####CAPÍTULO 26

Enquanto aperto a mão dela, percebo o rápido olhar que troca com Hadasha. Há alguma coisa naquela comunicação silenciosa que não compreendo, mas Hadasha imediatamente volta a atenção para os filhos, limpando com um guardanapo uma pequena gota de sorvete que cai sobre a mão de Owen.

— Você vai tomar sorvete também? — Zara pergunta.

— Eu estava pensando nisso.

— Então tome com a gente — ela convida, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Tem cadeira.

Olho para Hadasha. Ela permanece imóvel, talvez esperando que eu recuse e siga meu caminho. No entanto, não sinto qualquer vontade de ir embora. A surpresa de encontrá-la ali e descobrir aquela parte desconhecida de sua vida desperta em mim uma curiosidade que não consigo ignorar. Além disso, gosto da espontaneidade das crianças.

— Eu ia almoçar e depois fazer algumas compras, mas acho que posso tomar um sorvete com vocês antes.

Zara comemora, e Owen concorda com um movimento sério de cabeça, como se tivesse acabado de aprovar uma decisão importante. Volto ao balcão, faço meu pedido e retorno alguns minutos depois. Antes de me sentar, olho novamente para Hadasha.

— Posso?

— Claro, senhor Wilson.

Puxo a cadeira vazia ao lado de Owen e me acomodo. A mesa fica um pouco apertada com cinco pessoas, mas ninguém parece se importar. Hadasha, no entanto, continua mantendo a postura controlada, como se cada gesto meu precisasse ser acompanhado com atenção. Ela segura a colher, mas quase não toca no sorvete. Sua concentração permanece dividida entre as crianças e a minha presença.

— Quantos anos vocês têm? — pergunto.

— Quatro — os dois respondem juntos.

Zara levanta quatro dedos para confirmar, enquanto Owen faz o mesmo logo depois. Olho para eles e depois para Hadasha. Quatro anos. Isso significa que ela engravida pouco tempo depois de se mudar. Não faço qualquer cálculo mais profundo porque não encontro motivo para isso. Apenas penso no quanto sua vida muda em tão pouco tempo. Enquanto conclui os estudos e desenvolve aquele projeto, ela também cuida de dois bebês praticamente sozinha.

— E vocês sempre respondem tudo ao mesmo tempo?

— Quase sempre — Caroline responde, sorrindo. — Eles também fazem perguntas ao mesmo tempo, discutem ao mesmo tempo e pedem comida ao mesmo tempo.

— Mas eu sou mais velha — Zara informa.

— Só por alguns minutos — Owen protesta.

— Continua sendo mais velha.

— Não manda em mim.

— Eu não estou mandando.

— Está sim.

Hadasha apoia os cotovelos sobre a mesa e olha para os dois com firmeza. Não precisa elevar a voz. Basta um único olhar para que as crianças interrompam a discussão.

— Sorvete — ela diz calmamente.

Os dois voltam a comer sem reclamar. Não consigo evitar um sorriso ao perceber a autoridade tranquila que ela exerce sobre eles. Não é uma mãe impaciente nem permissiva. Hadasha presta atenção a cada movimento dos filhos, mas permite que eles conversem e expressem suas opiniões. Quando precisa corrigi-los, faz isso sem humilhá-los ou criar um escândalo.

— Eles são sempre assim? — pergunto.

— Na maior parte do tempo, sim. Mas são ótimas crianças.

— Nós somos mesmo — Owen confirma.

— Muito humildes também — Caroline acrescenta, fazendo Hadasha rir.

Observo aquele sorriso por alguns segundos. É diferente do sorriso formal que ela oferece nas reuniões. Aqui, cercada pelos filhos e pela amiga, Hadasha parece relaxada, embora a minha presença ainda provoque certa tensão. Os últimos cinco anos transformam completamente a adolescente que conheço. Ela não é mais a garota que se esconde atrás dos livros e abaixa a cabeça quando alguém a observa. Torna-se uma mulher segura, profissional e, agora percebo, uma mãe dedicada.

Zara começa a me fazer perguntas sobre o meu sorvete, querendo saber quais sabores escolho. Owen pergunta que tipo de carro eu tenho e se ele é rápido. Respondo aos dois, rindo das mudanças repentinas de assunto. Em poucos minutos, eles me incluem na conversa como se me conhecessem há muito mais tempo. Não existe desconfiança nem timidez, apenas a curiosidade natural de duas crianças que querem entender quem é o homem que a mãe chama de senhor Wilson.

— Por que a mamãe chama você de senhor? — Owen pergunta.

Hadasha deixa a colher cair dentro do copo com um ruído discreto.

— Porque ele é meu chefe — responde antes que eu fale.

— Então você manda na mamãe? — Zara arregala os olhos.

— Não exatamente.

— Ele é o dono da empresa onde eu trabalho — Hadasha explica.

Owen me observa com renovado interesse.

— Você é rico?

Caroline engasga com o sorvete, e Hadasha fecha os olhos por um instante.

— Owen, não se pergunta isso às pessoas.

— Mas ele é?

— Isso não importa.

— Eu só queria saber.

— Eu tenho uma empresa — respondo, poupando Hadasha de continuar a explicação.

Ele parece satisfeito.

— Então você deve trabalhar muito.

— Trabalho.

— A mamãe também. Mas agora ela chega mais cedo.

O comentário faz Hadasha olhar imediatamente para o filho.

— Coma o seu sorvete antes que derreta.

Owen obedece, sem perceber qualquer problema no que diz. Eu, porém, volto a encarar Hadasha. Pela primeira vez, entendo que o salário e a posição que conquista na empresa significam mais do que crescimento profissional. Ela precisa sustentar duas crianças, pagar escola, alimentação, saúde e todas as demais despesas de uma família. Isso torna sua determinação ainda mais admirável.

A conversa continua por alguns minutos. Zara fala sobre o filme, Owen descreve uma cena de ação e Caroline faz comentários que provocam risadas nas crianças. Hadasha participa, mas permanece vigilante. Sempre que nossos olhares se encontram, ela desvia primeiro, concentrando-se nos filhos ou no próprio sorvete. Não consigo saber se está desconfortável por eu ter descoberto que é mãe ou se simplesmente teme que faça perguntas demais.

Eu não suspeito de nada além do que ela me conta. Apenas tento assimilar que Hadasha constrói uma vida inteira longe de mim. Tem dois filhos, uma carreira brilhante e uma amiga que parece conhecer todos os seus segredos. Sua vida não para quando se afasta. Ao contrário, ela amadurece, enfrenta responsabilidades enormes e retorna muito mais forte do que era.

Quando Zara começa a contar novamente uma parte do filme, Caroline ergue os olhos para Hadasha. Espera até que as crianças estejam distraídas comigo e movimenta os lábios sem emitir qualquer som:

— Você está ferrada.

Hadasha aperta a colher com tanta força que seus dedos ficam brancos. Ela lança um olhar severo para a amiga, pedindo silenciosamente que pare, mas Caroline apenas esconde o sorriso atrás do copo de sorvete.

Não percebo a troca completa entre as duas. Estou ocupado ouvindo Owen explicar por que acredita que o herói do filme toma uma decisão errada. Ainda assim, quando volto a olhar para Hadasha, noto que ela parece mais tensa do que antes.

Não imagino o motivo.

Muito menos imagino que aquele encontro aparentemente comum está prestes a mudar tudo.

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