HADASHA
Ele caminha até o balcão da gelateria enquanto puxo o ar com força, tentando acalmar a tempestade que devasta o meu peito. A presença de Caleb ali, fora da bolha corporativa e interagindo com a naturalidade de quem pertence ao nosso mundo, me desestabiliza por completo. Observo sua figura elegante se aproximar do balcão, o terno impecável contrastando com a atmosfera descontraída do shopping. O pavor de que uma única faísca de lembrança acenda na mente dele faz minhas mãos tremerem sob a mesa.
— Você pirou? — o sussurro de Caroline vem como uma chicotada no meu ouvido, embora ela não mude nem um milímetro da postura sorridente. — Hadasha, o pai dos seus filhos está literalmente comprando um sorvete para sentar com a gente. Se o Owen der aquele sorriso de lado mais uma vez, ele vai ligar os pontos!
— Ele não sabe, Caroline. Na cabeça dele, isso é uma coincidência absurda e nada mais — respondo num murmúrio imperceptível, sem mover os lábios, mantendo os olhos fixos na taça de sorvete de morango da Zara. — O Caleb me considera uma página virada do passado dele. Para ele, eu simplesmente continuei minha vida e tive filhos com outra pessoa. Ele não faz ideia.
— Ainda assim... isso é jogar com fogo — Caroline murmura de volta, ajeitando a postura no exato momento em que os passos firmes dele anunciam seu retorno.
Caleb aproxima-se da mesa segurando um copo pequeno de gelato de café. Ele puxa a cadeira vaga ao lado de Caroline, bem em frente a Owen e Zara, e pede licença com um gesto nobre antes de se acomodar. O espaço entre nós, que antes parecia seguro, de repente se reduz a quase nada. O cheiro do seu perfume amadeirado — o mesmo que me assombrava nos corredores do colégio — preenche o ar e faz minhas lembranças mais profundas ameaçarem vir à tona.
— E então, pessoal... — Caleb começa, apoiando os antebraços na mesa e direcionando toda a sua atenção para os meus filhos, com uma genuína fascinação no olhar. — Vocês já escolheram os sabores preferidos de vocês?
— O meu é de morango! — Zara anuncia com orgulho, erguendo a colher lambuzada. — É o melhor de todos! A mamãe sempre deixa eu escolher morango quando a gente assiste filme.
— E o meu é chocolate, óbvio — Owen completa, com a boca manchada e aquele arzinho compenetrado que é a cópia exata do homem sentado à sua frente. — Homem gosta de chocolate amargo. O vovô me ensinou.
Caleb solta uma risada curta, o olhar brilhando de um jeito que faz meu estômago dar nós apertados. Ele observa as sobrancelhas de Owen se franzirem, a forma como o meu filho segura a colher, e depois desvia os olhos para mim por uma fração de segundo.
— Chocolate amargo é uma excelente escolha, Owen — Caleb diz, mantendo o tom respeitoso e divertido. — E me digam uma coisa... vocês já estão na escola ou ainda aproveitam as férias?
— A gente estuda na escola grande agora! — Zara toma a palavra, tagarela como sempre. — Mas a gente acabou de voltar da fazenda do vovô e da vovó. O vovô levou a gente para pescar e eu vi um cavalo branco!
— Um cavalo branco? Que incrível, Zara. E você, Owen, pescou muitos peixes?
— Pesquei três! — Owen responde, estufando o peito. — Mas o vovô disse que eu preciso ficar mais forte para pegar os peixes grandes. Por isso eu tomo todo o meu leite de manhã.
— Está certíssimo. Para ser um grande pescador, precisa de muita energia — Caleb comenta, sorrindo abertamente para o garoto.
A facilidade com que ele se conecta com eles é devastadora. Caleb nunca foi o tipo de homem que demonstrava grande familiaridade com crianças no passado, mas ali, ouvindo Zara contar sobre os animais da fazenda e Owen explicar suas táticas de pesca, ele parece absolutamente entregue. Há uma doçura em seus gestos, um cuidado no tom de voz que toca exatamente onde dói mais.
Caleb dá uma colherada em seu sorvete e, como quem junta dados sem nenhum alarde, faz a pergunta que eu tanto temia:
— E quantos anos vocês têm, afinal? Pelo tamanho, parecem bem espertos.
Zara e Owen levantam as mãozinhas ao mesmo tempo, mostrando quatro dedinhos lambuzados.
— Quatro anos! — respondem em coro.
O tempo parece congelar na gelateria.
Vejo o momento exato em que a informação atinge Caleb. Ele olha para os dedinhos esticados das crianças, pisca devagar e depois ergue os olhos na minha direção. O sorriso no rosto dele vacila por uma fração de segundo. Sei exatamente o cálculo que está sendo feito dentro da sua mente naquele momento: quatro anos de idade significa que eles nasceram cerca de nove meses após a nossa última noite juntos, a noite do baile de formatura.
Meu coração dispara a uma velocidade assustadora. Sinto o sangue fugir do meu rosto, mas obrigo meus músculos a permanecerem firmes, sustentando o olhar dele sem transparecer o pavor que me consome por dentro.
Caleb inclina ligeiramente a cabeça, a expressão tornando-se subitamente analítica. Ele observa os olhos de Zara, o formato do queixo de Owen, e depois volta a me encarar. A dúvida surge ali, como uma névoa espessa no ar, mas a lógica engessada do passado ainda o impede de aceitar o óbvio. Na mente dele, eu o odiava, eu havia ido embora sem olhar para trás, e a probabilidade de eu ter escondido uma gravidez de gêmeos pareceria absurda para qualquer um na posição dele.
— Quatro anos... — ele repete, a voz saindo um pouco mais baixa, quase um pensamento falado em voz alta. — Vocês já são bem grandes.
— É! A gente já sabe até contar até cinquenta! — Zara comemora, totalmente alheia à tensão que se instalou entre os adultos.
Caleb limpa a garganta, desconfortável pela primeira vez desde que se sentou à mesa. Ele ajeita a postura na cadeira e olha para mim, o olhar carregado de perguntas não formuladas, de uma curiosidade profunda que transcende o ambiente corporativo.
— O tempo realmente voa, Hadasha — ele diz, a voz impregnada de uma intensidade que me faz enrijecer. — Quatro anos é bastante tempo. Parece que foi ontem que estávamos todos terminando o colégio.
— É verdade, senhor Wilson — respondo com uma serenidade fria e cirúrgica, reforçando o título formal para erguer a barreira entre nós novamente. — O tempo passa rápido, mas cada fase traz suas próprias bênçãos e responsabilidades. Minha prioridade sempre foi e sempre será a criação dos meus filhos.
Caroline me encara de canto de olho, soltando um suspiro imperceptível de alívio com a minha resposta dura, enquanto Caleb engole em seco ao ouvir o "senhor Wilson" soar tão distante no meio daquele momento familiar.
— Imagino que sim — ele murmura, terminando seu sorvete de forma rápida, nitidamente abalado pela descoberta, mas tentando manter a postura de cavalheiro. — Bom, eu não quero atrapalhar mais o passeio de vocês.
Ele se levanta da cadeira, ajustando o paletó do terno. Ajeita a postura, olha para as crianças com um carinho genuíno que me aperta o peito e se abaixa ligeiramente para se despedir.
— Foi um prazer enorme conhecer vocês, Zara e Owen. Vocês são crianças incríveis.
— Tchau, moço bonito! — Zara acena com a mãozinha.
— Tchau, Caleb. Quando eu for pescar de novo, te conto se peguei um peixe maior — Owen diz, soltando um sorriso raro que é a imagem esculpida do pai.
Caleb sorri para os dois, visivelmente tocado pela despedida. Depois, ele se vira para Caroline, fazendo uma breve inclinação de cabeça em sinal de respeito, e por fim crava seus olhos escuros nos meus. A intensidade do seu olhar é quase palpável, cheia de mistério, surpresa e uma dúvida dolorosa que sei que não morrerá aqui.
— Com sua licença, Hadasha. Nos vemos na empresa na segunda-feira.
— Tenha um bom fim de semana, senhor Wilson — respondo, mantendo a voz firme e o sorriso educado no rosto.
Acompanho com os olhos enquanto ele se afasta a passos largos pelo corredor do shopping, sumindo entre as pessoas. Só quando a figura dele desaparece por completo é que me permito soltar todo o ar armazenado em meus pulmões, deixando o corpo afundar ligeiramente contra o encosto da cadeira.
Caroline se inclina para a frente na mesma hora, me encarando com os olhos arregalados.
— Meu Deus do céu, Hadasha... Ele olhou para eles e fez a conta. Ele fez a conta na sua frente!
Olho para Zara e Owen, que voltam a disputar quem termina o sorvete primeiro, completamente alheios à tempestade que acabou de passar por nós.
— Ele pode ter feito a conta, Caroline — murmuro baixinho, tocando suavemente os cabelos da minha filha —, mas a dúvida não é suficiente para mudar nada. A segunda-feira vai chegar, e eu continuarei sendo apenas a gerente do projeto dele. Nada mais.