborizada em frente ao prédio comercial por volta das dezessete horas e cinquenta minutos. O ambiente da recepção é silencioso, iluminado por uma luz amarelada e acolhedora, com um aroma suave de camomila e lavanda pairando no ar. A recepcionista me cumprimenta com um aceno cortês e familiar. Nem preciso me sentar. Poucos minutos depois, a porta de madeira maciça ao fundo se abre.

A Doutora Claire surge no batente. Ela veste um conjunto elegante em tom neutro, os cabelos grisalhos cortados em um Chanel impecável, e carrega nos olhos uma expressão de serenidade madura que me transmite um alívio imediato.

— Pode entrar, Hadasha.

Passo pela porta e sinto o som da cidade lá fora desaparecer completamente. O consultório é o meu refúgio há anos: duas poltronas de couro macio dispostas em ângulo de noventa graus, uma mesa de apoio em madeira com uma caixa de lenços, uma estante repleta de obras clássicas de psicologia e psicanálise, e uma janela grande com vista para as copas das árvores.

Fecho a porta e me sento na poltrona. Acomodo a bolsa no chão, ao lado dos meus pés, e cruzo as mãos sobre o colo. Minhas palmas estão suando.

Doutora Claire senta-se na poltrona diante da minha, ajusta os óculos de leitura no topo do nariz e me observa por alguns segundos em silêncio. Ela não segura uma prancheta de forma defensiva; mantém apenas um bloco discreto e uma caneta sobre a pequena mesa lateral.

— Que surpresa — ela começa, a voz pausada, aveludada, emitida em um tom baixo que obriga a desacelerar os batimentos cardíacos. — Não esperava vê-la fora da nossa sessão quinzenal. Como você está se sentindo hoje, Hadasha?

Respiro fundo, tentando engolir o nó que se formou na minha garganta antes de responder.

— Tensa, Doutora Claire. Extremamente tensa. Sentindo um peso insuportável no peito.

Ela inclina o corpo levemente para a frente, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona.

— O que aconteceu para acumular essa tensão?

Passo as palmas das mãos pelas pernas da calça de alfaiataria, tentando organizar o turbilhão de memórias na minha cabeça.

— No sábado... eu me encontrei com o Caleb no shopping. Eu estava com a Caroline e com os gêmeos. Ele nos viu, se aproximou e... interagiu com as crianças. Ele foi doce, Doutora. Paciente, carinhoso, brincou com eles, comprou presentes. As crianças se conectaram com ele imediatamente, sem saberem de nada.

Faço uma pausa, sentindo a minha voz vacilar.

— E hoje de manhã, por volta das oito horas, ele entrou na minha sala de trabalho. Ele não trazia a arrogância que eu estava acostumada a projetar nele. Ele parecia destruído, fragilizado, com olheiras fundas... Ele me olhou nos olhos, sem qualquer escudo, e me fez uma pergunta direta. Perguntou se Zara e Owen eram filhos dele.

A Doutora Claire permanece absolutamente imóvel. Ela não esboça surpresa, não faz julgamentos na fisionomia. Mantém a postura de quem acolhe a narrativa sem contaminá-la com reações emocionais.

— E qual foi a sua resposta a esse questionamento dele, Hadasha?

Fecho os olhos por um segundo. A lembrança do olhar de Caleb quando ouviu a minha resposta corta a minha alma.

— Eu respondi que as crianças são exclusivamente minhas. Disse a ele que o pai biológico fazia parte de um erro, de uma ilusão da minha juventude, de um passado que já não existe mais. Eu neguei a paternidade dele. Firme. Sem hesitar.

Doutora Claire pega a caneta, anota apenas duas ou três palavras no bloco de notas e volta a erguer o olhar para mim.

— E quando você pronunciou essas palavras e viu a reação dele, como você se sentiu internamente?

— Como uma trapaceira — a palavra sai rasgando a minha garganta, vindo direto do fundo da minha alma. — Me senti podre, Doutora. Me senti como se tivesse pisado em alguém que já estava caído no chão.

— O que faz você recorrer a uma palavra tão dura como 'trapaceira' para descrever a sua atitude?

— Porque eu omiti a verdade. Porque menti na cara dele quando ele estava me pedindo a verdade com os olhos.

A Doutora Claire cruza as pernas devagar, ajeitando a postura.

— Do ponto de vista técnico e analítico, Hadasha, existe uma diferença estrutural entre mentir para manipular e omitir para se proteger. Mas percebo que a sua consciência não está fazendo essa distinção técnica agora. A sua consciência está te dizendo que essa escolha de omitir está produzindo um sofrimento ético e emocional profundo dentro de você. Estou certa?

— Está — baixo a cabeça, encarando as minhas próprias mãos trêmulas. — Está doendo demais.

— Então vamos olhar para esse conflito sem o manto da culpa, mas com a clareza da análise — a voz da Doutora Claire se torna mais firme, porém profundamente humana. — Vamos voltar um pouco no tempo. Quando você descreveu o encontro no shopping, no sábado, você mencionou como o Caleb se comportou com o Owen e com a Zara. Me fale um pouco mais sobre esse Caleb que você viu no sábado.

Sorrio de forma amarga e involuntária, sentindo uma lágrima solitária escapar pelo canto do meu olho esquerdo.

— Ele... ele voltou a ser o Caleb da minha adolescência. Aquele menino que existia antes da Livi, antes da riqueza cega, antes de toda a futilidade. Quando eu era uma garota de dezessete anos, feia, nerd, tímida e rejeitada por todos na escola, o Caleb era o único que me enxergava. Ele nunca me tratou com inferioridade. Sempre conversou comigo como se eu fosse sua igual. Ele tinha um carinho genuíno por mim, um respeito que ninguém mais demonstrava.

Doutora Claire anota mais algumas linhas. Ela não tem pressa. O silêncio que ela deixa no ar é um espaço terapêutico para que eu mesma escute o que estou dizendo.

— Então me ajude a compreender o ponto de fratura nessa narrativa, Hadasha — ela diz, ajeitando as mãos sobre o colo. — Se a sua experiência estrutural com o Caleb sempre foi pautada pelo respeito e pela consideração, por que existe dentro de você uma reserva de raiva e rancor tão acumulada ao longo desses últimos cinco anos?

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