####CAPÍTULO 28

HADASHA

As duas crianças praticamente puxam o senhor Wilson pelas mãos para fora da gelateria.

— Vem! Vem depressa! Senão outra criança compra o nosso quebra-cabeça! — Owen exclama, ajustando a força dos dedinhos ao redor da mão do homem ao seu lado.

Dou uma risada baixa enquanto caminho ao lado de Caroline, acompanhando o ritmo acelerado dos passos deles pelo corredor do shopping.

— Eles não perdem tempo — murmuro.

— Você ainda não viu nada — Caroline responde, divertindo-se com a cena e lançando um olhar cúmplice na minha direção.

Entramos em uma loja completamente diferente das demais. Não há carrinhos de controle remoto, bonecas ou prateleiras cheias de brinquedos eletrônicos. O ambiente é tomado por quebra-cabeças de milhares de peças, kits de robótica infantil, jogos de lógica, experiências científicas, telescópios, microscópios e desafios matemáticos.

O senhor Wilson para por um instante logo na entrada, observando tudo ao redor com evidente surpresa.

— Eu nunca imaginei que existisse uma loja como esta — comenta.

Sorrio discretamente.

— Existe um público para ela.

Ele acompanha Zara e Owen caminhando entre as prateleiras com total desenvoltura, como se conhecessem cada corredor e cada seção daquele lugar. Depois volta a olhar para mim.

— Você compra os brinquedos deles aqui?

Assinto.

— Quase todos.

Ele arqueia uma sobrancelha, intrigado.

— Então você não compra os brinquedos que normalmente vemos nas lojas?

— Compro quando eles demonstram interesse, mas isso raramente acontece. Eles sempre preferem brinquedos que desafiem o raciocínio. Gostam de montar, desmontar, descobrir padrões, resolver problemas... desde muito pequenos eles demonstram esse interesse.

O senhor Wilson observa Owen examinando uma caixa enorme de blocos de engenharia estrutural enquanto Zara analisa um quebra-cabeça ilustrado do sistema solar.

— Eles estão em que ano da escola? — ele pergunta.

Antes que eu responda, Zara ergue a cabeça da prateleira.

— A gente já sabe ler!

O irmão completa imediatamente, sem perder o ritmo:

— E fazer conta também.

Vejo o senhor Wilson me encarar, completamente surpreso.

— Eles leem com quatro anos?

— Sim — respondo com naturalidade. — Os dois começam a ler e escrever antes dos três anos completos. Também desenvolvem raciocínio lógico e matemático muito cedo.

Ele continua olhando para as crianças, parecendo processar a informação antes de procurar as palavras certas.

— Então... eles são...

Sorrio.

— Pode dizer.

— Gênios?

Dou uma pequena risada.

— Eu prefiro dizer que possuem um desenvolvimento intelectual acima da média. Cada criança tem o próprio tempo. O deles apenas acontece de forma diferente.

O senhor Wilson passa a mão pela nuca, claramente impressionado.

— E você fala isso com uma naturalidade...

— Porque, para mim, é natural. Eles continuam sendo apenas meus filhos. Precisam de carinho, de limites, de educação e de infância como qualquer outra criança.

Ele permanece em silêncio por alguns segundos, absorvendo a minha resposta.

— Eles estudam com crianças da idade deles?

— Este ano, sim — pego uma das caixas da prateleira, ajusto a posição no expositor e volto a colocá-la no lugar. — A escola recomenda que eles avancem vários anos, mas prefiro que permaneçam com crianças da mesma faixa etária para desenvolverem a convivência social. O conteúdo acadêmico eu complemento em casa.

Quem responde antes que o senhor Wilson faça outra pergunta é Owen.

— A professora fala que a gente fica na salinha das outras crianças para aprender a brincar com elas.

Zara concorda, balançando a cabeça.

— Mas ela disse para a mamãe que a gente podia estudar com crianças grandes.

Owen continua, muito sério:

— Só que a mamãe falou que não.

Olho para o senhor Wilson, sustentando seu olhar.

— Conhecimento pode ser acelerado. Infância, não.

Ele me encara por alguns segundos. Não diz absolutamente nada, apenas guarda a frase como se ela tivesse um peso muito maior do que imaginei.

Quem quebra o silêncio é Owen.

— Aí a mamãe ensina a gente em casa.

Zara sorri.

— A gente faz as lições das crianças da nossa sala...

— E depois faz as outras — Owen intercala.

— Das crianças grandes — a irmã arremata.

O senhor Wilson sorri, completamente admirado com a sintonia dos dois.

— E vocês têm muitos amigos?

Os dois se entreolham por um instante antes de responder.

— Não muitos — Owen fala primeiro.

Zara completa:

— Alguns chamam a gente de nerd.

Meu coração aperta discretamente ao ouvir aquilo, por mais que eu já saiba como eles lidam com a situação. Owen dá de ombros, como se não se importasse.

— Aí a gente brinca junto.

— Nós só temos um amigo — Zara pondera.

— O Pedro — o irmão lembra.

Zara sorri abertamente ao pronunciar o nome.

— O Pedro nunca chama a gente de nerd.

Owen se aproxima do senhor Wilson, coloca as mãos ao lado da boca como se fosse contar um grande segredo e cochicha:

— Acho que ele está apaixonado pela Zara.

A menina arregala os olhos imediatamente.

— Não está! — cruza os braços, indignada. — Ele é meu amigo!

Ela olha para mim buscando apoio.

— Eu sou criança!

Não consigo conter a risada diante do drama da minha filha. Acaricio seus cabelos com carinho.

— Sim, meu amor. Você é criança. E vocês dois são apenas amigos.

Owen, no entanto, continua convencido da própria teoria.

— Mas ele deu um beijo na bochecha dela.

No mesmo instante, Zara abaixa a cabeça e as bochechas ficam completamente vermelhas. Caroline leva a mão à boca para esconder a risada, e até o senhor Wilson deixa escapar um sorriso diante da reação da pequena.

Enquanto observo minha filha tentando esconder o rosto corado atrás da caixa do quebra-cabeça, percebo o senhor Wilson olhando para nós com uma expressão completamente diferente da que costuma ter na empresa.

Não é a postura rígida e implacável do presidente. É apenas a atitude de um homem encantado com a espontaneidade de duas crianças e com a leveza de uma dinâmica familiar que, sem que ele perceba, começa a ganhar um espaço inesperado na sua mente.

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