CALEB
O investidor alemão decidiu transformar a minha manhã em um verdadeiro quebra-cabeça operacional. A reunião de emergência foi convocada de última hora, exatamente dez minutos antes do compromisso principal agendado na minha agenda corporativa: a apresentação oficial da nova contratada que virou o assunto definitivo nos corredores da Mobility & Energy Harris Group durante os últimos dias.
Desde a semana passada, a diretoria executiva não fala em outra coisa. O projeto desenvolvido por essa jovem prodígio na universidade causou tamanha comoção técnica que o conselho aprovou, por unanimidade e em tempo recorde, a assinatura de um contrato de licenciamento exclusivo antes mesmo de ela receber o diploma.
Normalmente, eu faria questão de analisar pessoalmente cada linha do currículo e do histórico de qualquer profissional cotado para assumir uma gerência estratégica deste porte. No entanto, o ritmo alucinante das viagens internacionais e a confiança absoluta que tenho na banca de diretores que escolhi a dedo para gerir a companhia me fizeram abrir uma exceção. Se a minha equipe técnica atestou que ela era impecável, eu não tinha motivos para duvidar. Preferi aguardar para conhecer a mente por trás do projeto na própria reunião de apresentação.
Ajeito o nó da gravata enquanto percorro o corredor silencioso do último andar, tentando afastar a irritação da ligação com a Alemanha. O investidor exigiu alterações complexas no cronograma da nova unidade industrial e, como se a pressão do trabalho não bastasse, minha cabeça ainda carrega o peso de uma discussão completamente estressante com a Lívia logo cedo.
Ela tem uma capacidade quase artística de criar problemas onde não existe absolutamente nada. Antes mesmo de eu colocar os pés fora de casa, precisei administrar mais uma crise desnecessária provocada por seus ciúmes infundados e cobranças sufocantes. Sinceramente, não tenho espaço mental nem energia para lidar com a imaturidade de Lívia esta manhã.
Seguro a maçaneta da sala de reuniões, alinho a postura com a autoridade que o cargo exige e empurro a porta pesada de madeira.
Todos os diretores já estão devidamente acomodados ao redor da imensa mesa oval.
— Bom dia, senhores — cumprimento com tom neutro e grave.
As respostas ecoam em coro pelo ambiente de maneira imediata e respeitosa. Caminho a passos largos até a cabeceira da mesa, o ponto central do poder naquela sala, e acomodo minha pasta sobre a madeira polida antes de me sentar.
— Peço desculpas pelo pequeno atraso. Um investidor de Londres insistiu em concluir uma ligação crucial antes de eu subir. Era um assunto operacional que não podia aguardar.
Ajeito o corpo na poltrona executiva de couro, abro o notebook e começo a acessar rapidamente a pasta com as planilhas e os relatórios financeiros do trimestre. Enquanto ajusto o foco da tela, escuto o som da voz de Andrew Collins assumindo a condução do encontro.
— Senhor presidente, antes de iniciarmos oficialmente a pauta do dia, gostaria de concluir a apresentação da nossa mais nova Gerente de Inteligência Financeira e Planejamento Estratégico.
Sem erguer os olhos da tela do computador, faço um gesto sutil com a mão.
— Fique à vontade, Andrew.
Continuo concentrado nos números e nos gráficos projetados diante de mim, ouvindo apenas o fundo da explicação do diretor de RH.
— Como todos sabem, a empresa firmou um contrato de licenciamento exclusivo para a utilização do projeto vencedor do concurso nacional universitário. Trata-se de uma solução revolucionária, capaz de otimizar processos administrativos e identificar gargalos operacionais sem comprometer a produtividade das nossas unidades.
Minha atenção continua dividida. Faço alguns anotações rápidas na margem de um documento digitalizado, registrando as ponderações do investidor, até que a voz de Andrew ganha um tom solene ao pronunciar o nome da profissional.
— Tenho a imensa satisfação de apresentar oficialmente a senhorita Hadasha Johnson Smith.
O mundo simplesmente para.
Minhas mãos travam sobre o teclado do notebook no mesmo milissegundo. O som das teclas desaparece. O ruído suave do ar-condicionado central deixa de existir.
Não... Meu Deus, não... Não pode ser.
Um arrepio gélido e violento percorre toda a minha espinha, fazendo cada músculo do meu corpo enrijecer instantaneamente. Sinto uma pressão esmagadora no peito, como se o ar tivesse sido arrancado do ambiente sem qualquer aviso.
Cinco anos.
Cinco longos e tortuosos anos sem absolutamente nenhuma notícia. Cinco anos em que enfrentei um silêncio cruel e inexplicável. Cada mensagem que enviei voltou sem resposta. Todos os números de telefone deixaram de existir do dia para o noite. Qualquer tentativa de procurá-la nos locais que ela frequentava ou de descobrir para onde havia mudado terminou em portas fechadas e num absoluto fracasso. Ela simplesmente apagou qualquer rastro, me banindo da sua vida como se eu nunca tivesse significado nada.
Hadasha.
O simples som desse nome ainda tem a capacidade aterradora de desestabilizar o meu mundo e fazer o meu sangue congelar.
Lentamente, numa luta dolorosa contra o meu próprio corpo que parece recusar a obedecer, ergo a cabeça.
Ela está ali.
De pé, perto do centro da mesa, rodeada pelos executivos mais poderosos do grupo.
A poucos metros de mim.
A respiração me falta completamente. Ela está diferente. Irreconhecível e, ao mesmo tempo, dolorosamente familiar.
Os cabelos que antes viviam presos de maneira despretensiosa em coques rápidos agora caem soltos sobre os ombros, cortados em um estilo moderno e fluido que emoldura perfeitamente os traços marcantes do seu rosto. Os óculos de grau continuam ali, mas a nova armação sofisticada realça a profundidade do seu olhar em vez de escondê-lo. A maquiagem é leve, impecável. O terno de alfaiataria perfeitamente ajustado ao seu corpo substituiu para sempre os moletons largos e confortáveis que ela insistia em usar na época da escola.
Meu Deus... Como ela está deslumbrante.
Por alguns segundos aterrorizantes, a sala de reuniões inteira se dissolve. Esqueço a presença do conselho. Esqueço o investimento internacional. Esqueço a empresa, o peso da responsabilidade e as aparências. Não existe mais nada ao redor além da mulher parada diante de mim.
A palavra escapa do fundo da minha garganta antes que a minha razão consiga travá-la, saindo crua, rouca e vulnerável:
— Hadasha...
Ela ergue os olhos devagar. O olhar dela cruza com o meu através do espaço que nos separa, e vejo o instante exato em que o reconhecimento a atinge. O choque estampado na sua expressão é um espelho perfeito da minha própria incredulidade. Os lábios dela se entreabrem num sobressalto silencioso.
— Caleb...
O silêncio que se instala na sala é sufocante. A eletricidade no ar é tão densa que qualquer um ali seria capaz de cortar com uma lâmina.
Andrew, visivelmente surpreso pela quebra abrupta do protocolo e pelo tom daquela troca de olhares, pisca algumas vezes, alternando a atenção entre mim e a mulher no centro da sala.
— Vocês... já se conhecem?
Faço um esforço descomunal para recuperar o controle. Desvio o olhar de Hadasha apenas o necessário para responder ao diretor, sentindo a garganta seca.
— Sim — minha voz volta, ainda grave, mas envelopada por uma tentativa desesperada de tom profissional. — Nós fomos amigos de infância e adolescência.
Ao redor da mesa, os diretores trocam olhares curiosos. Andrew sorri, aliviado ao tentar transformar a tensão em uma mera coincidência agradável.
— Que surpresa fascinante! E você não sabia que a nossa nova contratada prodígio era justamente a sua amiga de anos, presidente?
Balanço a cabeça para os lados de forma contida.
— Não.
Com um movimento calmo e deliberado, baixo a tela do notebook até fechá-lo por completo, apoiando as mãos sobre a madeira.
— Eu confiei integralmente no processo seletivo e na avaliação técnica da diretoria. Sei da competência absoluta de cada profissional nesta mesa e tinha certeza de que jamais cometeriam um erro na escolha de alguém para um cargo tão vital. Quando vocês começaram a comentar sobre o talento da nova gerente, preferi aguardar o primeiro dia para conhecê-la pessoalmente.
Volto meus olhos para ela. O meu peito ainda martela contra as costelas numa velocidade descontrolada. É irreal ver aquela garota — a garota por quem procurei sem parar — sentada à minha mesa, ocupando um espaço no meu império.
— Confesso que a última pessoa que eu esperava encontrar nesta sala hoje... era justamente alguém de quem não tenho notícias há cinco anos.
Hadasha não recua. Ela me encara diretamente, o rosto totalmente rígido, desprovido de qualquer sorriso ou fragilidade. Nenhuma demonstração de surpresa residual, nenhuma chama de afeto, nenhuma alegria reencontrada. Apenas uma postura profissional impecável, fria e inabalável.
Ela ergueu um muro inexpugnável entre nós. O mesmo muro de gelo que colocou naquela noite de formatura, quando sumiu do meu alcance.
Ela abre a boca para falar. Mas o meu nome não sai de seus lábios.
Olhando nos meus olhos com uma formalidade cirúrgica que corta o meu peito como uma lâmina afiada, ela pronuncia:
— Para mim também foi uma surpresa, senhor Wilson.
As duas palavras reverberam no meu cérebro como um golpe devastador.
Senhor Wilson.
Não Caleb. Não o seu melhor amigo. Não o garoto que dividia confidências e madrugadas com ela. Apenas o presidente. Apenas o homem de terno na cabeceira da mesa.
Antes que eu consiga assimilar o peso do golpe ou articular qualquer resposta, Hadasha desvia o olhar com absoluta indiferença, voltando a sua atenção para o restante do conselho como se eu fosse apenas uma peça decorativa na sala.
— Com a licença dos senhores — ela diz com tom firme, ajustando a pasta diante de si —, posso dar início à apresentação técnica do meu projeto?
Observo os diretores assentirem prontamente, enquanto ela assume o controle do ambiente com uma elegância e uma autoridade invejáveis.
Sentado na minha cadeira de presidente, ouvindo a voz dela preencher o espaço, compreendo com uma clareza dolorosa que o tempo não apagou absolutamente nada. Cinco anos não foram suficientes para diminuir o abismo entre nós. A mágoa e a ferida do passado continuam perfeitamente vivas dentro dela... e a distância entre nós dois nunca foi tão grande.