Mundo ficciónIniciar sesiónHADASHA
O aroma característico de óleos essenciais, tintura e produtos capilares de alta linha domina o ambiente do salão de beleza executivo que Caroline escolheu. O som de secadores e conversas cruzadas preenche o espaço amplo, cercado por espelhos gigantescos e iluminação impecável. Estou sentada na cadeira giratória do profissional há quase duas horas. Meus óculos antigos de armação pesada estão guardados com segurança dentro da minha bolsa, e já consigo sentir a diferença suave das lentes de contato que encomendei na consulta anterior ajustando a minha visão com uma clareza impressionante. O ortodontista também cumpriu a sua parte do acordo com perfeição mais cedo: a estrutura metálica do aparelho que usei por tanto tempo foi finalmente removida, e um clareamento estético cuidadoso devolveu um brilho impecável aos meus dentes. A cabeleireira finaliza a escova nos meus fios, e o resultado refletido no espelho me faz prender a respiração por um instante. Meu cabelo continua longo, mas o corte em camadas deu um movimento leve e elegante que eu jamais imaginei ser possível. Meu rosto está completamente livre, sem a sombra das armações antigas ou a postura encolhida do passado. — Ficou simplesmente perfeito — Caroline surge atrás de mim pelo espelho, sorrindo de orelha a orelha. — Eu não disse? Você é uma mulher deslumbrante, Hadasha. Só precisava parar de se esconder atrás de tecidos velhos e quinquilharias. — Não exagere, Carol — respondo, embora não consiga conter um pequeno sorriso ao admirar o meu próprio reflexo. — Eu continuo sendo a mesma pessoa por dentro. E não se esqueça do nosso combinado: as roupas que vamos comprar agora precisam ser estritamente profissionais e discretas. Não vou me fantasiar para ir trabalhar. — Já entendi, dona certinha. Elegância pura, nada de escândalo. Enquanto Caroline se afasta para pagar o serviço na recepção, permaneço na cadeira aguardando a finalização dos produtos. É nesse momento que percebo, através do reflexo do espelho grande à minha frente, uma mulher em uma das estações de maquiagem mais ao fundo. Ela acabou de tirar os óculos escuros e ajusta a postura enquanto reclama do atendimento com uma das assistentes. Sinto uma pontada estranha no estômago. Aquela postura altiva, o queixo erguido com arrogância e os traços marcantes me parecem dolorosamente familiares. Desvio o olhar rapidamente, tentando me convencer de que é apenas paranoia da minha cabeça. Mas o movimento do salão faz com que a mulher se levante e caminhe na minha direção para pegar o casaco no cabideiro próximo à minha cadeira. Quando ela passa ao meu lado, nossos olhares se cruzam pelo espelho. Ela para abruptamente. Vejo o momento exato em que os olhos dela se arregalam ligeiramente, analisando o meu rosto desprovido de aparelho, com os cabelos impecáveis e as lentes de contato. A confusão e a dúvida estampam a cara dela por alguns segundos, até que a memória finalmente se conecta. — Hadasha? — a voz dela sai carregada de uma incredulidade quase cômica. — É você mesma? Viro a cadeira devagar na direção dela, mantendo a coluna ereta e a expressão absolutamente serena. — Olá, Liv. Liv dá meio passo para trás, cobrindo a minha figura dos pés à cabeça com um olhar minuciososo, tentando desesperadamente encontrar a adolescente franzina, de roupas largas e óculos gigantes que ela costumava ridicularizar nos tempos de colégio. — Meu Deus... você no salão? Se arrumando desse jeito? — ela solta uma risadinha debochada, a mesma risada azeda que usava para me diminuir no passado, tentando recuperar o controle da situação. — Pensei que você tivesse ficado para sempre em Michigan morando com os seus pais. Sinto um calor leve subir pelo meu pescoço, mas não é medo ou vergonha. É a sensação libertadora de saber que aquela garota assustada de dezessete anos não mora mais dentro de mim. — Por que eu não poderia estar em um salão, Liv? — pergunto, com o tom de voz calmo, firme e aveludado. — As pessoas amadurecem, se formam e seguem em frente. Liv pisca, nitidamente surpresa com a falta de hesitação na minha resposta. A arrogância dela dá um pequeno salto para trás diante do meu equilíbrio. — Não foi o que eu quis dizer... é só que você está... diferente. Quanto tempo faz? Cinco anos? — Cinco anos — confirmo, levantando-me da cadeira com elegância. Caroline se aproxima nesse exato segundo, percebendo o clima tenso no ar. Ela para ao meu lado, cruzando os braços e encarando Liv com um olhar protetor e analítico. — Hadasha, o táxi para o shopping já está esperando por nós lá fora — Caroline avisa, olhando para mim. — Precisamos comprar o seu novo guarda-roupa executivo para a estreia de amanhã. Liv apoia a mão na cintura, dando um sorriso venenoso e carregado de superioridade ao notar o moletom cinza antigo que eu ainda estou usando por cima da roupa para proteger o corte do cabelo. — Vejo que o cabelo mudou, mas você continua apegada a esses moletons horrorosos e sem forma, não é? Olho para o meu casaco e depois volto a encarar os olhos de Liv com total indiferença. — Continuo. São confortáveis, quentes e me serviram muito bem durante os anos em que me dediquei exclusivamente a tirar as melhores notas da universidade. A roupa nunca definiu a minha inteligência, Liv. A alfinetada entra direto no alvo. O sorriso debochado de Liv desaparece instantaneamente. — Pelo visto você continua exatamente com a mesma antipatia de sempre, Hadasha — ela rebate, tentando desesperadamente dar a última palavra. Dou um passo à frente, ajustando a minha bolsa no ombro e sustentando o olhar dela sem piscar por um segundo sequer. — Não, Liv. Eu não sou antipática. Eu apenas cresci. Não sou mais aquela adolescente ingênua que abaixava a cabeça enquanto vocês faziam piadas cruéis nos corredores. O tempo daquela garota indefesa acabou há muito tempo. Liv permanece em silêncio absoluto, com os lábios cerrados e a expressão completamente paralisada pelo choque de ver a minha postura de mulher dona de si. Viro-me para Caroline com um sorriso leve e um gesto tranquilo de cabeça. — Vamos, Carol. Nós temos um grande dia pela frente e eu preciso descansar bem. Amanhã é finalmente o meu primeiro dia de trabalho na Mobility & Energy Group. Saio do salão com passos firmes ao lado da minha amiga, ouvindo o som dos meus sapatos ecoando com autoridade no chão. Deixo para trás a sombra de Liv e todas as marcas de um passado que não tem mais qualquer poder sobre quem eu me tornei. Acredito do fundo do meu coração que aquele encontro no salão foi apenas uma coincidência desagradável do destino e que, a partir de amanhã, nada mais poderá interferir na minha nova vida.






