HADASHA
As duas crianças praticamente puxam o senhor Wilson pelas mãos para fora da gelateria.
— Vem! Vem depressa! Senão outra criança compra o nosso quebra-cabeça! — Owen exclama, ajustando a força dos dedinhos ao redor da mão do homem ao seu lado.
Dou uma risada baixa enquanto caminho ao lado de Caroline, acompanhando o ritmo acelerado dos passos deles pelo corredor do shopping.
— Eles não perdem tempo — murmuro.
— Você ainda não viu nada — Caroline responde, divertindo-se com a cena e lançando um olhar cúmplice na minha direção.
Entramos em uma loja completamente diferente das demais. Não há carrinhos de controle remoto, bonecas ou prateleiras cheias de brinquedos eletrônicos. O ambiente é tomado por quebra-cabeças de milhares de peças, kits de robótica infantil, jogos de lógica, experiências científicas, telescópios, microscópios e desafios matemáticos.
O senhor Wilson para por um instante logo na entrada, observando tudo ao redor com evidente surpresa.
— Eu nunca imaginei que existisse uma loja como esta — comenta.
Sorrio discretamente.
— Existe um público para ela.
Ele acompanha Zara e Owen caminhando entre as prateleiras com total desenvoltura, como se conhecessem cada corredor e cada seção daquele lugar. Depois volta a olhar para mim.
— Você compra os brinquedos deles aqui?
Assinto.
— Quase todos.
Ele arqueia uma sobrancelha, intrigado.
— Então você não compra os brinquedos que normalmente vemos nas lojas?
— Compro quando eles demonstram interesse, mas isso raramente acontece. Eles sempre preferem brinquedos que desafiem o raciocínio. Gostam de montar, desmontar, descobrir padrões, resolver problemas... desde muito pequenos eles demonstram esse interesse.
O senhor Wilson observa Owen examinando uma caixa enorme de blocos de engenharia estrutural enquanto Zara analisa um quebra-cabeça ilustrado do sistema solar.
— Eles estão em que ano da escola? — ele pergunta.
Antes que eu responda, Zara ergue a cabeça da prateleira.
— A gente já sabe ler!
O irmão completa imediatamente, sem perder o ritmo:
— E fazer conta também.
Vejo o senhor Wilson me encarar, completamente surpreso.
— Eles leem com quatro anos?
— Sim — respondo com naturalidade. — Os dois começam a ler e escrever antes dos três anos completos. Também desenvolvem raciocínio lógico e matemático muito cedo.
Ele continua olhando para as crianças, parecendo processar a informação antes de procurar as palavras certas.
— Então... eles são...
Sorrio.
— Pode dizer.
— Gênios?
Dou uma pequena risada.
— Eu prefiro dizer que possuem um desenvolvimento intelectual acima da média. Cada criança tem o próprio tempo. O deles apenas acontece de forma diferente.
O senhor Wilson passa a mão pela nuca, claramente impressionado.
— E você fala isso com uma naturalidade...
— Porque, para mim, é natural. Eles continuam sendo apenas meus filhos. Precisam de carinho, de limites, de educação e de infância como qualquer outra criança.
Ele permanece em silêncio por alguns segundos, absorvendo a minha resposta.
— Eles estudam com crianças da idade deles?
— Este ano, sim — pego uma das caixas da prateleira, ajusto a posição no expositor e volto a colocá-la no lugar. — A escola recomenda que eles avancem vários anos, mas prefiro que permaneçam com crianças da mesma faixa etária para desenvolverem a convivência social. O conteúdo acadêmico eu complemento em casa.
Quem responde antes que o senhor Wilson faça outra pergunta é Owen.
— A professora fala que a gente fica na salinha das outras crianças para aprender a brincar com elas.
Zara concorda, balançando a cabeça.
— Mas ela disse para a mamãe que a gente podia estudar com crianças grandes.
Owen continua, muito sério:
— Só que a mamãe falou que não.
Olho para o senhor Wilson, sustentando seu olhar.
— Conhecimento pode ser acelerado. Infância, não.
Ele me encara por alguns segundos. Não diz absolutamente nada, apenas guarda a frase como se ela tivesse um peso muito maior do que imaginei.
Quem quebra o silêncio é Owen.
— Aí a mamãe ensina a gente em casa.
Zara sorri.
— A gente faz as lições das crianças da nossa sala...
— E depois faz as outras — Owen intercala.
— Das crianças grandes — a irmã arremata.
O senhor Wilson sorri, completamente admirado com a sintonia dos dois.
— E vocês têm muitos amigos?
Os dois se entreolham por um instante antes de responder.
— Não muitos — Owen fala primeiro.
Zara completa:
— Alguns chamam a gente de nerd.
Meu coração aperta discretamente ao ouvir aquilo, por mais que eu já saiba como eles lidam com a situação. Owen dá de ombros, como se não se importasse.
— Aí a gente brinca junto.
— Nós só temos um amigo — Zara pondera.
— O Pedro — o irmão lembra.
Zara sorri abertamente ao pronunciar o nome.
— O Pedro nunca chama a gente de nerd.
Owen se aproxima do senhor Wilson, coloca as mãos ao lado da boca como se fosse contar um grande segredo e cochicha:
— Acho que ele está apaixonado pela Zara.
A menina arregala os olhos imediatamente.
— Não está! — cruza os braços, indignada. — Ele é meu amigo!
Ela olha para mim buscando apoio.
— Eu sou criança!
Não consigo conter a risada diante do drama da minha filha. Acaricio seus cabelos com carinho.
— Sim, meu amor. Você é criança. E vocês dois são apenas amigos.
Owen, no entanto, continua convencido da própria teoria.
— Mas ele deu um beijo na bochecha dela.
No mesmo instante, Zara abaixa a cabeça e as bochechas ficam completamente vermelhas. Caroline leva a mão à boca para esconder a risada, e até o senhor Wilson deixa escapar um sorriso diante da reação da pequena.
Enquanto observo minha filha tentando esconder o rosto corado atrás da caixa do quebra-cabeça, percebo o senhor Wilson olhando para nós com uma expressão completamente diferente da que costuma ter na empresa.
Não é a postura rígida e implacável do presidente. É apenas a atitude de um homem encantado com a espontaneidade de duas crianças e com a leveza de uma dinâmica familiar que, sem que ele perceba, começa a ganhar um espaço inesperado na sua mente.