####CAPÍTULO 02

O BAILE

Permaneci abraçada a ele por alguns segundos, tentando convencer meu próprio coração de que aquela não era uma ilusão alimentada pela minha imaginação.

Durante anos, imaginei Caleb distante, inalcançável — um rapaz mais velho, maduro, prestes a seguir para uma universidade de prestígio, que jamais direcionaria um olhar diferente a uma garota como eu.

No entanto, na penumbra daquele quarto, era a mim que ele sustentava entre os braços.

Ele se afastou apenas o suficiente para encarar meu rosto. Seus dedos deslizaram com extrema delicadeza sobre a minha pele, enxugando uma lágrima que havia escapado sem a minha autorização.

— Eu queria guardar esse momento na minha memória antes de viajar, Harasha — murmurou ele, com a voz grave e pausada.

— Eu nunca vou esquecer o que você está fazendo por mim — respondi em um fio de voz, sentindo meus lábios tremerem levemente.

Caleb aproximou o rosto do meu sem pressa. Meu pulso acelerou tanto que tive a certeza absoluta de que ele podia sentir a vibração do meu peito contra o dele.

Quando fechei os olhos, o toque dos seus lábios nos meus aconteceu como uma carícia hesitante, marcada por um cuidado quase protetor. Foi o meu primeiro beijo.

Nesse momento, toda a bagagem de insegurança que eu carregava sobre meu corpo e meu valor simplesmente se dissolveu.

— Você me espera? — perguntou ele, mantendo a testa apoiada na minha quando nos afastamos um pouco. — Eu gosto de você, e quero que o que existe entre nós seja especial, não apenas um momento passageiro antes de eu ir para Harvard.

Apenas assenti com a cabeça, incapaz de articular uma frase coerente.

— A velocidade com que a minha realidade se transformava me deixava atordoada, mas trazia a sensação doce de um sonho antigo finalmente se concretizando.

A partir daquele instante, o ar na sala pareceu mudar de densidade. O afeto raso deu lugar a uma entrega física inevitável e profundamente íntima.

— Caleb conduziu cada passo com uma paciência terna, atento a cada um dos meus receios, garantindo que o meu nervosismo cedesse espaço ao conforto.

Estar com ele pela primeira vez não teve o peso de uma pressa impulsiva, mas sim o selo de uma promessa velada.

— Quando o silêncio do quarto voltou a se impor, ele permaneceu ao meu lado, segurando minha mão com firmeza enquanto a minha respiração se desacelerava.

Esperou que eu me recomposta totalmente antes de me acompanhar até o banheiro para que eu me preparasse para voltar.

Ao nos despedirmos na porta da minha casa, após um trajeto em que seus dedos não soltaram os meus um segundo sequer, ele me encarou através do vidro baixado do carro, sob a luz fraca do poste da rua.

— Amanhã, às seis horas da tarde em ponto, venho buscar você para o baile.

Um sorriso involuntário tomou conta do meu rosto. Sustentei o olhar dele, criando coragem para fazer a pergunta que sufocava na minha garganta.

— Então... nós estamos namorando?

Caleb sorriu de volta, um sorriso tranquilo e seguro que pareceu selar o meu destino.

— Sim.

Entrei em casa sentindo o chão desaparecer sob meus pés. Minha mãe esperava na sala e não conteve a surpresa ao ver a caixa aveludada contendo o vestido azul.

—Mostrei a peça a ela, compartilhando a promessa daquela noite com os olhos brilhando. Naquela madrugada, fechei os olhos revivendo cada detalhe — o convite, o toque suave do tecido, a entrega física no quarto dele e a confirmação de que eu pertencia a alguém. Pela primeira vez na vida, acreditei genuinamente que o amor não era algo reservado apenas às outras pessoas.

No dia seguinte, a preparação para o baile foi um ritual meticuloso. No salão, deixei que alinhassem minhas tranças com perfeição, e quando vesti o azul-noturno diante do espelho da minha casa, mal reconheci a jovem que me encarava. Às dezoito horas, a campainha tocou.

— Caleb estava impecável em um terno escuro sob medida que combinava perfeitamente com a tonalidade do meu vestido. Ele prendeu um corsage de flores delicadas em meu pulso, elogiando minha aparência com o mesmo calor da noite anterior.

Contudo, a ilusão começou a desmoronar no exato segundo em que atravessamos os portões do salão de festas da escola.

O contraste entre as nossas realidades se fez presente de imediato.

A presença de um homem de vinte e três anos acompanhando uma formanda atraiu olhares e cochichos imediatos, mas eu estava disposta a ignorar tudo.

O problema surgiu quando o olhar de Caleb cruzou o ambiente e encontrou Liv.

Ele simplesmente soltou a minha mão. Não foi um gesto brusco; foi uma desatenção automática, como se tivesse se esquecido instantaneamente de que eu estava ao seu lado.

Liv atravessou o salão com a desenvoltura de quem domina qualquer espaço. Com seus cabelos loiros impecáveis e um vestido brilhante que capturava a luz dos refletores, ela se projetou sobre ele com um abraço expansivo.

— Caleb! Eu não sabia que você vinha!

Em questão de segundos, os dois engataram uma conversa fluida e cheia de referências que me excluíam por completo. Antes que eu pudesse processar o movimento, Caleb já a acompanhava em direção à pista de dança. Fiquei estática no meio do salão.

— Esperei que ele olhasse para trás, que fizesse um sinal com a mão, que lembrasse a si mesmo de que havia ido até ali para ser o meu acompanhante. Isso nunca aconteceu.

Procurei uma mesa afastada e me sentei, assistindo de longe ao espetáculo. Ele ria das piadas dela, conduzia seus passos com uma familiaridade que me causou um nó seco na garganta.

— Tentei racionalizar, dizendo a mim mesma que eram apenas velhos conhecidos, mas a humilhação silenciosa de estar vestindo um vestido caro e ser tratada como uma mobília invisível queimava na minha pele.

O ápice da noite veio com o anúncio da rainha do baile.

Liv subiu ao palco sob gritos e aplausos efusivos. Ao receber a coroa, pegou uma segunda tiara decorativa da organização e caminhou diretamente até Caleb, posicionando o adereço sobre a cabeça dele sob a comoção dos alunos. Eles começaram a dançar o solo oficial do evento, aplaudidos por todos, enquanto eu permanecia sentada na penumbra de uma mesa vazia, com os olhos ardendo pela contenção do choro.

Incapaz de suportar a cena, levantei-me discretamente e caminhei pelo corredor lateral em direção ao banheiro para lavar o rosto. Foi no recuo daquele corredor que o resto do meu mundo desabou.

Apoiada contra a parede de alvenaria, Liv mantinha as mãos no ombro dele. E Caleb a beijava. Não era uma hesitação amigável;é um beijo denso, focado e absoluto.

O ar faltou nos meus pulmões. A sensação do toque dele na noite anterior, as promessas sussurradas e o peso de ter entregue a minha primeira vez a um homem que agora a devorava com o olhar se chocaram com uma violência devastadora dentro do meu peito.

Recuei sem fazer barulho, antes que percebessem a minha presença. Caminhei até a saída do prédio, o vento frio da noite atingindo meu rosto maquiado. Com as mãos trêmulas, peguei o celular e disquei para a minha mãe.

— Filha? — a voz dela veio rápida, carregada de uma apreensão maternal instantânea.

— Mãe... vem me buscar, por favor — pedi, ouvindo minha própria voz sair fraca, rouca e irreconhecível.

— O que aconteceu? Cadê o Caleb?

Fechei os olhos com força, deixando que a primeira lágrima finalmente cortasse a minha maquiagem.

— Ele está com a Liv.

Houve uma pausa dolorosa do outro lado da linha, o tipo de silêncio de quem compreende a gravidade do estrago sem precisar de maiores explicações.

— Estou saindo de casa agora mesmo, me espera no portão.

Desliguei, o celular e permaneci sozinha, abraçando meus próprios braços sobre o tecido azul do vestido.

—Olhando para a iluminação festiva do salão, entendi que o verdadeiro perigo do passado não é quando ele fica para trás, mas sim quando ele destrói o presente antes mesmo que a gente tenha a chance de construí-lo, e por onde eu passo, as pessoas só enxergam uma nerd.

Espero por ela do lado de fora do salão. No caminho de volta para casa, permaneço em silêncio, encarando a rua pela janela do carro. Mamãe tenta entender o que aconteceu, perguntando de forma sutil sobre o Caleb, mas eu apenas respondo de forma evasiva que ele estava muito ocupado com o pessoal do baile.

Somente quando cruzamos a porta de casa e nos vemos a sós na sala é que o nó na minha garganta finalmente desata.

— Mamãe, amanhã cedo eu já quero partir para a casa da tia Atentando a voz do jeito que consigo. —

Já vou adiantando, procurando o apartamento onde vou morar. Quando as aulas começarem, eu já vou estar toda organizada. E, mãe... se por acaso o Caleb me procurar, diga que eu viajei. Se ele pedir o meu endereço, a senhora diga que eu pedi para não dar a ninguém, que eu não quero contato com ninguém.

Mamãe olha para mim com uma mistura de choque e compaixão, compreendendo finalmente tudo o que aconteceu naquela noite e impressionada pela firmeza da minha decisão. Ela me acolhe em seus braços e diz:

— Ele te machucou, não foi, filha? Eu avisei que o Caleb era bem mais velho que você, que seria perigoso...

— Não, mãe — interrompo, limpando o rosto. — Ele está certo. Eu é que me iludi. O Caleb nunca me prometeu nada. Ele foi atencioso, me deu o meu vestido, mas os nossos mundos são diferentes. Eu não... eu não tenho a beleza da Liv, eu não sou...

— Você é linda, minha filha — ela diz firmemente, segurando o meu rosto com as duas mãos. — Você só se esconde atrás desses óculos e desse aparelho, e você sabe disso.

Engulo em seco, encarando minha mãe em silêncio. No fundo, eu sei que a dor não vem do óculos ou do aparelho, mas da certeza de ter me entregado por inteiro a alguém que me trocou na primeira oportunidade. Naquela noite, enquanto arrumo minhas malas para partir de manhã bem cedo, compreendo que alguns sonhos não terminam aos poucos. Eles simplesmente desaparecem.

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