CALEB
Depois de uma semana inteira dividindo meu tempo entre reuniões, contratos e decisões que não podem ser adiadas, aproveito o sábado para resolver algumas coisas pessoais. Minha intenção é almoçar no shopping, comprar algumas roupas e voltar para casa antes do final da tarde. Não marco encontro com ninguém e, pela primeira vez em vários dias, deixo de lado a necessidade de acompanhar cada mensagem que chega ao meu telefone corporativo. Quero apenas caminhar sem pressa, comer alguma coisa e fazer compras como qualquer pessoa comum.
O shopping está movimentado, como sempre acontece nos fins de semana. Famílias passeiam pelos corredores, crianças correm entre os pais e grupos de adolescentes entram e saem das lojas carregando sacolas. Observo tudo enquanto caminho em direção ao restaurante onde pretendo almoçar, mas o movimento de uma gelateria chama a minha atenção. O balcão colorido exibe uma quantidade enorme de sabores, e o aroma doce que se espalha pelo corredor me faz diminuir os passos. Ainda não almocei, mas penso que tomar um sorvete antes da refeição não será um problema.
Aproximo-me do balcão e espero atrás de uma mulher que escolhe os sabores com atenção. Ela está de costas para mim, por isso não vejo seu rosto. Apenas reparo nos cabelos e na maneira cuidadosa como segura duas taças pequenas e um copo maior depois que o atendente entrega o pedido. Ela agradece e se afasta devagar para não derrubar os sorvetes. Meu olhar a acompanha por alguns segundos, mais por distração do que por interesse, até que ela se aproxima de uma mesa onde duas crianças aguardam ao lado de outra mulher.
A menina e o menino abrem sorrisos tão grandes ao vê-la que imediatamente percebo que estão esperando por aqueles sorvetes há algum tempo. A mulher coloca uma das taças diante da garota e depois entrega a outra ao menino, recomendando que eles comam devagar para não sujarem a roupa. As crianças seguram as colherinhas e agradecem quase ao mesmo tempo.
— Obrigada, mamãe!
A palavra me faz voltar a olhar para a mulher. Existe alguma coisa na postura dela, na curva de seus ombros e na maneira como inclina a cabeça para verificar se os filhos estão bem que me parece familiar. Dou mais um passo na direção da mesa, tentando enxergar seu rosto, mas ela continua de costas para mim enquanto coloca o próprio copo de sorvete diante da cadeira vazia.
— Hadasha?
O corpo dela fica rígido no mesmo instante. Hadasha permanece alguns segundos sem se mover, como se precisasse se preparar antes de confirmar que realmente sou eu. A mulher sentada à mesa interrompe a conversa com a menina e olha primeiro para mim, depois para ela. Hadasha inspira lentamente, endireita a coluna e se vira com uma tranquilidade que não combina com a tensão que percebo em seus ombros.
— Olá, senhor Wilson. Tudo bem?
A formalidade com que me recebe é a mesma que utiliza na empresa, mas, naquele momento, não consigo me preocupar com a distância que ela insiste em manter. Meu olhar se volta imediatamente para as duas crianças sentadas à mesa. Elas continuam comendo os sorvetes enquanto me observam com curiosidade, especialmente a menina, que não disfarça o interesse em descobrir quem sou.
— Tudo bem — respondo, ainda olhando de Hadasha para as crianças. — Você tem filhos?
Ela não demonstra constrangimento nem tenta fugir da pergunta. Apenas lança um olhar carinhoso para os dois antes de voltar a me encarar.
— Sim, senhor Wilson. Eu tenho.
A resposta simples me surpreende mais do que deveria. Durante os dias em que convivemos na empresa, Hadasha nunca menciona os filhos. Eu sei que ela se mudou, concluiu os estudos e construiu uma carreira impressionante em apenas cinco anos, mas não imagino que, além de tudo isso, tenha se tornado mãe. Olho novamente para as crianças e noto que são muito parecidas entre si. A menina tem os cabelos presos e olhos atentos; o menino segura a colher com uma das mãos enquanto tenta impedir que o sorvete escorra pela lateral da taça.
— Você se casou?
Hadasha balança a cabeça de forma tranquila.
— Não, senhor Wilson. Eu não me casei. Sou mãe solo.
Por alguma razão que não consigo compreender, a informação me provoca uma sensação estranha. Talvez porque eu jamais tenha imaginado a vida que Hadasha constrói longe de mim. Enquanto eu passo esses anos concentrado na empresa, acreditando que ela seguiu um caminho completamente diferente do meu, ela conclui a faculdade, desenvolve um projeto brilhante e cria duas crianças. Não existe qualquer traço daquela adolescente insegura que conheço no passado. A mulher diante de mim sustenta o próprio olhar com firmeza e fala sobre a maternidade com orgulho.
Ela se afasta um pouco para que eu veja melhor os dois.
— Estes são os meus filhos. Esta é Zara e este é Owen.
— Meus filhos são gêmeos — acrescenta, antes que eu precise perguntar.
Zara abre um sorriso e ergue a mão em um cumprimento. Owen faz o mesmo, embora continue segurando a colher na outra mão. Aproximo-me da mesa, ainda surpreso com a descoberta, e observo melhor os dois. São crianças lindas, educadas e cheias de vivacidade. Não consigo deixar de pensar que Hadasha parece ter feito um excelente trabalho ao criá-las.
— Meu Deus, seus filhos são lindos.
Um sorriso genuíno surge no rosto dela.
— Obrigada.
Zara continua me olhando, sem a menor intenção de esconder a curiosidade. Depois de alguns segundos, inclina-se em direção à mãe e pergunta em uma voz que todos à mesa conseguem ouvir:
— Quem é ele, mamãe? É seu amigo?
Hadasha abre a boca para responder, mas a menina não espera.
— Seu amigo é muito bonito. Oi, moço bonito.
A espontaneidade dela arranca uma risada de mim. Abaixo-me para ficar na mesma altura da garota, que segura a colher de sorvete com uma mão e estende a outra em minha direção como se estivesse sendo apresentada em uma reunião importante.
— E você é linda. Uma garotinha muito educada. Parabéns. Eu sou Caleb.
Ela aperta minha mão com seriedade, embora o sorriso continue iluminando seu rosto.
— Eu sou Zara.
Antes que ela diga mais alguma coisa, Owen se inclina sobre a mesa. Evidentemente, não pretende deixar que a irmã conduza toda a conversa sozinha.
— Eu não acho homem bonito — declara, com tanta convicção que preciso conter outra risada. — Mas achei você legal. Eu sou Owen.
Estendo a mão para ele também.
— Muito prazer, Owen. Ser considerado legal por você parece um grande elogio.
— É mesmo — responde, voltando a comer o sorvete como se o assunto estivesse resolvido.
Hadasha leva a mão à boca, tentando esconder o sorriso, enquanto a amiga dela ri abertamente. As duas crianças parecem completamente à vontade, e a naturalidade com que conversam comigo me surpreende.
— Não costumo passar tempo com crianças e não sei exatamente como agir perto delas, mas Zara e Owen tornam tudo simples.
Eles dizem o que pensam sem qualquer preocupação e me observam como se estivéssemos nos conhecendo em circunstâncias comuns.
— Vocês acabaram de sair do cinema? — pergunto, percebendo os copos de refrigerante e uma pequena caixa de pipoca sobre uma das cadeiras.
— Sim! — Zara responde com entusiasmo. — Nós assistimos a um filme muito legal.
— Tinha muita aventura — Owen acrescenta. — E a mamãe deixou a gente comer pipoca grande.
— A pipoca era para ser dividida entre todos — Hadasha esclarece.
— Mas vocês dois praticamente não deixaram nada para mim e para Caroline.
Somente então Hadasha apresenta a mulher sentada ao lado das crianças.
— Esta é Caroline, minha amiga.
Caroline sorri e estende a mão.
— Prazer, senhor Wilson.
— Caleb, por favor. Fora da empresa, não precisamos de tanta formalidade.