####CAPÍTULO 27

HADASHA

— Não precisa, senhor Wilson. Eu posso comprar — respondo rapidamente, tentando reter o controle da situação enquanto vejo a empolgação de Zara e Owen transbordarem pela mesa.

Ele me interrompe com um gesto sutil, inclinando ligeiramente a cabeça e sustentando o olhar com aquela firmeza calma que me desarma.

— Não. Eu faço questão, Hadasha — o tom do senhor Wilson não deixa margem para objeções. Ele volta a atenção para os dois pequenos, que já mal conseguem parar quietos nas cadeiras. — Considere um presente por terem me deixado tomar sorvete com vocês hoje e por me aceitarem tão bem na mesa.

— Eba! Um quebra-cabeça gigante! — Owen comemora de imediato, ajeitando o guardanapo de papel ao lado do prato com uma pressa repentina, esquecendo por completo a última colherada do sorvete de chocolate que começa a derreter no fundo da taça. Ele olha para mim com os olhos brilhando de expectativa. — A gente vai agora, mamãe?

— Terminem o sorvete primeiro, Owen — instruo com paciência, tentando manter a voz firme para disfarçar a agitação que consome meu peito.

Caroline permanece em absoluto silêncio ao meu lado, embora o canto da sua boca denuncie o esforço que faz para não sorrir da minha situação. Ela ajusta a postura, disfarçando enquanto toma um gole d'água, mas o olhar de cumplicidade que me lança diz tudo. Caroline acompanhou cada etapa da minha jornada: esteve ao meu lado nas consultas do pré-natal, segurou minha mão no hospital e viu de perto as noites em claro que passei tentando equilibrar fraldas, mamadeiras e livros de estudo. Ela sabe exatamente a gravidade da cena que estamos vivendo aqui.

Quando respondi ao senhor Wilson que o pai das crianças "foi um erro", notei o modo como os olhos dele se fixaram nos meus, absorvendo a declaração sem jamais suspeitar que a culpa caía diretamente sobre os seus próprios ombros. A ironia da vida é implacável. Ali está ele: ouvindo o meu passado sob uma ótica distante, admirando a criação dos próprios filhos e se oferecendo para presenteá-los, cego pela barreira do tempo e por uma história que ele sequer imagina que nos conecta.

— Bom, pelo visto a refeição principal vai ter que esperar mais um pouco — o senhor Wilson comenta de forma descontraída, limpando os lábios com o guardanapo antes de se levantar e ajeitar o paletó. — Eu conheço uma loja de brinquedos excelente no segundo piso. Eles têm uma seção inteira dedicada a jogos educativos, desafios e quebra-cabeças de todos os tamanhos.

— Eu sei qual é! — Zara se prontifica no mesmo segundo, deslizando da cadeira e ajeitando o vestidinho com as duas mãos. — Tem um urso gigante de pelúcia na frente!

— Essa mesma — ele deixa escapar uma risada curta e verdadeira, inclinando-se um pouco para garantir que Owen desça do assento com segurança.

O gesto é tão instintivo, tão naturalmente atencioso, que meu coração dá um aperto doloroso.

Caminhamos juntos pelo corredor movimentado em direção às escadas rolantes. Caroline toma a frente com as crianças, que vão apontando para as vitrines e tagarelando sem parar sobre o brinquedo que pretendem escolher. O senhor Wilson ajusta o ritmo dos seus passos para emparelhar ao meu lado. A proximidade traz de volta o aroma marcante do seu perfume amadeirado — um traço que o tempo não apagou —, criando um contraste perigoso entre o presidente implacável da empresa e o homem que caminha comigo em um sábado à tarde.

— Você fez um trabalho realmente admirável com eles, Hadasha — ele diz em um tom mais baixo, voltado apenas para mim, sem tirar os olhos de Owen e Zara. — De verdade. Quando penso em tudo o que você me contou... nas dificuldades do primeiro ano de faculdade, nas noites sem dormir... fico impressionado com a sua força.

— Eu não tinha outra escolha, senhor Wilson — respondo com serenidade, fazendo questão de manter a formalidade nas palavras, embora tocada pela sinceridade da sua voz. — Quando nos tornamos mães, a nossa própria vida passa para o segundo plano. O futuro dos meus filhos virou a minha única prioridade. Eu simplesmente não tinha o luxo de fraquejar.

Ele diminui ligeiramente o ritmo da caminhada, obrigando-me a encará-lo.

— E o pai deles... ele realmente nunca procurou por vocês? Ele não faz a menor ideia de que tem dois filhos incríveis como esses?

Sustento o olhar do senhor Wilson por alguns segundos, sentindo o peito pesar. A verdade que queima na minha garganta tenta emergir, mas a memória de tudo o que enfrentei sozinha e a necessidade imperiosa de proteger Zara e Owen me trazem de volta à realidade.

— Ele não sabe. E é muito melhor que continue assim — declaro com uma firmeza tranquila, encerrando o assunto antes que ele possa avançar. — Meus filhos têm todo o amor e a estrutura de que precisam. Eles não sentem falta do que nunca tiveram.

O senhor Wilson assente devagar, absorvendo minhas palavras com um brilho de respeito e dúvida no olhar, totalmente alheio ao fato de que cada pedaço dessa história pertence a ele.

Ao chegarmos à loja de brinquedos, Zara corre animada em direção às prateleiras coloridas da entrada, puxando Caroline pelo braço para lhe mostrar uma pelúcia. Owen, por sua vez, caminha com passos firmes e compenetrados até o fundo do estabelecimento, onde os jogos de tabuleiro e quebra-cabeças estão organizados por quantidade de peças. O senhor Wilson o segue de perto, observando impressionado enquanto meu filho analisa as caixas nas prateleiras mais altas, lendo as especificações como se estivesse avaliando um documento importante.

— Este aqui tem três mil peças — Owen aponta para uma embalagem grande com a imagem de um mapa-múndi antigo. — Mas a mamãe disse que a gente já consegue montar o de cinco mil se a gente prestar bastante atenção nas cores.

— E você acha mesmo que consegue montar um mapa desse tamanho, Owen? — o senhor Wilson pergunta, cruzando os braços e abaixando-se para ficar na altura dos olhos do garoto.

— Consigo. A Zara e eu dividimos o trabalho — Owen explica com extrema gravidade. — Ela pega todas as partes azuis, que são o oceano, e eu pego as partes coloridas, que são a terra. E a mamãe ajuda nas bordas quando chega do trabalho.

O senhor Wilson solta uma risada aberta, um som quente e espontâneo que raramente se ouve nos corredores da empresa. Ele se estica e alcança a caixa do quebra-cabeça de cinco mil peças na prateleira superior, mostrando-a para o meu filho.

— Então é este aqui que vai para a casa de vocês — ele decreta, entregando a caixa pesada nas mãos pequenas de Owen, que a segura contra o peito como se fosse o maior tesouro do mundo.

Zara se aproxima correndo, trazendo um pequeno jogo de memória nas mãos, mas assim que coloca os olhos na embalagem gigante nos braços do irmão, seus olhos brilham.

— É esse! É esse de cinco mil peças, senhor Wilson!

— Gostaram da escolha? — ele pergunta, sorrindo para os dois.

— Gostamos muito! Obrigada! — Zara exclama e, em um impulso puro de criança, dá um passo à frente e abraça a cintura do senhor Wilson.

Ele paralisa por um segundo. A surpresa do gesto inesperado fica evidente em seu rosto, mas logo em seguida ele pousa a mão com extrema delicadeza nas costas da minha filha, retribuindo o carinho de forma atenciosa.

Ver aquela cena — meus filhos interagindo com o próprio pai sem que nenhum dos três saiba a dimensão real do que está acontecendo — faz meus olhos marejarem de leve. Pisco devagar para afastar a emoção e me aproximo do grupo.

— Agradeçam adequadamente ao senhor Wilson, crianças. É um presente extremamente generoso — digo, resgatando a postura firme que ameaça se desmanchar.

— Não há necessidade de tanta formalidade, Hadasha — o senhor Wilson se levanta, ajustando o paletó e caminhando ao lado das crianças em direção ao caixa. — Foi um verdadeiro prazer. Há muito tempo eu não tinha uma tarde tão leve e agradável.

Enquanto ele realiza o pagamento no balcão, Caroline se aproxima de mim e murmura bem perto do meu ouvido:

— Hadasha... se um dia esse homem descobrir a verdade, o impacto vai ser gigantesco. Olha a forma como ele olha para essas crianças. Ele já está completamente encantado por eles.

— Eu sei, Carol — murmuro de volta, com a voz baixa e tensa, enquanto observo o senhor Wilson entregar a sacola grande para Owen com um sorriso paciente no rosto. — Eu sei exatamente o tamanho do perigo.

Nos despedimos na saída da loja. O senhor Wilson ainda se oferece para nos acompanhar até o estacionamento, mas recuso com educada firmeza, alegando que ainda pretendemos passar em uma livraria antes de ir para casa. Ele aceita a decisão sem contestar, despedindo-se de Zara e Owen com um aperto de mão sério e carinhoso, e fazendo uma breve inclinação de cabeça para mim e para Caroline.

— Tenha um bom restante de fim de semana, Hadasha. Nos vemos na empresa na segunda-feira.

— Tenha um excelente fim de semana, senhor Wilson. Até segunda-feira.

Acompanho com o olhar sua figura alta se afastar pelo corredor até desaparecer no fluxo de pessoas do shopping. Só então me permito soltar todo o ar acumulado nos pulmões, sentindo a pressão do passado voltar a pesar sobre meus ombros. Owen segura a sacola do brinquedo com um orgulho imenso, e Zara cantarola baixinho ao meu lado. Olho para os dois, prometendo a mim mesma que continuarei fazendo de tudo para proteger a paz da nossa família, por mais difícil que seja manter as barreiras erguidas na empresa.

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