####CAPÍTULO 48

HADASHA

Fico alguns minutos ali, em absoluto silêncio, encarando o aparelho sobre a mesa.

— O plástico do telefone ainda guarda o calor da minha mão, mas ao mesmo tempo contrasta com o gelo que escorre pelas minhas veias.

O toque frio da base sob as minhas palmas ainda trêmulas é a única coisa que me mantém ancorada à realidade, me impedindo de flutuar na névoa de pânico que ameaça tomar conta da sala.

E pela primeira vez em cinco anos, o ar parece entrar de forma diferente nos meus pulmões — não porque o peso tenha sumido, mas porque a barragem cedeu.

— O dique de contenção que passei meia década construindo, tijolo por tijolo, à custa de noites em claro e engolindo o próprio choro, finalmente ruiu sob a pressão da verdade.

A verdade já não pertence mais apenas ao meu isolamento.

— Ela não está mais trancada a sete chaves no fundo da minha gaveta ou escondida na minha mente durante os meus piores pesadelos.

Ela agora corre solta pelo prédio, atravessa os corredores em passos invisíveis e repousa pesada, inestimável e viva dentro daquela caixa de madeira sobre a mesa de Caleb.

Forço meus olhos a se fixarem na tela do computador.

— As luzes de LED brilham contra as minhas pupilas cansadas, mas a minha vista custa a focar.

Puxo a primeira pasta de relatórios que precisa da minha assinatura naquela manhã e tento ler as linhas numéricas, mas os dígitos se embaralham diante da minha vista, transformando-se em borrões sem sentido.

Minha mente não está nestes relatórios, minha mente está há alguns metros dali, do outro lado do corredor, dentro do escritório dele.

— Consigo imaginar com uma precisão dolorosa o momento exato em que ele estenderá as mãos trêmulas para erguer a tampa pesada de madeira.

Consigo ver o impacto rasgar o rosto dele ao encarar o tecido do vestido azul, o contorno em escala de cinza dos primeiros ultrassons, a nitidez dos meus certificados com notas máximas obtidas à custa de noites sem dormir e xícaras de café frio, e, finalmente, aquela última fotografia.

— O sorriso que tínhamos na noite em que o nosso mundo ruiu.

Aquele sorriso radiante, ingênuo, de dois jovens que acreditavam que o futuro lhes pertencia, segundos antes de a tempestade levar tudo o que conhecíamos.

A cada pequeno barulho no corredor — o som de um salto batendo no piso de mármore, o murmúrio distante de dois funcionários conversando, uma porta se abrindo ao fundo —, meu peito dá um salto involuntário.

— O coração dispara contra a caixa torácica com uma violência que me faz perder o fôlego por um segundo.

Uma parte de mim, aquela mesma parte febril e covarde que me fez virar as costas e sair correndo da sala dele assim que soltei a caixa, quer se encolher atrás da mesa, fechar os olhos e torcer para o tempo parar.

— Quer fugir de novo, pegar as crianças e se esconder onde ninguém possa nos achar.

— Mas a outra parte, aquela mulher que a doutora Claire ajudou a desenterrar dos escombros e que teve de aprender a criar duas crianças sozinha na raça, sabe que a espera faz parte da sentença. Sabe que fugir já não é mais uma opção.

Sei que Caleb precisa desse tempo a sós com os papéis.

— Ele precisa encarar o passado sem a minha interferência, sem o escudo das minhas defesas, sem o tom acusatório da minha voz e sem as minhas justificativas entaladas na garganta.

Ele precisa ver a prova irrefutável de tudo o que perdeu, de tudo o que eu passei na solidão daquele apartamento e de tudo o que nós deixamos para trás ao longo desse caminho marcado por mal-entendidos e orgulho.

— Ele precisa olhar para a imagem das crianças e juntar as peças sozinho.

Respiro fundo, sentindo o nó na garganta se afrouxar ligeiramente, dando lugar a uma resignação calma e dura.

— Ajusto a postura na cadeira, ergo os ombros, seguro a caneta de metal com firmeza entre os dedos e me obrigo a assinar o primeiro documento.

A tinta azul desliza pelo papel, selando o meu compromisso com a rotina que me salvou até aqui.

— A manhã apenas começou, o expediente exige a minha presença e, enquanto Caleb não cruzar a minha porta para exigir as respostas que sobram, eu preciso continuar de pé.

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