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A porta de madeira se fecha com um estalo suave, mas o som ressoa pelos quatro cantos do meu escritório como se fosse o disparo de um canhão. Fico paralisado por longos segundos, com os olhos cravados na madeira polida da porta, exatamente no ponto onde Hadasha esteve parada há poucos instantes. O silêncio que ela deixa para trás não é calmo; é um silêncio pesado, denso, um vácuo absoluto que parece sugar todo o ar da sala e congelar meus pulmões. Ela não tentou me dar longas explicações, não chorou diante de mim, não pediu perdão, não exigiu cobranças e nem me deu a chance de disparar minhas defesas automáticas. Ela simplesmente colocou aquela caixa de madeira escura no centro da minha mesa e me entregou, sem uma única palavra sobressalente, a totalidade de cinco anos de ausência. Lentamente, abaixo o olhar. A caixa descansa a poucos centímetros do meu teclado, imponente e assustadora. A madeira bem trabalhada guarda um mistério que, no fundo da minha alma, eu já sei exatamente qual é, mas cuja confirmação tenho pavor de encarar. Sinto minhas mãos tremerem visivelmente sobre a superfície fria da escrivaninha. Por alguns minutos intermináveis, perco a capacidade de reação. Fico apenas encarando o contorno da tampa, sentindo o pulso martelar desordenadamente na garganta, ciente de que, no momento em que eu erguer aquela madeira, nada na minha vida jamais voltará a ser como era dez minutos atrás. O homem que entrou nesta empresa hoje cedo deixará de existir no instante em que eu tocar naquela verdade. Respiro fundo, buscando um ar que não parece chegar até o peito, e estendo os braços. Meus dedos roçam a tampa de madeira e hesitation por um segundo antes de puxá-la para cima. O som suave da madeira deslizando rompe o silêncio da sala. O aroma discreto de papel guardado e um perfume suave, que reconheço imediatamente como o dela, se espalham pelo ar. E então, eu olho para dentro. A primeira imagem reposicionada bem no topo do conteúdo faz o meu coração falhar uma batida inteira. O sangue foge do meu rosto instantaneamente. É uma fotografia antiga, de cinco anos atrás, revelada em papel brilhante. Na foto, estou eu, postado na entrada da casa dos pais de Hadasha, vestindo o terno do baile de formatura. Lembro-me exatamente daquele momento: a mãe dela, Kelly, estava com a câmera na mão, rindo no varal da entrada e dizendo para nós dois nos aproximarmos. Na imagem, estou entregando a Hadasha o pequeno corsage de tulipas lilás que passei a tarde inteira procurando pelas floriculturas da cidade, sabendo que o lilás era a cor favorita dela. Ela está sorrindo, é aquele sorriso tímido, radiante e genuíno que só aparecia quando ela conseguia esquecer, por alguns instantes, todas as inseguranças e dúvidas que carregava no peito durante a adolescência. Eu costumava passar horas me esforçando só para ver esse sorriso desarmado. Uma lágrima quente e solitária escapa do meu olho esquerdo antes que eu consiga conter qualquer reação, pingando diretamente na borda do plástico protetor da foto. — Lembro-me perfeitamente daquela noite. Ela achava que não era bonita o suficiente para a festa, e eu passei cada minuto daquele trajeto tentando convencê-la de que ela era a mulher mais incrível daquela cidade. Como foi que nós saímos daquele sorriso radiante na porta de casa para o abismo em que nos afundamos? Puxo a foto da formatura e a coloco de lado. Logo abaixo dela, repousa o álbum de fotografias de capa dura, grosso e pesado. — Com os dedos rígidos, abro a primeira página e dou início a uma jornada dolorosa por uma vida que me foi completamente ocultada — ou melhor, por uma vida da qual eu me excluí. As páginas iniciais pertencem a uma realidade paralela, Hadasha aparece caminhando pelos corredores de uma universidade que não reconheço, com uma mochila visivelmente pesada nas costas e o rosto marcado pelo cansaço evidente. —: Viro a página e o golpe vem sem piedade. Na fotografia seguinte, tirada em um ângulo lateral em um corredor de faculdade, percebo a transformação física que nunca tive a chance de acompanhar: a barriga dela começa a despontar sob o casaco largo. Não é apenas uma desconfiança; é uma curva nítida, inegável e cheia de vida. Meu peito se contrai numa dor física tão aguda que preciso apoiar a mão livre sobre a mesa para não tombar para a frente. —O ar escapa dos meus pulmões num chiado doloroso. Continuo folheando, quase hipnotizado pela crueldade daquela linha do tempo. Viro as páginas e vejo a gestação avançar mês a mês. Hadasha com a barriga saliente, sentada em mesas de bibliotecas cercada por pilhas de livros didáticos. — Hadasha caminhando sob a neve com a mão espalmada sobre o ventre proeminente, os lábios pálidos e os olhos carregados de uma exaustão silenciosa. Em momento algum ela parece ter parado. Ela continuou estudando. Continuou lutando. — Continuou encarando o mundo com a barriga crescendo e sem uma única estrutura que não fosse a própria determinação. E então, chego às imagens da maternidade. O impacto é devastador. As fotos mostram o ambiente frio de um quarto de hospital. — Hadasha está deitada sobre o leito, com o rosto pálido, os cabelos desgrenhados e suados grudados na testa, segurando dois bebês absurdamente minúsculos contra o peito nu. Ela está chorando na foto. Mas não é o choro de desespero que imaginei que ela teria; é o rosto de uma mulher completamente devastada de amor, transbordando uma entrega e uma paixão absoluta por aquelas duas vidas recém-nascidas. — Ao lado do leito, Kelly aparece curvada, com a mão firme sobre o ombro da filha, ambas sorrindo em meio às lágrimas enquanto observam os pequenos rostos de Zara e Owen.






