Mundo ficciónIniciar sesiónO MAL-ENTENDIDO
Empurro Liv com firmeza para trás no mesmo segundo em que tento desvencilhar do beijo forçado e invasivo. — A irritação que se acumula no meu peito desde que pisei naquele salão finalmente transborda. Desde o momento em que cheguei ao baile, Liv agiu como se fosse a dona da minha noite, arrastando-me de um lado para o outro diante de todos, monopolizando cada minuto da minha atenção com uma superficialidade sufocante. Eu tinha ido até ali com um propósito claro: acompanhar a Hadasha, fazê-la se sentir a mulher mais especial daquele salão e honrar tudo o que havíamos vivido na noite anterior. Em vez disso, pela minha própria hesitação em impor um limite brutal, permiti que a situação saísse completamente do meu controle. — Agora me deixa ir atrás da Hadasha — digo com a voz firme, limpando os lábios com as costas da mão em um gesto involuntário de repulsa. — Você monopolizou o meu tempo a noite inteira, Liv. Eu vim a este baile como acompanhante dela, para ficar com ela, e não com você. Liv cruza os braços sobre o vestido brilhante e revira os olhos, soltando uma risada curta e debochada que ecoa no corredor lateral. O sorriso arrogante que ela ostenta desde os tempos do colégio permanece cravado em seu rosto, alimentado pela certeza absoluta de que seu charme é capaz de dobrar qualquer homem ao seu bel-prazer. — Não acredito que você vai me dispensar por causa daquela nerdzinha sem graça, Caleb — desdenha ela, dando um passo à frente com uma postura provocativa. Sinto um nó amargo se fechar na minha garganta. A futilidade de Liv sempre foi algo que me causou repulsa, mas ouvi-la diminuir a Hadasha com tamanha arrogância faz meu sangue ferver. Nunca suportei a ideia de que a aparência física ou a aprovação social pudessem definir o valor real de alguém. — Não fale assim da Hadasha — advirto, estreitando os olhos e mantendo a voz baixa, porém carregada de uma gravidade ameaçadora. — Ué, estou mentindo por acaso? — rebate ela, dando de ombros com total indiferença. — Ela é sem graça, é feia e não tem presença nenhuma. A única coisa que se aproveita ali é que ela é inteligente e alta. H oje e, para não dizer que sou maldosa, reparei que o cabelo dela é bonito quando fica solto... aquele cabelo preto, liso, caindo até a cintura. O s olhos azuis também chamam atenção se você olhar de perto. Mas fora isso? Meu Deus, Caleb! Aqueles óculos enormes que parecem fundo de garrafa e aquele aparelho nos dentes deixam a boca dela completamente estranha. Fecho os olhos por um instante, puxando o ar com força pelo nariz para não perder completamente o controle da situação. Liv sempre viveu na superfície rasa das coisas, incapaz de compreender que as qualidades mais valiosas de um ser humano raramente são capturadas pelo reflexo de um espelho ou por curtidas em redes sociais. — Para com isso, Liv — digo, encarando-a com o mais puro desprezo. — Você realmente acredita que a vida inteira se resume a uma fachada e a um rosto bonito? — Na maior parte das vezes, sim — responde ela imediatamente, erguendo o queixo com orgulho. Balanço a cabeça negativamente, sentindo uma pena genuína da pequenez com que ela enxerga o mundo. — Então você nunca vai conseguir entender o que eu vejo na Hadasha — afirmo com convicção. — Ela tem uma beleza e uma profundidade que estão infinitamente acima dessa casca física da qual você tanto se orgulha. A Hadasha é inteligente, culta, educada, sabe conversar sobre qualquer assunto com maturidade e trata todo mundo com um respeito genuíno. Ela só não se veste como as garotas daqui porque nunca precisou usar roupas para chamar atenção ou provar nada para ninguém. Liv estreita os olhos, a expressão endurecendo conforme percebe que seus insultos não estão surtindo o efeito desejado. — Cala a boca, Caleb. — Você é divertida, Liv. Sempre foi — continuo, sustentando o olhar dela sem vacilar. — Nós nos divertimos no passado, passamos alguns momentos juntos, mas isso nunca significou que eu quisesse construir um futuro ao seu lado. Você é o tipo de mulher com quem um homem sai para passar o tempo em uma festa. A Hadasha é o tipo de mulher com quem um homem de verdade sonha em namorar, casar, construir uma família e dividir uma vida inteira. A máscara de autoconfiança de Liv desmorona por um segundo. Pela primeira vez em anos, vejo o orgulho ferido transparecer em suas feições, desfazendo a pose de garota inatingível. — Então é isso mesmo? — questiona ela, com a voz ligeiramente mais aguda. — É exatamente isso. Ela permanece em silêncio por alguns instantes, processando a rejeição enquanto tenta recuperar a postura defensiva que sempre a protegeu. — Quer dizer que você pretende assumir um namoro formal com ela? — pergunta ela, soltando uma risada irônica e carregada de veneno. — Vai assumir quando? Amanhã? Porque, se a minha memória não falha, daqui a dois dias você embarca para Massachusetts para começar o seu doutorado em Harvard. Sem contar que o seu pai vive dizendo a todo mundo que você vai ter que se dividir para gerenciar as empresas da família. Que tipo de namoro você acha que vai oferecer a ela nessas condições? Cruzo os braços, sentindo o peso da realidade atingir minhas costas, mas recusando-me a ceder ao pessimismo dela. — Nós vamos dar um jeito — declaro com firmeza. — A distância não é um obstáculo insuperável quando existe um sentimento verdadeiro e maduro entre duas pessoas. — Eu realmente pensei que nós dois fôssemos sair daqui e passar a noite juntos — murmura ela, dando meio passo na minha direção com um tom de voz que tenta soar sedutor. Dou um passo largo para trás, cortando qualquer proximidade espacial entre nós e deixando clara a barreira invisível que ergui. — Não. Agora me dá licença porque eu preciso ir atrás da Hadasha. Sem dar a ela a oportunidade de rebater, viro as costas e me afasto pelo corredor a passos largos, ignorando o som do salto dela no piso polido. Conforme me me aproximo do salão principal, o som ensurdecedor da música e os risos da festa parecem abafados pelo zumbido do pânico que começa a crescer dentro do meu peito. Transito entre as casais na pista de dança, varrendo cada canto do ambiente com os olhos, procurando o vestido azul-noturno que comprei com tanto carinho. Acelero o passo em direção à mesa onde a havia deixado sentada. Quando me aproximo, sinto meu estômago despencar em um vazio gelado: a cadeira está vazia. O copo de refrigerante continua intocado sobre a toalha branca, mas não há sinal dela. Aproximo-me apressadamente dos estudantes que ocupam a mesa ao lado, tentando manter o tom de voz controlado apesar da respiração descompassada. — Com licença... vocês viram para onde a Hadasha foi? Uma das garotas se vira devagar, aponta displicentemente com o copo em direção às portas de vidro do salão e responde sem nenhum interesse: — A nerd? Ela se levantou e saiu faz apenas alguns minutos. Parecia bem apressada. Um palavrão abafado escapa entre meus dentes. O aperto no meu peito se transforma em um nó sufocante. A dúvida cruel começa a martelar na minha cabeça: Será que ela viu? Será que ela entrou naquele corredor e me viu nos braços da Liv? Não... ela não pode ter visto. O baile estava movimentado, a iluminação era baixa... Mas o medo de ter perdido a garota que jurara proteger me impulsiona para a frente. Saio em disparada em direção à saída do clube, empurrando as portas duplas de vidro e cortando a brisa fria da noite que atinge meu rosto. Meus sapatos sociais estalam contra o cascalho do estacionamento enquanto atravesso o jardim iluminado por refletores. Minha respiração sai entrecortada, o terno sufocando meus movimentos enquanto busco desesperadamente a figura de Hadasha sob a luz dos postes. Quando finalmente alcanço o portão principal do complexo, paro bruscamente. Tudo o que vejo no final da calçada são as lanternas traseiras vermelhas de um carro de passeio acelerando e dobrando a esquina da avenida principal. Reconheço o veículo imediatamente. É o carro dos pais de Hadasha. Mesmo através do insulfilm escuro do vidro traseiro, tenho a incerteza dolorosa de que ela está ali dentro, encolhida no banco do passageiro. O silêncio da noite cai sobre mim como uma sentença de culpa. A ficha começa a cair com uma violência devastadora: ela não apenas foi embora, como foi embora chorando. Ela assistiu às danças com a Liv, sentiu-se abandonada em uma mesa vazia e, para coroar a noite, testemunhou a cena no corredor. Permaneco parado na entrada do clube, encarando o asfalto deserto onde o carro sumiu, enquanto a sensação de ter destruído a única coisa pura que construí em anos começa a me devorar por dentro.






