####CAPÍTULO 10

Assim que a porta de vidro do salão de beleza se fecha atrás de nós, o vento ameno de Nova York atinge meu rosto fresco, e Caroline para por um instante na calçada movimentada. Ela me analisa de cima a baixo mais uma vez, ajustando os olhos como uma artista que contempla a própria obra concluída, e um sorriso largo de pura satisfação surge em seus lábios.

— Agora, sim — ela declara, cruzando os braços com firmeza. — Eu já sei exatamente para onde nós vamos.

Olho para ela com curiosidade, ajeitando a alça da bolsa no ombro enquanto acompanho seus passos lentos pela calçada.

— Para onde?

— Para a Target — ela responde sem hesitar, apontando na direção da avenida. — Lá tem roupas lindas, de marcas conhecidas e, o melhor de tudo, sempre aparecem promoções maravilhosas. Você vai montar um guarda-roupa profissional impecável sem precisar estourar o orçamento antes mesmo de receber o primeiro salário.

Solto uma risada baixa, balançando a cabeça diante da animação contagiante dela, mas faço questão de impor o meu limite antes que a empolgação vá longe demais.

— Por favor, Caroline... você não me invente de me fazer experimentar roupas muito decotadas, saias curtíssimas ou qualquer coisa desse tipo. Você sabe muito bem como eu sou e do que eu gosto.

Caroline coloca uma das mãos sobre o peito, abrindo os olhos e a boca em uma encenação dramática de ofensa.

— Eu, por acaso, tenho cara de quem veste as amigas para desfilar em tapete vermelho de premiação? Fique tranquila, dona Hadasha. Você vai continuar sendo você mesma, exatamente com a sua essência. Só vai ficar incomparavelmente mais elegante e executiva.

O aperto no meu peito desfaz um pouco, e dou um sorriso sincero de alívio.

— Isso eu aceito.

Ela estala os dedos no ar, como se uma lâmpada tivesse acabado de acender sobre sua cabeça.

— E por falar nisso, também vamos passar no setor de cosméticos para comprar um perfume novo, hidratantes marcantes, essas coisas. Você vai começar em um emprego extremamente importante amanhã. Merece esse carinho e esse cuidado com você mesma.

— Está bem — concordo, sentindo-me gradativamente mais confortável com a ideia de me permitir um pouco de autocuidado.

Caroline volta a me olhar de lado, reparando no meu rosto limpo e na ausência do peso metálico que me acompanhou por anos.

— E você conseguiu pegar as lentes de contato com o oftalmologista antes de vir para o salão?

Assinto devagar, tocando de leve o canto do olho para sentir a diferença quase imperceptível de enxergar o mundo sem a barreira das armações pesadas.

— Sim. Por incrível que pareça, ele já tinha o meu grau exato disponível no estoque para teste. Fiz todos os exames de adaptação no consultório e me adaptei super bem.

— E aí? Gostou da sensação de enxergar o mundo sem aquele trambolho na cara?

— Gostei bastante, tenho que confessar — admito, abrindo um pequeno sorriso. — O médico disse que o ideal mesmo seria eu agendar uma cirurgia refrativa para a correção definitiva da visão, mas agora não dá. Vou começar a trabalhar e preciso de foco total. Quando eu entrar de férias, daqui a alguns meses, aí sim vou sentar e planejar essa cirurgia com calma.

— Faz todo sentido — Caroline concorda, assentindo com a cabeça. — Primeiro você se adapta ao ritmo da empresa, consolida seu espaço por lá e depois resolve a parte médica nas férias.

Continuamos caminhando lado a lado até alcançarmos o estacionamento onde deixei meu carro. Destravo as portas à distância, e a menção ao espaço no porta-malas me lembra de outro item essencial na minha lista mental para o dia de hoje.

— Ah, e nós também precisamos aproveitar a ida à loja para comprar roupas novas para as crianças.

Caroline sorri imediatamente, e o olhar dela ganha aquele brilho afetuoso que ela sempre ostenta ao falar dos meus filhos.

— A Zara e o Owen já perderam mais roupas? Como pode?

— Nem me fale — dou uma risadinha, lembrando da rapidez com que as calças deles ficam curtas nas canelas. — Eles crescem rápido demais. Tem um monte de peças que já estão ficando pequenas e apertadas. Vou comprar algumas peças do tamanho novo e separar todas as outras em caixas para doar ao orfanato do bairro. A maioria está impecável. Tenho certeza de que outras crianças poderão aproveitar bastante.

— Isso é tão a sua cara, Hadasha — ela murmura, observando-me com carinho enquanto abro a porta do passageiro para que ela entre.

Dou a volta, sentando-me no banco do motorista e puxando o cinto de segurança. O estalo do fecho reverbera no painel enquanto ligo o motor e ligo o ar-condicionado.

— O papai e a mamãe vêm buscá-los no final da semana para as férias de verão — comento, ajustando o retrovisor interno. — As crianças vão passar esse período com os avós lá em Michigan, e tenho que confessar que isso vai me deixar muito mais tranquila para encarar o início desse trabalho novo.

— Melhor impossível — Caroline concorda, ajeitando-se no banco ao meu lado. — Assim você consegue se dedicar 100% aos primeiros dias de integração na empresa, entender a rotina e se estabilizar sem aquela correria louca de precisar se desdobrar em dez para dar conta de tudo ao mesmo tempo.

Assinto, sentindo o peso da gratidão por ter uma rede de apoio tão sólida.

— Vou falar com eles todos os dias por videochamada antes de dormir — afirmo, engatando a marcha e saindo devagar da vaga. — Eu não consigo nem imaginar ficar tanto tempo longe sem ver o rosto daqueles dois ou ouvir as historinhas deles antes de ir para a cama.

Caroline sorri com ternura, recostando a cabeça no banco.

— A sua sorte é que seus pais são completamente e desesperadamente apaixonados por aqueles netos.

Olho para ela de relance enquanto entro no fluxo do trânsito e dou uma risada gostosa.

— Aliás... quem é que não fica completamente apaixonado por aquelas duas figuras?

Caroline leva a mão ao peito no mesmo instante, com um olhar cheio de orgulho.

— Eu sou completamente, terrivelmente apaixonada pelos meus afilhados! E você sabe muito bem disso.

Sinto meu peito se aquecer por inteiro. O peso dos últimos cinco anos de luta parece encontrar um lugar de repouso na presença da mulher que esteve ao meu lado quando o mundo inteiro me virou as costas.

— Eles são os meus anjos, Carol — digo com a voz mais baixa, carregada de uma emoção profunda. — Às vezes eu paro para pensar em tudo o que nós passamos... Estudar até de madrugada, cuidar deles recém-nascidos, fazer estágio, preparar trabalhos extensos da faculdade... Se eu consegui chegar até aqui hoje, inteira e formada com honras, foi porque eu nunca estive sozinha.

Manobro o carro no sinal vermelho e me viro por alguns segundos para encará-la nos olhos antes de continuar.

— Quantas noites você me encontrou chorando no meio do quarto porque um estava com cólica, o outro acordava assustado logo depois, e eu já não sabia mais se estudava para a prova do dia seguinte ou se tentava dormir vinte minutos... E mesmo tendo os seus próprios exames pesados para fazer, você largava os seus livros para me socorrer. Você embalava o Owen nos braços enquanto eu amamentava a Zara. Eu nunca, em toda a minha vida, vou esquecer o que você fez por nós.

Os olhos de Caroline ficam imediatamente marejados, e ela pisca rápido para segurar a lágrima que ameaça escorrer.

— Você faria exatamente a mesma coisa por mim, Hadasha. Sem pensar duas vezes.

— Faria — respondo, sentindo o nó na garganta. — E foi exatamente por isso que escolhi você para ser a madrinha deles. Nunca existiu nenhuma outra pessoa no mundo que merecesse esse lugar mais do que você.

Ela abre um sorriso emocionado, fungando de leve antes de soltar uma brincadeira para quebrar a tensão do momento.

— E ai de você se inventasse de escolher qualquer outra pessoa! Eu surtaria!

Caio na risada, e o som da nossa gargalhada preenche o interior do carro, afastando qualquer vestígio de dor ou cansaço do passado.

Acelero o carro pelas ruas de Nova York enquanto continuamos conversando sobre a lista de compras das crianças, o modelo dos terninhos executivos que vou experimentar e todos os detalhes do dia de amanhã.

Quando estacionamos na vaga da Target, Caroline estica o braço e b**e levemente na minha mão apoiada sobre o volante, chamando minha atenção com um olhar firme e cheio de determinação.

— Agora chega de nostalgia, dona Hadasha. Vamos fazer essas compras porque amanhã você vai pisar naquela multinacional e entrar em grande estilo no seu primeiro dia de trabalho.

Sorrio, sentindo aquele frio gostoso e inevitável na barriga, a ansiedade boa de quem sabe que a tempestade passou e que a colheita finalmente chegou.

— Então vamos — digo, destravando as portas do carro. — Amanhã começa oficialmente a nova fase da minha vida.

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