Mundo de ficçãoIniciar sessãoCALEB
O investidor alemão simplesmente decide transformar a minha manhã em um verdadeiro quebra-cabeça. A reunião de emergência é marcada apenas dez minutos antes da apresentação da nova profissional que a empresa contratou. Desde a semana passada, não se fala em outra coisa pelos corredores da Mobility & Energy Harris Group. O projeto desenvolvido por aquela jovem administradora impressionou toda a diretoria, a ponto de a empresa licenciar sua patente antes mesmo de sua formatura. Normalmente, eu analisaria pessoalmente o currículo de alguém que ocuparia um cargo estratégico. Desta vez, não foi necessário. Confio plenamente na competência dos diretores que escolhi para compor esta empresa. Se eles aprovaram a contratação por unanimidade, sei que fizeram a escolha certa. Enquanto caminho pelo corredor em direção à sala de reuniões, minha mente continua presa ao telefonema que acabei de encerrar. O investidor alemão antecipou algumas exigências para a implantação da nova unidade industrial, alterando detalhes importantes do cronograma. Como se isso não bastasse, ainda preciso administrar outra preocupação. Liv. Balanço discretamente a cabeça. Ela consegue criar problemas onde não existem. Às vezes tenho a impressão de que sua maior habilidade é transformar uma situação simples em uma discussão desnecessária. Antes mesmo de sair de casa, já precisei administrar mais uma crise causada por seu ciúme exagerado. Sinceramente... Não tenho energia para pensar nisso agora. Abro a porta da sala de reuniões. Todos já estão acomodados ao redor da mesa. — Bom dia. Os cumprimentos são imediatos. — Bom dia, presidente. — Bom dia. — Bom dia, senhor Wilson. Sigo até a cabeceira da mesa. — Peço desculpas pelo pequeno atraso. Precisei atender uma ligação de um investidor alemão. Era um assunto que não podia esperar. Enquanto me sento, abro o notebook e acesso imediatamente os relatórios que estavam separados para a reunião. Ainda concentrado na tela, escuto Andrew Collins retomar a apresentação. — Senhor presidente, antes de iniciarmos a pauta do dia, gostaria de concluir a apresentação da nossa mais nova gerente de Inteligência Financeira e Planejamento Estratégico. Faço um discreto movimento afirmativo com a cabeça. — Fique à vontade. Continuo analisando os números projetados na tela do computador. Andrew prossegue. — Como todos sabem, a empresa firmou um contrato de licenciamento para utilização do projeto vencedor do concurso nacional universitário. Um trabalho inovador que permitirá significativa redução de custos operacionais e otimização dos nossos processos administrativos. Ouço apenas parte da explicação. Minha atenção continua dividida entre os relatórios financeiros e os apontamentos feitos pelo investidor alemão. Até que Andrew pronuncia um nome. — Tenho a satisfação de apresentar oficialmente a senhorita Hadasha Johnson Smith. Meu corpo inteiro paralisa. Por um instante, tenho a impressão de ter ouvido errado. Não... Não pode ser... Cinco anos. Cinco anos sem qualquer notícia. Cinco anos tentando encontrá-la. Cinco anos em que todas as mensagens voltaram sem resposta, todos os telefones deixaram de existir e qualquer tentativa de descobrir para onde ela havia ido terminou em absoluto fracasso. Hadasha. Esse nome ainda tem o poder de desestabilizar completamente os meus pensamentos. Levanto lentamente a cabeça. E o mundo parece simplesmente parar. Ela está ali. De pé. A poucos metros de mim. Está diferente. Muito diferente. Os cabelos, antes sempre presos de maneira despretensiosa, agora caem delicadamente sobre os ombros, com um corte moderno que valoriza ainda mais seu rosto. Os óculos continuam presentes, mas a nova armação destaca seus olhos em vez de escondê-los. A maquiagem é leve, elegante. O tailleur de alfaiataria substituiu completamente os moletons largos que ela insistia em usar durante o ensino médio. Meu Deus... Como ela está linda. Durante alguns segundos, simplesmente esqueço que existe uma sala cheia de diretores ao nosso redor. Esqueço a reunião. Esqueço o investidor. Esqueço absolutamente tudo. Só consigo olhar para ela. As palavras escapam antes mesmo que eu consiga raciocinar. — Hadasha... Minha voz sai baixa. Quase um sussurro. Ela ergue lentamente os olhos em minha direção. Percebo o exato instante em que ela finalmente me vê. A surpresa estampada em seu rosto é praticamente idêntica à minha. Os lábios dela se entreabrem discretamente. — Caleb... O silêncio toma conta da sala. Andrew alterna o olhar entre nós dois, completamente surpreso. — Vocês... já se conhecem? Desvio os olhos de Hadasha apenas o suficiente para responder. Faço um discreto movimento afirmativo com a cabeça. — Sim. Minha voz finalmente volta ao normal. — Nós fomos amigos na adolescência. Alguns diretores trocam olhares curiosos. Andrew sorri, claramente satisfeito com a coincidência. — Que interessante. E você não sabia que a nova contratada era justamente sua amiga? Balanço a cabeça negativamente. — Não. Fecho lentamente a tampa do notebook. — Eu confiei integralmente na avaliação técnica da diretoria. Sei da competência de cada profissional desta mesa e jamais imaginei que cometeriam um erro na escolha de alguém para ocupar um cargo tão importante. Quando vocês começaram a falar sobre a nova gerente, preferi aguardá-la para conhecê-la pessoalmente. Volto meus olhos para Hadasha. Ainda tenho dificuldade para acreditar que ela realmente está diante de mim. — Confesso que a última pessoa que imaginei encontrar aqui era justamente alguém que não vejo há cinco anos. Ela permanece completamente séria. Nenhum sorriso. Nenhuma demonstração de alegria. Apenas uma postura profissional. Quase... distante. A mesma distância que ela colocou entre nós depois daquela noite. Ela finalmente fala. Mas não pronuncia meu nome. Olha diretamente para mim e diz, com absoluta formalidade: — Para mim também foi uma surpresa, senhor Wilson. Aquelas duas palavras atingem meu peito com muito mais força do que qualquer acusação. Senhor Wilson. Não Caleb. Não o amigo de tantos anos. Apenas o presidente da empresa. Apenas o homem sentado na cabeceira daquela mesa. Ela desvia os olhos de mim antes que eu consiga dizer qualquer coisa. Com a mesma serenidade, volta-se para os demais diretores. — Com licença, senhor Wilson, posso dar início à apresentação do meu projeto? Naquele instante, compreendo que cinco anos não foram suficientes para apagar o passado. Muito menos a mágoa que deixei no coração da garota que um dia foi minha melhor amiga.






